quarta-feira, 16 de setembro de 2015

POLIAMOR OU AMOR NENHUM

Escrito por Tiago Amorim* e publicado no Mídia Sem Máscara

Na TV e na internet tenho visto algumas propagandas do que chamam “poliamor“. São os relacionamentos com mais de duas pessoas, podendo ser dois homens e uma mulher, duas mulheres e um homem, três homens, três mulheres etc. Segundo seus praticantes e defensores, o amor não tem limites e o afeto não deve ser coibido; se posso amar mais de uma pessoa, por que não? Qual a necessidade de encerrar o sentimento e a prática sexual dentro de um retrógrado combinado a dois, expressão singular dos conservadorismos e crenças fedorentas da humanidade imatura?

O pessoal do poliamor acredita que não há necessidade alguma. Por imaginar que nenhum dos seus defensores lerá este texto, destino o blog aos leitores habituais, a fim de esclarecer ainda mais os motivos que me levam a desconfiar – para dizer o mínimo – desses “arranjamentos amorosos” vigentes entre os participantes dos centros acadêmicos de humanas.

O amor é um dos projetos mais radicais de uma vida humana. Para usar os termos de Julián Marias, nossa espécie é definida também pela capacidade de futurição: todo homem antecipa sua vida; imagina-a, projetando com mais ou menos detalhes aquele que deseja ser e que, por condição mesma da vida, não pode sê-lo no presente. Cada um de nós pode ser compreendido como quem é, atualizado no presente, e quemquer ser, com as imagens de eu e trajetórias pretendidas.

Assim, o argumento biográfico é uma espécie de resultante dramática entre projetos idealizados e realizações concretas. Sou esta pessoa aqui, que já percorreu tais trajetórias e deseja percorrer algumas outras. Por isso, a futurição é um modo de antecipação de si, uma espécie de ensaio da própria vida. Alcançar um grande objetivo, possuir uma profissão, fazer uma viagem, servir um bom prato no jantar, amar alguém: exemplos de atividades humanas que não poderiam acontecer sem um pouco de imaginação e projeção.

Sendo um projeto, o amor tem direção: como ensina o mesmo Julián Marias em sua Antropologia Metafísica,é uma instalação humana com vetores que vão ao encontro do outro (como flechas). Assim como não existe projeto sem um “fim”, não existe amor sem destinatário. Sendo instalação radical – por ser configuradora da existência pessoal – no amor o fim não é um fim, mas um meio. Ao me inclinar em direção a alguém, desejando amá-lo e fazê-lo meu projeto, sinto-me realizado à medida que não termino na relação constituída, mas a partir dela sou outro “a dois”, alterado verdadeiramente pela presença que agora compõe minha realidade radical. Do consentimento amoroso de duas pessoas – do consequente encontro de projetos pessoais – nasce um terceiro projeto que não é mais individual, mas duplo: não sou eu ou fulano que queremos dar certo. Somos nós. A dimensão plural se abre de forma inédita e uma parte do mundo passa a ser conhecida porque agora não vivo mais só. O nascimento de filhos é o símbolo desta “extravasão” que só é possível porque a realidade não “cabe” mais em indivíduos isolados.

Em outras palavras: amar é ir em direção a alguém e querer transformar este mesmo alguém em projeto radical. Amar verdadeiramente é ser alterado por esta projeção a ponto de não ser o mesmo sem aquela pessoa. É o que transparece em diversas entrevistas de Julián Marias quando se refere à esposa (falecida vários anos antes dele). Vi o filósofo espanhol dizer, repetidas vezes (e parafraseando-o): desde que ela morreu já não sou mais eu. Uma parte minha não está mais aqui e por isso sinto-me impedido de ser inteiro quem já fui.

Isto é amor radicalmente falando. A projeção é tão intensa que “compromete” a minha realidade. Não sou mais o mesmo, nem posso ser. A partir do nós um novo projeto nasce – o da felicidade da relação.

Creio que o poliamor é uma fuga desta radical instalação humana. Por não precisar olhar alguém direta e objetivamente, seus adeptos passam a olhar alguns ao mesmo tempo. Evadidos da direção – e da necessidade de escolher e sacrificar-se por um -, perdem-se e confundem-se entre vários olhares, numerosos como os fragmentos de eu de cada um dos envolvidos. Qual é o projeto de cada um dos três ou quatro homens e mulheres da relação poliamorosa? Para onde caminham? Qual o destino deles, não individualmente, mas enquanto corpo constituído? Ainda: se um dos envolvidos sai da relação e outra pessoa entra em seu lugar, o que isto significa? Como é possível alteração radical nestes termos?

Amar é um tipo de decisão que afeta, sempre e primeiramente, duas pessoas. É a porta da verdadeira intimidade, como diria Louis Lavelle, pois um “terceiro” sempre sobra. A experiência coletiva existe e é necessária à vida humana, mas apenas a comunhão a dois é capaz de abrir a porção da realidade tocada somente por nós, amantes de um projeto que rompe os limites do eu e verte-se numa nova realidade dinâmica e afetiva; comprometedora e consoladora.

Numa reunião do Clube do Livro deste ano, quando discutimos a obra Persuasão, de Jane Austen, escrevi sobre o amor e justifiquei, como pude, a razão de ser do encontro entre o homem e a mulher. Transcrevo uma parte daquele ensaio aqui:

“Numa relação amorosa, a oposição disjuntiva entre a mulher e o varão ― e assim desejada pela realidade, de forma estrutural ― condensa simbolicamente as duas formas de estar no mundo do ser humano, como diria Julián Marias. A mulher é aquela que enxerga longe ― nos desdobramentos da relação em que está ―os efeitos na eternidade do amor que mutuamente oferecem. Ela é como o vaso depositário das esperanças do homem, culminando na fecundação de seu útero toda a nova possibilidade característica do amor. Esterilidade é oposto ao amor. Por isso a mulher não deve aceitar posição inferior, que a desinstale deste lugar de privilégio, no qual o velho encontra o novo e a face da terra se renova.

Do mesmo modo, o homem é aquele que luta para realizar-se, exigindo de si mesmo a força necessária para fecundar a vida. É regido por um sol interior que o impele a cumprir, construir, prover no mundo,inexoravelmente masculino. Para o varão, a eternidade é uma morada atraente. A mulher, neste sentido, é o sinal sensível da eternidade que precisa ser conquistada e não perdida. É por isso que é o homem quem vai em direção à mulher, corteja-a como quem ensaia um pedido de casamento com a divindade, entrada para o Paraíso que sempre teme não ser mais seu. Que a realidade tenha feito as coisas desse modo, creio ser indiscutível. Mesmo nas relações homossexuais será necessário que os dois envolvidos exerçam papéis diferentes na hora do sexo. Portanto, a complementaridade é irrevogável. As grandes histórias de amor da literatura, como as de Jane Austen, são símbolos desta tensão existente entre os opostos que, quando felizmente vencem as descontinuidades e infidelidades, dão nascimento a um tipo de encontro ― o mais radical e frutífero entre os seres humanos.”

Este assunto, ou tema da vida humana, renderia outros textos. Prometo voltar a ele num futuro próximo. Por ora, penso ter esclarecido porque o poliamor é amor nenhum.

Ir a muitos destinos é ir a destino algum.

*Tiago Amorim é professor e mora em Curitiba (PR). É idealizador do curso “A Vida Humana”(www.avidahumana.com.br) e autor do livro “A Abertura da Alma” (editora Danúbio). Dá aulas no Solar do Rosário e atende em escritório próprio, onde desenvolve um trabalho de aconselhamento individual.

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