segunda-feira, 7 de setembro de 2015

PERVERSÕES RELIGIOSAS E FILOSÓFICAS

Escrito por Mário Chainho e publicado no Mídia Sem Máscara
Em filosofia, a perversão mais evidente é identifica-la com uma atividade acadêmica.
A religião e a filosofia tornam-se perversões quando são abraçadas apenas pela metade. Na realidade, apenas podemos "estar" na religião ou na filosofia “pela metade” (muito menos que a metade, bem vistas as coisas), porque somos seres infinitos, com defeitos e ainda sujeitos a várias formas de corrupção. Percebendo isto, a quem entra na religião ou na filosofia resta-lhe admitir que está penetrando num "campo" muito maior do que aquilo que algum dia poderá abranger, mas que ele pode ter a abertura para o desconhecido, para o mistério, que no final das contas é o que ilumina e dá sentido a tudo o resto. Na realidade, abraçar totalmente a religião ou a filosofia é uma fórmula paradoxal, porque não é possível abranger o que nos transcende, pelo que é apenas uma forma de sinalizar o dever de abertura.

O que acontece quando delimitamos a filosofia ou a religião de forma convencional? Claro que fazemos sempre algum tipo de delimitação, o que não é grave se for apenas no sentido de ter um critério de reconhecimento, mas é catastrófico quando é um enclausuramento destas "atividades" dentro dos limites das nossas limitações conceituais (ou daquelas de algum grupo com o qual nos queremos identificar). Assim, de uma assentada, o mistério e o desconhecido são varridos para o domínio da insignificância e o próprio indivíduo (ou o grupo de referência) passa a ocupar o lugar de Deus ou do Logos.

Em filosofia, a perversão mais evidente é identifica-la com uma atividade acadêmica. Assim, ela é obrigada a ser praticada como uma profissão e a seguir critérios grupais, que por mais elevados que sejam vão eliminar o foco da responsabilidade pessoal cognitiva. Na realidade, os critérios de seriedade acadêmica vão ser duplos. Existe um critério que aponta para o ideal científico da busca de conhecimento, mas que apenas se materializa no uso de termos e números rigorosos em relação a um objeto que ninguém sabe muito bem o que é. E o desconhecimento deste objeto esconde o segundo tipo de critérios. Como ninguém sabe muito bem o que está a fazer e todos estão apenas concentrados nos processos imediatos, além de que ninguém sente a responsabilidade pessoal para averiguar as consequências globais da sua atividade, então, todos podem estar a trabalhar para os mais sórdidos objetivos. O segundo critério é a “eficiência”, por assim dizer, que significa para o acadêmico que ele continuará a ser financiado e a estar bem relacionado. Do lado de quem financia e de quem idealiza o sistema, considera-se um acadêmico eficiente se ele contribuir para os seus planos, que quase sempre não passam de engenharia social.

Outra forma de perversão em filosofia é para quem está fora da academia mas, nem mesmo assim, está disposto a assumir uma responsabilidade cognitiva pessoal. O indivíduo quer usar até ao extremo o seu direito de opinar, não se limitando a exigir que não seja censurado. Ele quer ser respeitado e não admite que as suas posições possam ser seriamente contestadas, ou considera que estão a violar o seu direito à liberdade de expressão. Assim, qualquer um pode dizer que é “filósofo”, “intelectual”, “escritor” apenas na base de que o pode afirmar.

As perversões da religião de certa forma são análogas a estas. Por um lado, existe um vício grupal. O indivíduo adere a uma igreja ou a uma seita qualquer e imediatamente sente a “força dos números”. Ele sabe que pode pegar numas quantas normas morais e sair condenando qualquer um, confiando que os seus companheiros de “fé” vão fazer coro nas invectivas. Ele não tem qualquer interesse em saber o que realmente está a fazer, porque está inebriado pelo novo poder que tem e imagina que encarna os nobres princípios da sua religião, assim como os acadêmicos não se preocupam com as consequências das suas atividades, tendo o conforto da confirmação automática dos pares (pelo menos em relação ao exterior), acreditando também encarnar os nobres ideais da ciência. 

