terça-feira, 12 de dezembro de 2017

SOBRE A PROPOSTA DISTRIBUTIVISTA DE CHESTERTON CONSTANTE DO LIVRO “UM ESBOÇO DA SANIDADE”

        Gilbert Keith Chesterton foi um escritor inglês nascido em Londres em 29 de Maio de 1874 e que faleceu em 1936. Ele se declarava cristão, protestante e ortodoxo, até que em 1922 converteu-se ao catolicismo romano.

         Ele adotou a profissão de escritor em 1895 quando iniciou trabalho na editora londrina Redway e nunca mais parou de escrever livros, peças teatrais, criticar, conferenciar e ser comentarista de emissora de rádio. “O homem que foi quinta feira” e a “série de contos sobre o padre detetive” são os trabalhos que se destacam dentre a centena de livros que escreveu.

         Chesterton publicou o livro “The Outline of Sanity” (Um esboço da sanidade) em 1926.
O livro explicava como seria a proposta distributivista das propriedades. Tornou-se o líder do movimento distributivista defendendo a ideia da divisão da propriedade privada em unidades menores que deveriam ser distribuídas por toda a sociedade. Essa proposta era uma tentativa de evitar a instalação do socialismo na Inglaterra, mas ninguém a adotou por ser impraticável sem existência de um estado totalitário que era exatamente contra aquilo que ele lutava. Tal livro foi traduzido e publicado pela Editora Ecclesiae, São Paulo, 2016, em seis capítulos:
I  –  Algumas idéias gerais
II  – Alguns aspectos dos grandes negócios
III – Alguns aspectos da terra
IV – Alguns aspectos da maquinaria
V  –  Uma nota sobre emigração
VI – Um sumário

I-Algumas idéias gerais
Chesterton acreditava que socialismo era o sistema que concentrava toda a propriedade no estado e que o capitalismo era o sistema que concentraria toda a propriedade nos monopólios privados. Aliás, ele argumentava que o capitalismo já estava em seus instantes finais, a beira da falência geral e que o estado seria tomado pelo socialismo em pouquíssimo tempo. Nessa crença, ele propunha que o distributivismo, um outro sistema inventado por ele, evitaria a concentração final capitalista, bem como evitaria a instalação do tenebroso estado socialista. A solução distributivista não seria apenas uma reforma do capitalismo, mas uma reforma tão importante que evitaria a destruição do capitalismo que todos gostavam. Chesterton, porém, quando recebia a crítica que o distributivismo era utópico, ficava ressentido.
II-Alguns aspectos dos grandes negócios
Chesterton menosprezava a vantagem das grandes lojas. Não via justificativa para o grande capitalista substituir muitos pequenos mercados por apenas um grande supermercado. Negava que o supermercado pudesse vender mais barato que os pequenos comércios. Detestava tanto a possibilidade de formação de monopólios que ele queria usar a estrutura do estado para subjugar os grandes proprietários. Na verdade, ele ignorava, como muitos ignoram até hoje, que o monopólio só se estabelece definitivamente quando for chancelado pelo estado.  Ele propunha: “1)Taxação de contratos a ponto de impedir a venda das pequenas propriedades; 2)Destruição do direito de primogenitura; 3)Estabelecimento de lei para proteger os pobres, de modo a permitir que as pequenas propriedades pudessem ser defendidas contras as grandes; 4)A proteção (pelo estado) deliberada de certos experimentos por pequenas propriedades; 5)Subsídios estatais para estimular certos experimentos; 6)Criação de associação de dedicação voluntária à causa redistributivista ou outras medidas contra a formação de médias e grandes propriedades ou grandes negócios” (p. 74). Em suma, Chesterton odiava tanto os grandes proprietários que admitia a proposição de leis totalitárias, aparentemente em favor dos mais pobres, mas se esqueceu que o mesmo estado que tira o direito de um para proteger outro, em seguida tira o direito dos dois.
III-Alguns aspectos da terra
Se os males do capitalismo são acentuados pela concentração final, então seria necessário consertar, urgentemente, os erros do capitalismo por que “o socialismo nada mais é do que o completar da concentração capitalista” (p. 113). Chesterton argumentava que o pequeno proprietário rural formaria o campesinato conservador que teria coragem de lutar contra o comunismo. Ele considerava possível o surgimento de inúmeros campesinos interessados no trabalho da terra redistribuída pelo governo. Isto é, a proposta redistributivista seria tão atraente que bastariam terras serem oferecidas para imediatamente surgirem agricultores por que estes saberiam de onde vêm tudo aquilo que se consome na cidade, cujo habitante pensa que o leite veio da lata do supermercado.
IV-Alguns aspectos da maquinaria
Chesterton dizia que “a roda do destino mostra que nada veio para ficar” (p. 121). Não se pode dizer que a Torre Eifel, a máquina a vapor, a bateria elétrica e outras invenções humanas vieram para ficar, bem como não se pode dizer que o capitalismo veio para ficar. As máquinas são tantas que o seu conjunto parece um romance. Elas substituem e escravizam o ser humano que vira escravo do sistema e do feriado. O carro Ford é um exemplo de padronização, mas é também mais uma máquina que o homem livre aproveita em prol de si mesmo e que pode ser aproveitado para ampliar a redistribuição da propriedade, haja vista que se vai mais longe sobre quatro rodas. Chesterton, nessa argumentação, comete o erro de considerar que um dia o capitalismo desapareceria. É um erro porque o capitalismo nada mais é que a descrição do comportamento do ser humano. Se o capitalismo desaparecer, desaparece o homem da face da terra.
V-Uma nota sobre emigração
Chesterton pregava que a emigração deveria ser dotada de um novo espírito e de uma nova religião. Um novo espírito para se redividir e redistribuir a propriedade visando enfrentar a grande crise capitalista que se avizinhava. Uma nova religião redistributivista da propriedade seria muito importante para superar a crise que poderia desembocar no socialismo. Seria a religião da pequena propriedade buscada pelos migrantes, haja vista que as grandes propriedades atraíam o fim do sistema capitalista e as pequenas o reformavam para que se mantivesse.
VI-Um sumário
No sumário do seu livro “Um esboço da sanidade”, Chesterton apresenta novas argumentações para sustentar a sua tese da subdivisão da propriedade. O sentimento dele é mesmo o de que todo homem deveria ser proprietário de alguma coisa, mas que se a sociedade inglesa continuasse seguindo no mesmo ritmo da terceira década do século XX, então a idéia mesma de propriedade desapareceria. O que se observa na leitura do sumário é praticamente a constatação lamurienta, dele próprio, de que a idéia redistributivista não daria certo. O capitalismo já estaria tão avançado a ponto de ele escrever: As coisas privadas já são públicas, no pior sentido da palavra; isto é, elas são impessoais e desumanizadas. As coisas públicas são já privadas, no pior sentido da palavra; isto é, elas são misteriosas, secretas e amplamente corruptas (p. 187/188).
A minha opinião (de quem elaborou esse resumo) é a de que Chesterton ficou muito longe de apresentar alguma solução para os problemas do capitalismo. Pode-se dizer isso por que ele jamais percebeu que o capitalismo não era um sistema inventado por algum homem, mas que era e continua sendo a descrição do que é o ser humano desde que Adão foi criado. Daí que, apresentar uma solução para corrigir vícios do ser humano é o mesmo que pretender criar um novo ser humano por intermédio da força do estado ignorando que a humanidade foi criada por Deus e assim continuará. 

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