domingo, 6 de março de 2016

Você deve participar do jogo político sob pena de perder sua liberdade, suas propriedades seu corpo e sua vida. Ou: O drama do negacionismo

O drama do negacionismo


Por todos os dias visualizamos comportamentos de negação da política. Talvez subconscientemente alguns de nós somos até capazes de identificar estes padrões comportamentais. Mas ainda não é muito fácil avaliar seus impactos. E falamos aqui de um impacto devastador.

Simplesmente, a negação da política é o maior de todos os flagelos acometendo a direita no Brasil. Muitos falam em Foro de São Paulo. Outros mencionam o patrimonialismo doentio. Ou mesmo o culto ao estado. Todos estes fatores têm sido úteis na consolidação do esquerdismo, e, atualmente, no altíssimo risco de vivermos sob uma violentíssima ditadura de extrema-esquerda. A maior parte da responsabilidade por este cenário está na negação da política.

Para compreender este dano, imagine a situação de dois técnicos de futebol vivendo situações similares. Ambos estão na segunda divisão e possuem elencos com o mesmo potencial de gerar resultados. Nos dois casos, existe a disputa por uma das quatro vagas para a primeira divisão.

Realize, agora, que durante os seis meses do certame, o técnico do time A conseguirá executar todos seus treinamentos. Algo que dure em média cerca de 40 horas semanais. Isto sem contar o tempo de concentração e as próprias partidas. Em todo este período seu time estará dedicado.

Já o time B, em nosso exemplo, vive situação completamente diferente. Seu elenco está convencido de que apenas um quarto do tempo deve ser gasto para o treinamento. Nada além de 10 horas semanais. As demais 30 horas são gastas para discutir questões como: vale a pena jogar futebol? Outros debates incluem a “filosofia do futebol” – onde eles passam a maior parte do tempo justificando a inviabilidade do jogo – e até a “escolha de esportes opcionais”. Um debate em específico é divertido: eles discutem sobre a impossibilidade de se vencer um campeonato apenas pelo treinamento e pelas regras. Para eles é preciso discutir a compra de juízes, uma vez que seus adversários “são muito poderosos”. Quase 30 horas semanais são gastas com esse tipo de discussão.

Evidentemente, sob as mesmas condições (e considerando o mesmo perfil técnico), o time A tende a ter chances muito mais consideráveis de ir para a primeira divisão. Lembre-se que eu falei de chances, e não de uma certeza. Mas com certeza o time B deve ir para terceira divisão. O fato é que o time A aceitou o código do futebol. O time B o negou.

Em outro exemplo, considere um gerente de projetos júnior – que até tenha alguma experiência – estudando para a certificação PMP. Após o treinamento em gestão de projetos, o plano de estudo requer 400 horas de estudo em um período de três meses, após o qual o aluno estará apto a fazer a prova. Com base em dados de mercado, para uma pessoa medianamente inteligente, esta carga horária parece ser suficiente.

Observe agora uma outra pessoa com a mesma experiência e tendo assistido o mesmo treinamento e com o mesmo nível de inteligência. Porém, ao invés de estudar 400 horas, ela estudará apenas 100 horas. As demais serão gastas com elocubrações questionando a viabilidade da gestão de projetos, ou até na criação de uma teoria da conspiração onde apenas pessoas que tenham pago alguma propina poderão passar. Enfim, em nome de atitude de negação, esta pessoa não concentrará os esforços necessários a caminho de um objetivo.

Não estou querendo sugerir que as negações são absurdas per se. Na verdade, quando estamos diante de um objetivo – idealizado ou apenas discutido -, teremos atitudes de negação e não há nada de errado com isso. Quando alguém decide escolher por um curso universitário, pensamentos de negação podem levar à seguinte conclusão: é melhor abandonar este curso, pois não é aquilo que desejo, em nome de um outro. O investimento de esforços em um relacionamento pode ser interrompido pela negação da vida em dois por parte deste casal, por diversos motivos. Muitas vezes as negações podem nos levar para o brejo, mas em certos casos nos levam para terra firme.