Note-se que as formas de auto-proteção nos dois casos também são semelhantes. Se alguém de fora critica atividades específicas de certos religiosos ou acadêmicos, estes têm uma tendência quase automática de reagir como se fosse a ciência ou a religião em si que estão a ser atacadas. Como em nenhum dos casos existe um esforço de auto-conhecimento, os indivíduos criam uma auto-imagem baseada nos ideais de ciência ou religião e sentem-se puros.

A segunda forma de perversão da religião (a lista não é exaustiva) é uma certa forma de diletantismo, do indivíduo que quer levar o dogma da liberdade de expressão para dentro da religião. Eventualmente, o sujeito até pode fazer oficialmente parte de alguma igreja ou de algum culto oficial, mas faz as coisas “à sua maneira”. Então, ele segue uns mandamentos e rejeita outros, apenas “porque sim”; ele segue uns rituais, porque os acha esteticamente agradáveis, enquanto outros não lhe despertam qualquer interesse, não se preocupando minimamente em saber se existem razões profundas para as coisas serem como são. Estas pessoas também não vêm problemas em serem, por exemplo, católicos, maçons e abortistas, porque para elas a liberdade é o valor supremo e o importante é “escolher o melhor de cada coisa”, sendo este “melhor” aquilo que cada indivíduo escolher em cada momento na sua mais pura subjetividade. Estes indivíduos acham que aqueles que não têm uma postura “aberta” como a deles só podem ser pessoas muito imitadas e toscas, que estão “fora do seu tempo” e não “pensam com a sua própria cabeça”.

Talvez a forma mais perniciosa do diletante religioso seja aquela do indivíduo que é intelectualmente dotado e estuda a fundo alguns aspectos da religião. Estas pessoas podem obter uma bagagem impressionante e parecer que atingiram a verdadeira espiritualidade, aparecendo como pueril a prática religiosa comum em comparação. No entanto, são indivíduos que frequentemente descuram os valores mais elementares, como a caridade, e que não hesitam em mentir para prejudicar os inimigos. São como criaturas disformes, em que um dos membros cresceu demasiado e o resultado global é desastroso.

Os diletantes, sejam filosóficos ou religiosos, já estão protegidos naturalmente nas sociedades modernas, que garantem a total liberdade de expressão desde que os indivíduos sejam irrelevantes ou que contribuam, mesmo que involuntariamente, para os projetos de engenharia social em curso.
***

O burguês revolucionário
Não há nada mais frustrante do que tentar convencer um indivíduo de mentalidade burguesa do perigo da mentalidade revolucionária. Já fiz dezenas de vezes a experiência para concluir que apenas tem utilidade como estudo psicológico. O burguês até pode gostar de falar mal dos socialistas, por exemplo, mas apenas se estiverem reunidas duas condições. A primeira é que a crítica seja feita apenas em privado ou, quanto muito, diante de um público que é largamente amistoso e que já está convencido de antemão. Um exemplo disso é quando os liberais se juntam entre si para repetir pela milésima vez a prova da impossibilidade do socialismo de von Mises, como estivessem a dizer uma grande novidade e sem perceber que os socialistas continuam aí de pedra e cal. A segunda condição é que o socialismo só seja criticado de forma abstrata e, de preferência, no campo da economia. Assim, qualquer uma das ações concretas dos socialistas têm que ser logo identificada por algum chavão (“estatismo”, “ileteracia econômica”, etc.)

Quando mostramos o que são concretamente as ações dos revolucionários, que elas visam transformações psicológicas e culturais de grande alcance, o burguês fica em pânico e entra em “negação”. Se ele não se conseguir subtrair à discussão, vai argumentar que este é um campo muito subjetivo, com pouca influência, ou que é tudo teoria da conspiração e assim por diante. O burguês entra, assim, na tentativa pueril de fingir que os demônios não existem, na esperança de que estes o deixem em paz quando se cruzar com eles. Mas aí dá-se uma conversão, e o burguês, apesar de exteriormente ainda parece um crítico do socialismo, na prática torna-se num feroz inimigo dos anti-socialistas. Isto torna-se ainda mais intenso no caso dos grandes capitalistas, cuja reação de pânico os leva a financiar abundantemente o gayzismo ou o abortismo, causas que eles depois passam a abraçar de todo o coração que ainda lhes resta.

Nenhum comentário: