segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

SOBRE CHESTERTON E SEU LIVRO “O QUE HÁ DE ERRADO COM O MUNDO”

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Gilbert Keith Chesterton foi um escritor inglês nascido em Londres em 29 de Maio de 1874 e que faleceu em 1936. Ele se declarava cristão, protestante e ortodoxo, até que em 1922 converteu-se ao catolicismo romano.

Ele adotou a profissão de escritor em 1895 quando iniciou trabalho na editora londrina Redway e nunca mais parou de escrever livros, peças teatrais, criticar, conferenciar e ser comentarista de emissora de rádio. “O homem que foi quinta feira” e a “série de contos sobre o padre detetive” são os trabalhos que se destacam dentre a centena de livros que escreveu.

Chesterton casou-se com Frances Blogg em 1901 e assim permaneceu durante toda a vida dele. No livro “O que há de errado com o mundo”, escrito em 1910, aparece a sua linguagem realista (conservadora) sobre o papel dos sexos, bem como aparecem críticas fortes contra o socialismo e contra o capitalismo. 

Depois da primeira grande guerra, Chesterton se tornou líder do movimento distributivista defendendo a ideia da divisão da propriedade privada em unidades menores que deveriam ser distribuídas por toda a sociedade. Essa proposta era uma tentativa de evitar a instalação do socialismo na Inglaterra, mas ninguém a adotou por ser impraticável sem existência de um estado totalitário que era exatamente contra aquilo que ele lutava.

O livro intitulado “O que há de errado com o mundo” foi publicado pela Editora Ecclesiae, São Paulo, 2013. Tal livro está dividido em cinco partes:

Parte I)O desabrigo do homem. Resumo: O homem vive fora de casa e a mulher dentro.

Parte II)O imperialismo ou o erro acerca do homem. Resumo: o homem erra quando elege um imperador para resolver problemas simples do mundo externo a sua casa.

Parte III)O feminismo ou o erro em relação à mulher. Resumo: A mulher erra quando quer resolver problemas de fora de casa.

Parte IV)A educação ou o erro em relação à criança. Resumo: A educação não existe. Não é a educação que muda as pessoas. O professor apenas transmite seus dogmas. A verdade na escola será sempre a do professor e se ele não souber transmitir o que é a verdade dele então não será um educador. A educação fora de casa não existe e não é solução para as mazelas humanas.

Parte V)O lar do homem. Resumo: Há duas instituições que sempre foram fundamentais para a humanidade: a família e o estado. O lar do homem seria o estado. A mulher prefere o lar da casa privada e o homem prefere a casa pública, o barzinho e o parlamento. Os socialistas gostam mais do estado que da família. Por isso, são perigosos, pois preferem uma sociedade de insetos facilmente comandados que uma sociedade de humanos rebeldes agrupados em famílias que se protegem contra o estado. E, para se evitar a instalação do estado socialista, seria necessário, rapidamente, dividir a propriedade e distribuí-la para o maior número de famílias.

Sobre o que há de ERRADO no mundo, Chesterton dizia que:

Sobre o desabrigo do homem


a)É um erro comparar o ser humano a uma máquina. É por isso que os progressistas querem transformar o homem consertando seus defeitos ou acrescentando-lhe novos ideais ou características. Ou seja, pode-se transformar uma bicicleta em uma motocicleta acrescentando-lhe um motor, mas não se poderia corrigir o ser humano individualista inculcando nele o ideal socialista por intermédio da coerção estatal.

b)É um erro ter medo do passado. É por conseqüência desse erro que grande maioria dos humanos considera o futuro um refúgio onde se pode esconder a competição feroz dos antepassados. Inventam novos ideais porque não se atrevem a buscar os antigos. Olham com entusiasmo para frente porque têm medo de olhar para trás. Erram por que os fatos passados poderiam demonstrar os erros das novas idéias que novas não são. “O homem moderno pode ser contemplado no espelho” (p. 45 do livro).

c)É um erro a interferência estatal na família. “O estado não dispõe de ferramenta delicada o bastante para desarraigar os hábitos enraizados e as estreitas afeições da família. Os dois sexos, felizes ou tristes, estão tão firmemente grudados que já não os pode separar a navalha do canivete legal.” (p. 58). Isto é, é dentro da família que estão todas as boas soluções para os conflitos familiares. O estado nada pode fazer ou melhorar. A pensão determinada pelo estado não é melhor que a solução que poderia ser dada pelos demais membros da família em conflito. A família é cristã e é para sempre.

d)É um erro dizer que tanto o homem quanto a mulher são prisioneiros do casamento. É justamente o contrário por que os sexos só são verdadeiramente livres dentro da casa deles. Nesse sentido, é certo considerar que o casal precisa de uma casa para ter liberdade, mas Chesterton estaria certo ou errado ao propor a solução distributivista de que as propriedades deveriam ser divididas e distribuídas pelo estado aos casais?