O complicômetro aparece quando falamos de negação diante de objetivos diante dos quais qualquer opção de fuga é inaceitável. Por exemplo, imagine que você está no meio da floresta caçando com amigos e, de repente, todos precisam correr inabalavelmente de um urso. Se não o fizerem, podem virar picadinho nas mãos de um animal que pode te partir ao meio com um golpe. É totalmente insano que, no meio da fuga, você pense em parar para refletir sobre “a validade filosófica de se fugir da dor” ou sobre “problematizações em relação ao direito dos ursos de terem sua caça” (você incluído). Assim, a negação é um flagelo quando ela se torna um obstáculo em relação a um objetivo do qual é inaceitável que você fuja.

Uma vez que – por vários motivos que abordaremos no curso deste ensaio – a política é inevitável, negá-la é uma estupidez. Mas visualizar este tipo de comportamento é extremamente comum. Ouvimos todos os dias pessoas dizendo que “a democracia não funciona”, que “é melhor que venha o exército mesmo” ou que “o povo não sabe votar”. Mas se a democracia não funciona, qual a opção? E será que pedir por intervenção militar – enquanto existe um mar de oportunidades para vitórias políticas mais legítimas pela frente – é uma alternativa válida em termos morais e até pragmáticos? E será que dizer que o povo “não sabe votar” não é apenas uma justificativa esfarrapada para a falta de esforços de um dos lados da guerra política? Ao longo deste ensaio ficará claro que todos estes discursos são apenas manifestações de negação da política, raramente levando a qualquer resultado positivo.

Negações sempre geram interrupções de esforço. Como já vimos antes, não há problema algum em interromper ações que não nos interessam. Mas e quando essas ações interrompem objetivos óbvios. Ou pelo menos objetivos que deveriam ser óbvios, principalmente por não termos opções além deles. Cada vez mais a observação dos eventos políticos nos mostram que negar a política é quase tão inteligente como negar a existência da noite e do dia, a solidez das pedras e a alta temperatura da água fervente. É quase como se pudéssemos dizer: “ok, você nega que a água fervente se encontra em alta temperatura?”. O resultado desta negação pode levar alguém ao hospital.

Se isto parece uma loucura é porque definitivamente é. A direita brasileira, em muitos casos, tem praticado a loucura de negar a política. Se o primeiro princípio do código da guerra política aqui proposto defende que devemos aceitar a política como ela é, manifestar atitudes de negação é o prenúncio para o desastre. Nisto, liberais, libertários e conservadores contribuem com vários de seus adeptos nos brindando com manifestações diárias desse tipo de comportamento. Desta feita, a direita gasta tempo considerável enchendo a cabeça de minhoca e interrompendo várias iniciativas para a conquista de uma verdadeira consciência política.

Para se conseguir fugir de um urso assassino, é essencial tomar a ação de fuga como algo a concentrar todos seus esforços enquanto você tiver fôlego. Para que seu time tenha chances de ser campeão da segunda divisão, com possibilidade de acesso à primeira, é preciso treinar o máximo possível. Para passar no exame PMP, o estudo deve ser transformado em sua prioridade número zero. E para obter resultados na política, é preciso aceitá-la como ela é. Negações só tendem a gerar interrupção de esforços e redução de chance de resultados. Isso jamais funcionou em qualquer aspecto da vida. Não seria diferente para a política.

Em vários países, especialmente na Europa e na América do Norte, podemos falar sobre métodos da guerra política e gerar muitos resultados. No Brasil, há um dificultador adicional – e não estou dizendo que isso não ocorre em outros países latino-americanos – em razão do altíssimo índice de negação da política. Em consequência, vemos muitas pessoas “travarem” ao falar de política. Disto não podemos tirar outra conclusão que não compreender que transformar a negação da política (por parte da direita) em um problema a ser resolvido é um de nossos principais empreendimentos. (Obviamente, existem exceções que felizmente aumentam a cada dia; mas o problema da negação ainda é gravíssimo e muito mais volumoso do que seria tolerável)

Hoje em dia, a mina de ouro da esquerda brasileira tem sido a negação da política por parte da direita. Podemos acabar com essa festa se conhecermos os padrões de negação da política, antes de começarmos a lidar com eles.


Voltar para: O fim da infância política (ei, este é apenas um dos primeiros textos aqui colocados neste ensaio, mas teremos vários outros nos próximos dias)

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