domingo, 11 de outubro de 2015

Criticar Eduardo Cunha é o mesmo que jogar ao lado do PT. Ou: Cunha, os republicanos sem prioridade política e a urgência do pensamento jurídico

Cunha, os republicanos sem prioridade política e a urgência do pensamento jurídico
Escrito por LUCIANOHENRIQUE on 10 DE OUTUBRO DE 2015, no Ceticismo Político
Nota-se que um distúrbio lógico parece ter acometido muitos formadores de opinião republicanos. Precisamos superar esse deslize cognitivo. Caso não o façamos, precisamos superar os próprios argumentadores acometidos por este tipo de deslize e não deixar que eles definam nossas prioridades.

Na política, precisamos de advogados (e não juízes) para as nossas causas, assim como os esquerdistas possuem advogados para as causas deles. Uma visão típica de juiz é reservada aos diálogos internos, não aos públicos. Ou ao menos em diálogos restritos. Para o embate público, temos que ser advogados. Essa noção, vinda da retórica jurídica, diz que se há juízes para as questões públicas, eles estão no povo. Entre os formadores de opinião, temos advogados para cada lado na batalha por mentes. A partir do momento em que algum destes formadores de opinião ingenuamente tenta ser um juiz, ele será utilizado pelos formadores de opinião do outro lado. (Claro que existem exceções, naquelas onde agimos como juízes, a título de marketing).

Moralmente, a escolha é óbvia: seres humanos são máquinas cujo consumo calórico é finito. O moto perpetuo nunca foi validado cientificamente para máquinas, e certamente não o será para seres humanos. Assim, temos que nos conformar com os fatos: uma vez que somos agentes em nome de causas, se dividimos estes esforços em outras causas, incluindo a de nossos oponentes, então reservamos uma parte de nossa capacidade calórica para estes, em detrimento daqueles que estão ao nosso lado. Reinaldo Azevedo agiu de modo razoavelmente cético quanto a Cunha por algum tempo. Infelizmente, nos últimos dias o vemos escrever até três posts em um dia atacando o presidente da Câmara. Conclusão inescapável é que ele poderia ter utilizado o mesmo tempo gasto para escrever estes três posts em outra direção, atacando as trincheiras petistas. São escolhas.

Isto significa mentir? De jeito algum. Mas significa entender quais suas prioridades no momento de gastar energias e defender causas. Evidentemente, tanto o Antagonista quanto Reinaldo Azevedo podem estar defendendo as causas do PSDB. Mas, neste caso, nós, adeptos da liberdade, temos de nos conscientizar que eles resolveram economizar esforços no ataque ao PT em favor do PSDB. Em outras palavras, isto significa que eles aceitaram negociar parte dos esforços desta luta maior em favor de uma luta de menor importância para a maioria de nós.

Ademais, se priorizar ações no momento de escolher suas causas, para defesa ou ataque, é mentir, então passem a chamar todos os advogados de mentirosos, pois dificilmente os vemos coletar provas para atacar seus próprios clientes. Quem entender o funcionamento da advocacia, compreenderá a retórica jurídica.

E qual minha posição em relação a Eduardo Cunha? É simples: se as posições do MPF não tem mais valor algum, por representarem a visão de Dilma, que atua pelas mãos de Rodrigo Janot, as informações que passam não significam nada. Se alguém disser “ah, mas o MPF disse que o governo suíço afirmou”, então que nos mostre, ponto por ponto, as evidências. Ou seja, não se discute com o que Janot e sua turma dizem, mas com as evidências demonstradas. E mesmo existindo contas em nomes de empresas, será preciso comprovar que o dinheiro depositado nessas contas veio por meio de propina. Há um longo caminho pela frente neste caso, pois existe também a hipótese de que, sabendo dessas movimentações, pessoas cooptadas pelo PT poderiam dizer que elas vieram de propina. Isso é muito fácil de sincronizar, uma vez que as informações tenham sido adquiridas pelo aparato policial que estiver a serviço do PT. Assim, são os advogados do PT que tem que correr atrás pelas provas. A nós, republicanos, caberia esperar as evidências e praticar o escrutínio cético, pois está tudo mal explicado. Especialmente por parte do MPF, e não apenas de Cunha. É só com as evidências que discutimos, mas jamais com palavras proferidas pelo MPF, o qual, como sabemos, não tem poder de julgamento.

Como já disse várias vezes, não preciso advogar por Cunha, e ao mesmo tempo exigir que os advogados do PT corram atrás. Se Reinaldo Azevedo e o Antagonista resolveram atuar em parceria com os advogados do PT, exercem um direito democrático, tal como é o direito daqueles que resolvem criticar tal dispêndio energético em uma causa de seus inimigos. Mas aí se encontra uma grande ironia, que historicamente pode doer bastante. O fato é que a diminuição do capital político de Cunha caminha em par com o aumento de capital político do PT. Não há nada que possamos fazer para reverter esta regra da natureza. E, com isso, o PT poderia estar encontrando nas críticas a Cunha o capital necessário para barrar o impeachment. Felipe Moura Brasil notou algo interessante:
O pensamento acima é bem lógico, principalmente quando amparado pelos últimos fatos, tais quais reportados pelo Implicante:
E aqui fica mais claro o porquê de a imprensa, sempre munida de vazamentos que traziam nada de novo, mas apenas novos detalhes sobre um mesmo fato, passou os últimos dias bombardeando o presidente da Câmara numa semana com tantas e gigantescas derrotas de Dilma.
Quinze dias atrás, o recado, segundo a Veja, foi levado a Cunha por Pezão, o peemedebista preferido da presidente. Nos últimos dias, foi a vez de Jaques Wagner, o pupilo de Lula na Casa Civil. Qual recado? “Eu tenho cinco ministros do Supremo.” Quem mandou o recado? No primeiro caso, Dilma. No segundo caso, Lula, já dentro do governo Dilma.
Mas há uma boa notícia em meio a esse trágico cenário. Quando o STF livrou os mensaleiros do crime de formação de quadrilha, acusação que os teria mantido atrás das grades por muito mais tempo, os 6 votos que viraram o jogo para o PT vieram dos 7 ministros indicados pelo partido após o estouro do Mensalão. Apenas Fux não seguiu a regra e foi chamado de “traidor” pelo petismo. Dilma e Lula dizem hoje possuir “apenas” 5 ministros. Quem eles andaram perdendo?

De novo, outra conclusão lógica, assim como fora a de Felipe.

Quer dizer, os “paladinos da moralidade”, que na verdade apenas ignoram a retórica jurídica, o ceticismo político e a priorização de esforços nas causas adequadas, podem, sem querer, estarem ajudando o PT a aumentar seu capital político para levar Eduardo Cunha a uma situação de beco sem saída, diante da qual a única alternativa seria trocar o fim do impeachment pela utilização de cinco ministros do STF para livrá-lo de todas as acusações. Alguns destes “juízes políticos” podem dizer “ah, mas estou escrevendo de acordo com minha consciência”. Mas quem diria o contrário? Isto não serve como argumento de que pessoas com boas intenções, como sempre, podem estar ajudando inadvertidamente a causa mais imoral de todas: a de um governo totalitário que consegue manipular a Justiça a seu bel prazer.

Como sempre digo, a política, vista sob uma ótica adulta, é dura especialmente por ser baseada em escolhas, que, ao serem tomadas, definem os resultados que teremos.

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