Sobre o imperialismo ou erro acerca do homem

e)É um erro dizer que se algo é comum então não pode ser refinado. Pode-se iniciar uma conversa falando de algo tão comum quanto o tempo com o homem mostrando a camaradagem inerente a ele e a mulher mostrando o amor inerente a ela. E toda a camaradagem e o amor existente entre homens e mulheres podem começar pelo refinamento da conversa comum: Hoje está um belo dia.

f)O maior dos erros é convocar o super-homem para resolver problemas simples. Isso provoca o surgimento dos imperadores despóticos. “É o grande erro de modificar a alma humana a fim de adaptá-la às circunstâncias, em vez de modificar as circunstâncias humanas para adaptá-las à alma humana” (p. 96). Chesterton está certo ao dizer que isso é um grande erro. É o erro de todo esquerdista que quer usar a estrutura do estado para criar um novo ser humano, mas também parece que foi um erro de Chesterton propor a divisão e distribuição da propriedade querendo modificar circunstâncias e oferecer habitações aos casais por intermédio do estado.

Sobre o feminismo ou o erro sobre a mulher

g)Erro de aceitar o embuste como se real fosse. A saia expressa a dignidade da mulher, não a sua submissão. Quando um homem quer parecer imponente e majestoso como um juiz, um sacerdote ou um rei, eis que veste saias. Ora, o mundo inteiro está sob o governo das anáguas, pois até os homens as vestem quando querem governar (p. 123).

h)O erro da subserviência da mulher. Não é em obediência à ordem do marido que a mulher trabalha. Ao contrário, a mulher pediu que ele trabalhasse, mas ele não obedeceu.

i)O erro da rendição da mulher moderna. No início do século XX, a mulher assinou a rendição pública ao homem. Admitiu séria e oficialmente que o homem sempre tivera razão; que a casa pública era mais importante que a casa privada. Elas pediram para se ajoelhar no altar da política. O erro é achar que seriam mulheres modernas, pois era apenas uma a cada duas mil mulheres modernas que se queriam ajoelhar. Esse fato é importante para um democrata, mas tem importância mínima para a típica mentalidade moderna. Ambos os partidos modernos característicos creem em um governo de poucos. A única diferença entre eles é que uns creem que o governo deve ser conservador e o outro ser progressista.

j)O erro da mulher que se quis libertar, mas se tornou a escrava moderna. Nessa busca pela liberdade onde não existia, a mulher foi para a casa pública. Conseqüentemente, aumentou o número de mulheres que se sustentavam sozinhas. A precisão repulsiva dos negócios, os alarmes e os relógios são feitos para o homem. Mas as mulheres passaram a suportar a mesma escravidão do homem que vendia seu trabalho para levar o sustento da liberdade da casa privada. Isso é o contrário do ideal do humano criado por Deus. Chesterton ataca esse enorme erro que escravizou a mulher fora da casa privada. Ele escreve: É provável que a maioria do movimento feminista concorde comigo em que as mulheres estão sob uma vergonhosa tirania nas lojas e fábricas. Eu quero destruir a tirania. Os progressistas querem destruir a feminilidade. Eis a única diferença entre nós (p. 144).

Sobre a educação ou sobre o erro em relação à criança

k)O erro de educar crianças como repetidoras dos dogmas dos pais. “Cada nascimento é um acontecimento tão isolado quanto um milagre. Cada bebê chega tão inesperadamente quanto um monstro.” (p. 148). Como será e com quem se parecerá a criança é completamente imprevisível. A hereditariedade moral, então, é mais imprevisível ainda. Por isso, ninguém é doido o bastante para legislar ou educar com base em dogmas físicos ou hereditários. Os pais podem transformar-se, adaptar-se, evoluir, mas não têm como transmitir geneticamente ou via educação os seus aprendizados durante a vida. Os filhos farão suas próprias escolhas.

l)O erro de separar o dogma da educação. É óbvio que o mais importante na educação é que ela não existe; não existe como existe a teologia e a cavalaria. Educação significa a transmissão de certos fatos, pontos de vista ou qualidades a cada criança que nasce. Podem ser os fatos mais triviais, os pontos de vista mais ilógicos ou as qualidades mais repulsivas, mas, se passadas de geração em geração é educação. É estranho que as pessoas falem em separar o dogma da educação. O dogma é, na verdade, a única coisa que não pode ser separada da educação. Ele é educação. Um professor não dogmático é simplesmente um professor que não ensina (p. 154).

m)O erro contido no brado “Salvem as crianças”. Esse seria um brado tolo e perverso. Chesterton pergunta de que maneira esses histéricos que gritam esse brado poderiam salvar crianças se não podem salvar a si mesmos? A educação seria uma violência intelectual. “É violenta porque é criativa. É criativa porque é humana. É tão implacável quanto tocar violino; tão dogmática quanto fazer uma pintura; tão brutal quanto construir uma casa (p. 158). Resumindo, é o que toda ação humana é, uma interferência na vida e no crescimento do educado.

