segunda-feira, 13 de março de 2017

Duas concepções de riqueza. Ou: Como trocar uma fortuna material por um tesouro espiritual

Duas concepções de riqueza
Escrito por Plinio Maria Solimeo na ABIM em13 de março de 2017.
Hoje as preocupações religiosas praticamente desapareceram. E foram substituídas pelo afã cada vez mais desregrado do desejo dos bens materiais. Fazer fortuna é o sonho de quase todo mundo.

Mas, afinal, para que serve uma grande fortuna? Para satisfazer a todos os gostos e caprichos? Para não se ter mais preocupação com o “pão nosso de cada dia”? Ou haverá uma finalidade mais alta para ela?

Na atual conjuntura brasileira os escândalos de corrupção estão na ordem do dia. Fala-se de milhões e milhões entregues a governantes e políticos para a obtenção de algum favor. As quantias reveladas assustam pelo seu montante. O que leva a perguntar o que os beneficiados fazem com tanto dinheiro. Ajudam instituições de caridade? Dão esmolas? Preocupam-se em ajudar os mais pobres? Empregam-no em desenvolver a cultura ou aprimorar a civilização? Nesses grandes escândalos que entenebrecem o País praticamente não se ouve falar disso.

Essas reflexões me vieram à mente ao ler a vida de uma grande santa da sociedade romana de meados do século IV, detentora de uma fortuna tão grande em terras, palácios, propriedades, escravos, que pasmam os pobres mortais do nosso triste século XXI.

O que fazia ela com tantos bens? É o que veremos.
Melânia Valéria [pintura ao lado], filha do senador Publicola e de Altina, pertencentes a ilustres famílias patrícias, nasceu em Roma no ano de 383. Sua avó materna, também chamada Melânia e igualmente santa, pertencia à importante gens Antonia.

Aos 14 anos, Melânia, a Jovem — como ficou conhecida para diferenciá-la de sua ilustre avó — casou-se com seu primo Valério Piniano, filho do prefeito de Roma e também detentor de grande fortuna.

O casal tornou-se assim extremamente rico: “Um dado verdadeiramente indicativo da fabulosa riqueza do casal, é que seu palácio em Roma era tão valioso, que nenhum senado tinha dinheiro suficiente para comprá-lo, nem sequer a própria imperatriz, Serena”[i].

Depois da morte de uma filha de um ano e de um filho logo após o nascimento, os esposos passaram de comum acordo a viver “como irmãos”, isto é, em castidade perfeita, dedicando-se às obras de misericórdia e ao apostolado.

Quando Alarico tomou Roma, Melânia refugiou-se na Sicília com seu esposo e sua mãe. Lá ela concedeu liberdade a oito mil escravos, dentre os que quiseram ser libertos. Outros preferiram continuar a servir a família. Ao mesmo tempo, vendeu suas possessões na Espanha, Aquitânia, Tarragona e Gália, para socorrer os pobres. Reteve apenas aquelas da Sicília, Campânia e África, cujos rendimentos ela destinou à manutenção de conventos.

Foi depois para o norte da África, então de maioria romana, onde brilhava “Agostinho, o maior homem de toda a África; não só, mas o maior homem de sua época”, um homem ao qual “quase nenhum, ou certamente pouquíssimos se podem comparar, de quantos floresceram desde o início do gênero humano”[ii].

Melânia e os seus se radicaram em Tagaste, cidade natal de Santo Agostinho. Além da tranqüilidade do lugar, podiam gozar da amizade do bispo local, Santo Alípio, íntimo e fiel amigo do autor da Cidade de Deus.

Ali continuaram suas obras de beneficência, fundando um mosteiro para 80 monges, no qual o marido ingressou, e um convento para 130 monjas, para onde ela se retirou.

Ao chegar à África, Melânia e Piniano venderam suas possessões da Numídia, Mauritânia e África Proconsular. Eles estavam dispostos a vender todas as suas propriedades, destinando o dinheiro arrecadado ao socorro dos pobres, ao resgate dos prisioneiros e aos mosteiros pobres. Entretanto, Santo Agostinho e dois outros bispos aconselharam-nos a dar a cada mosteiro um local e uma renda, em vez de entregar dinheiro, que logo seria gasto.

“As medidas tomadas por Melânia e seu esposo Piniano liquidaram uma das maiores fortunas de seu tempo, e com o produto das vendas socorreram os pobres e a Igreja”[iii].

“O caso de Melânia e Piniano serve para ilustrar o quanto o Cristianismo havia conquistado a alta sociedade do Baixo Império, revelando ‘o desprendimento que muitas famílias aristocráticas fazem de suas riquezas em razão de um valor cristão em ascensão: a prática da caridade através da esmola”[iv].

Em 417, Melânia, Albina, sua mãe, e Piniano empreenderam uma peregrinação à Terra Santa, onde conheceram São Jerônimo e suas discípulas, Santa Paula e Santa Eudóxia. A família decidiu ficar então na Palestina. Melânia viveu doze anos em uma ermida próxima ao Monte das Oliveiras, depois em um mosteiro que ali ergueu. Também fez generosas doações ao receber o dinheiro da venda de outras propriedades na Espanha, fundando vários mosteiros, tanto para homens quanto para mulheres.

Sua mãe faleceu em 431, seu marido em 432, e ela entregou sua alma a Deus em Jerusalém, no dia 31 de dezembro de 439, quando se celebra sua festa.

Quando Deus nos permite possuir bens materiais — evidentemente sempre de modo lícito —, quer que os empreguemos ao serviço d’Ele e da Cristandade. Esse é o grande exemplo que Santa Melânia nos dá e que deve causar espanto aos protagonistas da corrupção que assola atualmente o Brasil.
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[i] Blázquez Martinez, Aspectos del ascetismo de Melânia a Jovem, Disponível em http://descargas.cervantesvirtual.com/servlet/SirveObras/09259517522450484410046/028099.pdf?incr=1
[ii]Rampolla, Cardinal Mariano,The Life of St. Melania, Translated by E. Leahy, and Edited by Herbert Thurston, SJ. Burns & Gates, 28 Orchard Street London, W. Benziger Bros. New York, Cincinnati, Chicago. 1906 (Italian original: Card. Rampolla, “Santa Melania giuniore”, Roma, 1905). Disponível em http://www.archive.org/stream/MN5140ucmf_10/MN5140ucmf_10_djvu.txt
[iii] Blázquez, op. cit. p. 14.
[iv] Id.Ib., p. 15, in Gustavo Antônio Solimeo – Plinio Maria Solimeo, Santo Agostinho – Sua época, sua vida, sua obra, Petrus, São Paulo, 2009, p. 154.

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