sábado, 22 de julho de 2017

A morte do petista Marco Aurélio Garcia e a fenda na xícara que leva à terra dos mortos

Escrito por Reinaldo Azevedo no Blog do Reinaldo/RedeTV, 22/07/2017 - 8:34
Viu-se um espetáculo de grosserias e baixarias nas redes sociais, invectivadas, de resto, por algumas páginas que fazem do ódio a sua profissão de fé.

Silenciei sobre a morte do petista Marco Aurélio Garcia, ocorrida na quinta, por uma razão simples: dado o que penso, segundo os meus valores, eu não tinha nada de bom a dizer a respeito dele. Ao contrário: quem acompanha o meu blog conhece as, sei lá, muitas dezenas de posts que lhe dediquei desde que se tornou assessor especial de Lula. E não me lembro de nenhum elogioso.

Para mim, tudo estava dito. Notem: ele não era uma personagem central da história. Sim, já enfrentei a tarefa desagradável de falar mal de mortos, mas só o faço se considerar inevitável. E, no caso, pareceu-me, sim, evitável. Não há como; quem me conhece sabe que sou assim: penso na dor dos familiares e dos amigos e sinto um desconforto enorme. Não considerando, pois, essencial a apreciação negativa da obra daquele que se vai, abstenho-me. É o que me diz o decoro. E não abro mão dele.

O registro que faço aqui é outro. Sei que sou duro no debate. Ainda na segunda, no programa “Roda Viva”, da TV Cultura, recorri à energia e à clareza que julguei necessárias para expor meu ponto de vista. Em regra, não sou exatamente suave no confronto de ideias. Mas evito e repudio a brutalidade. E é de brutalidade que vou falar.

Chegaram-me ecos do que se disse nas redes sobre a morte do petista. Mais: uma nota respeitosa, decorosa, própria de quem exerce um cargo de Estado, emitida por Aloysio Nunes, ministro das Relações Exteriores, deu início a um tsunami de baixarias como raramente se viu: contra Marco Aurélio, o morto, e contra o ministro. E, claro, os conteúdos mais furibundos estão atrás de pseudônimos, de gente que não tem cara, que parece sentir especial prazer em propagar o ódio, o fel, a maledicência gratuita.

Mais: constata-se de imediato que os mais enfáticos, os mais carregados de certeza, os mais virulentos são, também, os mais ignorantes. Eis aí um dos grandes riscos que corremos nestes dias: nunca a opinião destituída de lastro, nunca a sentença judiciosa descolada das leis, nunca a narrativa belicosa divorciada da história foram tão presentes e tão influentes. E as pessoas vão dizendo o que lhes dá na telha, fazendo tábula rasa de biografias, esmagando qualquer chance de um confronto civilizado de ideias.

Sim, o PT de Marco Aurélio Garcia é um dos responsáveis por esse estado miserável a que chegamos. Quando Lula, no seu primeiro mandato, separou o Brasil entre “nós”, que eram “eles”, e “eles”, que, bem, éramos nós, os não-petistas, estava dada, como escreveu Auden, “the crack in the tea-cup” que “opens a lane to the land of the dead”. Lá estava “a fenda na xícara de chá” a “abrir uma vereda para a terra dos mortos”.

Sim, a geleira habita o armário. O deserto suspira na cama.

O fato de a esquerda ter declarado guerra à divergência — já nos primeiros movimentos do governo FHC, em 1995 — pode absolver setores à direita de terem iniciado a pancadaria, mas não os absolve da decisão estúpida de mimetizar os métodos dos adversários, respondendo com intolerância à intolerância, com ignorância à ignorância, com cretinice à cretinice.

Outro dia, uma dessas reputações que só existem nas redes sociais sustentava que eu era um dos responsáveis por essa radicalização. É mesmo? Digam quando e em que circunstância. Ao contrário. Eu atacava justamente o fascismo de esquerda, que tornava inviável o diálogo.

Não! Eu não me arrependo de ter criado termos como “petralha” e “esquerdopata”. Enquanto houver esquerdistas justificando o roubo de dinheiro público como instrumento para beneficiar os pobres, petralhas terão de ser combatidos. Enquanto houver pessoas que acham normal jogar no lixo os fundamentos da democracia em nome da justiça e da igualdade, “esquerdopatas” terão de ser combatidos.

Mas isso não autoriza os ataques grotescos que setores identificados com a direita — alguns deles com sotaque indisfarçavelmente fascistoide — dirigiram contra Maro Aurélio, o morto, e contra Aloysio Nunes, o ministro, que não deixou de lembrar, na nota, que ambos percorreram caminhos distintos.

O que dizer? Eu rompi com a esquerda quando percebi que aquele seu, como vou chamar?, “horizonte finalista” (a exemplo de todo horizonte), onde as contradições se anulam, onde “os infinitos se estreitam num abraço insano” — experimentando-se, então, o fim da história —, era uma estupidez.

Abracei o que considero a saudável perspectiva conservadora do reformismo permanente, que não promete nem vislumbra amanhãs sorridentes. O que se tem é só luta renhida, a cada dia. Não anseio a vitória final. Não quero ter medo da derrota final. Essa coisa de viver e de ir mudando; de viver e ir se transformando; de viver e ir se emendando, bem, a graça está em isso não ter fim. É nossa condenação e nossa ascese.

E, por isso tudo, eu não poderia ser um discípulo de Marco Aurélio Garcia ou de fascistas de esquerda ou de direita.

Não contem comigo para o espetáculo dantesco.

Que Marco Aurélio descanse em paz. Porque, na morte, os infinitos se estreitam num abraço insano.

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