n)O erro de a escola considerar a limpeza física mais importante que as discussões filosóficas. Seria mais importante lavar as mãos do que verificar se elas estavam sujas de barro ou do sangue do próximo. Os educadores não se horrorizariam quando alguém pegasse as calças de segunda mão dos aristocratas por que eles também pegaram idéias de segunda mão.

o)O erro de a escola banir o ensinamento do pai pobre. A única diferença entre o homem pobre de hoje e os santos e heróis da história está naquilo que em todas as classes separa o homem comum, que é capaz de sentir, do homem grandioso, que é capaz de se expressar. O que o pobre sente é meramente a herança do homem (p. 188). A política vaga do proprietário rural, as ainda mais vagas virtudes do coronel, a alma e os anseios espirituais do mercador de chá são transmitidas na escola, mas as virtudes e tradições dos pobres não são reproduzidas na escola (p. 189).

p)O erro de retirar a mulher da educação da criança. “Houve um tempo em que eu, você e todos nós estávamos muito mais próximos de Deus. Tão próximos que ainda hoje a cor de um seixo e o cheiro de uma flor tocam nosso coração com uma espécie de autoridade e convicção, como se fossem os fragmentos de uma mensagem confusa ou traços de um rosto esquecido. Incorporar essa ardente simplicidade à totalidade da vida é o único objetivo real da educação. E quem está mais perto da criança é a mulher” (p. 193).

Sobre o lar do homem

q)O erro evolucionista. O darwinismo é um grande erro. É um grande erro sugerir que a humanidade pode ser moldada ou ajustada ao seu meio ou às suas instituições. Se assim fosse, então cada povo teria o tirano merecido. Se o homem fosse uma coisa mutável e alterável, então logo o mais astuto iria criar indivíduos com costas arqueadas e corcundas para carregar suas cargas ou membros retorcidos para desempenhar muitas tarefas. Qualquer que seja a louca imagem sugerida, ela não se compara ao pânico da fantasia humana quando supõe que a espécie fixa humana pudesse ser mudada. Se algum milionário quisesse braços, então poderia ter dez braços num porteiro; mensageiro com cem velozes pernas; tribos de anões para serem jóqueis; ter alfaiates de pernas cruzadas ou ter degustadores profissionais de vinho já nascidos com a horrível expressão sentida ao tomar o vinho ruim. A conclusão de Chesterton é a de que o homem é uma criação divina muito longe de ser fruto do evolucionismo e que quem o defende é ateu. Ele conclui dizendo que a sociedade humana não é e jamais será uma sociedade de insetos (p. 196-197).

r)O erro coletivista. O erro coletivista consiste em asseverar que, já que dois homens podem dividir um guarda-chuva, podem, portanto, dividir uma bengala. Ao menos sessenta de cada cem socialistas, ao falarem de lavanderias comunitárias, falam também de cozinhas comunitárias, mas cozinha e lavanderias são coisas completamente diferentes para o gosto do ser humano. Isso mostra, em princípio, que o socialista não compreende a natureza humana (p. 205-206). 

OBS: Chesterton não considerou que o socialista propõe o coletivismo por maldade, haja vista que declara que a proposta coletivista é apenas um erro. Porém, na verdade, o socialista é o astuto querendo escravizar o próximo com essa conversa de dividir espaços ou propriedades dos outros deixando o socialista no comando do estado.

Conclusão

Chesterton termina o livro com a seguinte parábola:
Eu começo com o cabelo de uma garotinha, pois sei que, em todo caso, é uma boa coisa. Tudo o mais é mau, mas o orgulho que uma boa mãe tem dos cabelos de sua filhinha é bom. São essas ternuras adamantinas as pedras de toque de toda época e raça. E se há outras coisas contrárias a isso, elas terão de vir abaixo. Se proprietários, leis e ciências estão contra isso, proprietários de terra, leis e ciências terão de vir abaixo. Com uma faísca da cabeleira ruiva de uma garota de rua atearei fogo na civilização moderna inteira. Porque se uma garota precisa ter cabelos longos, ela precisa ter cabelos limpos. Para tê-los limpos, não pode ter uma casa suja. Para não ter uma casa suja, ela  precisa ter uma mãe livre e desocupada. Para ter uma mãe livre, não se pode ter um senhorio usurário. Para que o senhorio não seja usurário, é preciso uma redistribuição de propriedade. E para tanto será preciso uma revolução (p. 213).

Isto é, Chesterton termina propondo uma revolução na propriedade. Pergunto ao leitor se a proposta de dividir propriedades e distribuí-las às famílias é um erro de Chesterton?

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