domingo, 27 de setembro de 2015

A Vida Humana: O processo de individuação revela o caráter dinâmico e rico da pessoa humana

Escrito por Tiago Amorim* e publicado no Mídia Sem Máscara
Com a matilha desfeita, sobram os neuróticos, os loucos, os inaptos e desviados.
O espírito de grupo é fruto do espírito de abstração descrito por Gabriel Marcel: o homem-massa, que só aspira à homogeneidade, antes teve que ignorar a si mesmo – aos radicais propósitos de sua vida, aos seus limites e trajetórias, vícios e virtudes.
Como tudo na vida humana, o processo de individuação é dramático; revela nosso caráter dinâmico e põe às claras a riqueza da pessoa – realidade única, irrepetível e amorosa. Não há criatura comparável nesse sentido: apenas nós, homens e mulheres, somos capazes de livre-escolha. Apesar de estruturalmente condicionados, cada um deve fazer da própria vida um testemunho único da imagem e semelhança recebida na eternidade.

Ainda que a Psicologia tenha se ocupado do tema da individuação, não vejo como sua abordagem possa ser suficiente. Aquilo que se “individualiza” ao longo de uma vida não é apenas a psique, mas a existência. Aristóteles, na compreensão do conceito de forma, advertiu que dois cavalos não são iguais, pois existencialmente têm suas diferenças, encarnadas dentro dos limites da espécie a que pertencem igualmente, e à qual o filósofo reconheceu como forma (forma de cavalo, que os dois têm). No nosso caso, e isto se tornou mais claro a partir dos trabalhos da Escola de Madri (Ortega y Gasset em diante), a forma humana é mais complexa, comparativamente, por se tratar de uma realidade composta de irrealidades, como diria Julián Marías (irrealidades são todas aquelas coisas com as quais contamos primeiramente de modo imaginário - e por isso a imaginação é ponto chave no processo de individuação). Nossa substância, pessoalidade, é alterada ao longo da vida pelas escolhas, absorções, trajetórias assumidas pelo sujeito; neste processo, tomamos posse da própria vida e individualizamo-nos – no sentido de tornar-se autor de si, efetivamente único no mundo. Por isso, as diferenças percebidas entre dois cavalos (temperamento, pelagem ou porte) não são da mesma ordem que as captadas entre dois homens. Ainda que subsista uma igualdade ontológica – são dois homens – as diferenças são infinitamente maiores justamente porque as irrealidades existem, a liberdade pode ser exercida, a razão é vital e amorosa – jamais abstrata.

Voltando ao processo de individuação: não existem homens em geral; mas Tiago, Ana, Marcelo, João. Somos radicalmente diferentes, a ponto de terem existido no mundo um São Francisco de Assis e um Hugo Chávez. E ainda que existam os franciscanos – responsáveis pela atualização do carisma daquele santo – jamais haverá outro Francisco: ele é o representante único de uma espécie que fundou ao tornar a própria vida uma autêntica e existencial criação.

Dito isso, não é exagero dizer que o grande desafio humano é realizar o ser herdado; na concretude dos dias, pelas livres escolhas tomadas, individualizar a existência pessoal. “Torna-te aquilo que és”, sugerira Píndaro. E nem seria preciso destacar o fato de que uma vida não assumida autenticamente – e, portanto, não individualizada radicalmente – é uma das maiores imoralidades em que podemos incorrer. Por quê? Justamente pela imagem e semelhança divina, que impele cada um a realizar maximamente a si mesmo, reforçando a pluralidade contida no Gênesis no momento em que fomos criados: “façamos o homem”. As irrealidades estruturais são do sujeito, que biograficamente cria a si mesmo.

Portanto, é no mínimo lamentável que muitos abdiquem desta condição – humana, radicalmente humana. Ao invés de arcar com o próprio processo de individuação – que passa pela absorção das circunstâncias, a consciência das questões biográficas fundamentais, a vocação devidamente assumida, a concretude da vida plenamente respondida, etc. – imiscuem-se num tipo de movimento de matilha, desde o qual sufocam as verdadeiras perguntas e os verdadeiros dramas e disfarçam-se na identidade do grupo (como se isto fosse possível). Dentro do grupo, sentem-se fortes, protegidos, capazes de interpretar a vida humana, combater os mais terríveis combates e restaurar a cultura nacional. O espírito de grupo é fruto do espírito de abstração descrito por Gabriel Marcel: o homem-massa, que só aspira à homogeneidade, antes teve que ignorar a si mesmo – aos radicais propósitos de sua vida, aos seus limites e trajetórias, vícios e virtudes. Só então, depois de ter decidido não ser (não fazer a si mesmo), teve de ingressar em alguma ordem, bando ou rede social que passou a instruir este homem-massa nas mais básicas e irrevogáveis ações pessoais.

A matilha fala em nome de um ente abstrato, que não tem vocação, méritos ou contas a pagar. Serve apenas para esconder debaixo de sua tenda (que pode ser uma reuniãozinha, um simpósio, um grupo fechado no Facebook) uma horda de vitrolas que emitem som apenas enquanto ligadas na tomada. Um vento forte que arranque as lonas do teto de plástico é suficiente para provar que pouco resta. Com a matilha desfeita, sobram os neuróticos, os loucos, os inaptos e desviados que, assim como Dorian Gray, soltarão um último grito diante da horrenda ilusão que perceberão diante do espelho.

*Tiago Amorim: Veja em "Quem eu sou" (avidahumana.com.br)

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