sexta-feira, 14 de outubro de 2016

UMA PALAVRA AO REVOLUCIONÁRIO: sei que não te posso demover da causa revolucionária falando dos massacres, dos campos de concentração ou do terror que os teus camaradas espalharam

Escrito por Mário Chainho* e publicado no Mídia Sem Máscara
dorébabel
Caro revolucionário,

Começo por pedir-te desculpas pela minha covardia, uma vez que falo de indivíduo para indivíduo e não me dirijo a um coletivo. Sei que me devia endossar não a ti mas aos revolucionários como um todo, e também devia adotar uma posição defensiva e receando a vossa força grupal avassaladora. Lamento não ser humilde o suficiente para me colocar, inerme, debaixo das vossas botas em marcha. Talvez um dia aprenda a ser pisado com resignação ou, melhor ainda, me junte a vós e aprenda a pisar os opressores. Até lá, apenas sei falar assim, de igual para igual.

Sei que queres transformar o mundo à tua imagem e semelhança. Nada mais óbvio, porque Deus morreu mas não queres ser como Nietzsche, um “super-homem” num mundo niilista, condenado a 'morrer' abraçado a um cavalo. Ora, se Deus morreu, o lugar está vago e à tua disposição! Há quem te chame louco por teres esta pretensão, mas não tentarei demover-te de algo tão tentador e aliciante. Muitos de nós nunca sonharam ser Deus, mas acredito que uma vez congeminada essa possibilidade nenhuma outra será apelativa. Na verdade, se imaginas ser Deus é porque já és Deus: vê como é fácil corrigir o argumento de Santo Anselmo.

Também sei que não te posso demover da causa revolucionária falando dos massacres, dos campos de concentração ou do terror que os teus camaradas espalharam. Certamente que os massacrados merecerem o seu destino, especialmente os mais inocentes, e a História um dia irá glorificá-los como um degrau rumo à meta final. O sangue derramado fecunda a "terra do futuro", e sabe-se lá quantas mais coisas sereis obrigados a fazer para combater as injustiças. Como é doce a liberdade parida pelo sofrimento atroz. Aqui não há mácula, tudo é perfeito, inebriante, como a faísca do martelo que bate na bigorna, como o grito do prisioneiro que recebe o choque eléctrico na pele, como o último olhar do homem atingido pela metralha. Sim, tu és como os velhos deuses, exiges sangue, sacrifícios, ou a tua glória não será elevada aos céus abissais.

Mas por vezes o "antigo" teima em manter-se de pé, tardando em ser esmagado pela marcha do tempo. Por isso, sei que te vês obrigado em ser um elemento corrosivo que desfaz a tradição por dentro; és um agente cancerígeno que vai matando aos poucos, primeiro de maneira indolor, nulificando as funções, estupidificando, corrompendo. Tal como apressas a meta final da revolução, também apressas o final da sociedade tradicional, porque tanto a ascensão de uma como a queda de outra são coisas inevitáveis. Oh, quantos séculos de existência humana conseguiste abreviar com feminismo, gayzismo, abortismo, pacifismo, ecologismo, desarmamentismo. Os milénios não tiveram que esperar pacientemente para que uma nova era chegasse, pois já ali ao virar da esquina a velha civilização vai perecer às tuas mãos.

Por último, há que louvar-te por tudo o que fizeste para criar uma nova linguagem. Na fala antiga, por meio de muitas dificuldades, os homens ainda conseguiam entender-se e assim acabavam por se acomodar à realidade, talvez até acabando por amar o próximo. Mas tu fizeste da linguagem um elemento de incompreensão: o homem já não se encontra em terreno firme e assim já pode ser arrancado da História e lançado no futuro, passando a ser guiado pela vanguarda do povo. O teu trabalho neste campo já vai avançado, pelo que estou consciente de que dificilmente serei entendido por quem me leia. Talvez aches que isso é uma espécie de caridade, porque se o vulgo estiver na incompreensão também não sofrerá a angústia de antever o rolo compressor que o esmagará.

(Escrito em 2013.)

Imagem: 'A confusão das línguas', Gustavo Doré, gravura, 1865.

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