sábado, 23 de julho de 2016

Reforma agrária, fome zero, obrigação de comer três vezes ao dia. Ou: Fome que só existe longe

FOME QUE SÓ EXISTE LÁ LONGE
Escrito por Jacinto Flecha* e publicado na ABIM em 4/7/2015
Depois de muita ilusão fabricada e propagandeada sobre reforma agrária, afinal já se começa a cair na real. Não sobre a reforma agrária que “todo mundo quer”, mas sobre essa da propaganda. É estranho, mas “todo mundo” diz que “todo mundo quer a reforma agrária”; os motivos são os que “todo mundo sabe”; e deve ser feita do modo que “todo mundo” imagina. Mas se alguém põe a mão na massa e começam a aparecer os resultados, o que “todo mundo” vê não é o que “todo mundo” queria ou imaginava. Muito estranho…

Faz lembrar a demagogia de políticos falando em nome do “povo”. O que entendem por “povo” não é bem o que “todo mundo” entende por “povo”. Não espere o leitor que eu explique isso. Seria muito cansativo, além de desnecessário. Afinal… bem, todo mundo entende.

Nos primórdios da aplicação do Estatuto da Terra, houve umas experiências de distribuição de glebas para colonização. Um assentado recebeu sua gleba e trocou-a por uma bicicleta. Os que batucam a toada da reforma agrária se irritaram e protestaram, intensificando a batucada. Não sei o que propunham, mas é claro que a proposta pioraria ainda mais o sistema, que já era ruim.

Não adiantava apontar minhas flechas para esses demagogos, e limitei-me a comentar com meus botões: O sujeito está querendo uma bicicleta, e dão terra para ele; é claro que na primeira oportunidade ele vai trocar a terra pela bicicleta. E agora me lembro de um detalhe que esclarece muita coisa: O pessoal da reforma agrária queria proibir os assentados de vender a terra que recebessem, transformando-os assim em servos da gleba ou do governo, num coletivismo agrário que só dá certo na cabeça enviesada de comunistas. Deus nos livre desses progressos e maravilhas!

Os agro-reformistas agem por motivos ideológicos, e a realidade profunda não lhes interessa. Se eu não soubesse disso, poderia até entoar um coro altissonante contra a ingratidão desses pobres. Acontece que a realidade profunda está bem mais para o que mostra uma canção de algumas décadas atrás. Dizia assim:

Se compro na feira feijão, rapadura, pra que trabalhar?

E um versinho conhecido no Vale do Paraíba (SP) insiste:

Quando me vem aquela vontade louca de trabalhar,

Eu fico quietinho no meu cantinho

Esperando a vontade passar.


Um grande milagre idealizado pelo governo pretendia acabar com a fome. Longe de mim propor que não se acabe com a fome, tanto mais que a única fome confirmada pelas estatísticas parece ser a dos que fazem regime para emagrecer. Mas vamos ponderar umas coisinhas.

Não espanta que o governo tenha elucubrado um projeto milagroso para eliminar a fome. E autoridades de Guaribas – considerado o município mais pobre do País, por isso mesmo escolhido para iniciar a aplicação do milagre – confirmaram que o povo de lá é pobre, mas negaram que haja alguém passando fome. Se burocratas tão clarividentes, tão esbanjadores do dinheiro público, querem dar dinheiro mensalmente a essas pessoas, é claro que ninguém vai recusar. Mas se eles já não passam fome, vão aplicar o dinheiro em outra coisa. E fazem muito bem. Consigo até prever resultados como o de um projeto assistencialista de governos anteriores:

Plantando dá,

Não plantando dão.

Pra que plantar?

Não planto não.


Conforme se anunciou, o objetivo do plano miraculoso é permitir que cada brasileiro tenha três refeições por dia. Ainda bem que se falou em permitir, e não em obrigar, pois eu me limito a duas refeições diárias. Mas nunca se sabe se os socialistas utópicos vão assumir sua face ditatorial, de modo que já vou me preparando para ser obrigado a três refeições diárias.

Muito comovente o exemplo evocado por um figurão de origem humilde, que só conheceu pão com a idade de sete anos. O que não o impediu, aliás, de adquirir aquele perfil bem nutrido e uma esperteza que alguns elogiam. Incluam-me também nesse muro das lamentações, pois na fazenda onde nasci não se comia pão. Só havia biscoito de farinha, biscoito de polvilho, rosca doce, rosca seca, bolacha, rosquinha, sequilho, quebra-quebra, broa de fubá, calcanhar-de-negro, bolo, bolinho, sonho, brevidade, pastel, croquete, rocambole, panqueca, empada, omelete, curau, pamonha… Acho que estou esquecendo alguma coisa. Ah! havia pão de Lot e pão de queijo. E nunca vi por lá o tal “pão que o diabo amassou”.

O curioso é que “todo mundo” sabe que a fome existe. Mas nunca por perto, sempre lá longe, aonde ninguém foi nem vai para confirmar.
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