segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

5-Para sempre a eternidade no inferno, onde você poderá encontrar Sisifo empurrando, montanha acima, uma imensa bola de pedra há 2500 anos

A novela Dom Tomás Balduíno no Inferno, uma novela piedosa escrita por Frei Clemente Rojão OAAO é digna de constar entre as mais belas literaturas da língua portuguesa. Digo isso não só pelo excelente domínio da língua, mas pelo texto interessante a religiosos e políticos, desinformados ou não.
A novela foi dividida em cinco capítulos que publico neste blog nos dias 25/26/27/28 e 29/12/2014. A licença está escrita no texto original.

CAPÍTULO V
E para sempre, a eternidade

Dois mil e quinhentos anos se passaram quando Dom Tomás finalmente chegou na última caçamba.
  
- Não acredito! Estou chegando no final! Quem sabe não seja o fim? Deus não haveria de me punir por toda a eternidade, eu que sou um famoso bispo do Brasil...

Foi quando Dom Tomás ouviu um barulho a distância e uma gigantesca bola de pedra rolando pela planície em sua direção. Ele se esquivou mas a pedra certou em cheio uma das caçambas derramando terra por um milhão de hectares.

- Ah, merda! Que Inferno! Eu sabia que havia alguma gracinha.

Um homem de túnica rasgada muito barbudo vinha correndo a distância atrás da pedra:

- Perdão, perdão, meu pai! A pedra acertou no senhor?

- Que acertasse! Eu não posso morrer mesmo! Ninguém pode aqui neste Inferno! Como se não bastasse este fogo frio que queima cada pedaço de mim!!!

- Ah, esta pedra horrível sempre rola para baixo lá do alto da montanha. Dessa vez rolou para seu lado! Perdoe-me, meu bom senhor! 

- Quem é você, afinal? Eu sou Dom Tomás Balduíno, bispo emérito de Goiás, flor do clero brasileiro.

- Sou Sísifo, rei de Corinto.

- Ah, Corinto, eu conheço! Perto de Curvelo em Minas Gerais! Já fizemos reuniões da Pastoral da Terra lá.

- Na verdade é perto de Mégara no Peloponeso, Reverendíssima.

- Você é de Minas? Eu sou de Goiás. 

- Eu sou da Grécia, meu senhor. Sou veterano aqui, fui condenado a rolar esta pedra morro acima, mas ela sempre me escapa.

- Pois é, eu fui condenado a fazer reforma agrária com esta terra infeccionada aqui que o Diabo pisou. Mas estou no fim. Deve ser porque eu sou bispo. Faltava terminar uma caçamba, mas sua pedra a derramou.

- Excelência, peço encarecidamente que me perdoe. 

- Não perdoo não. Estou no Inferno, sem perdão. 

- Então vou deixar Vossa Excelência que preciso levar a pedra de volta.

- Por que você não pára com esta pedra estúpida que não tem fim, afinal?

- Ah não - Sísifo treme - é terrível se parar! 

- Vocês de Corinto e toda Minas Gerais deveriam fazer um movimento e se organizarem exigindo melhores condições de castigo. Vocês nunca prestaram atenção na Campanha da Fraternidade? A de 2014 falava justamente sobre este tema! Pena que estava no hospital...

- Excelência, devo ir, preciso rolar minha pedra, não entendo o que o senhor fala, o senhor veio de muitos séculos após minha época. E de novo, eu sou do Peloponeso, não dessa tal de "Mynasgeraaaiz".

- Vá, vá. Estes mineiros são uns alienados de justiça social. E ainda é analfabeto, o tadinho. Bem que o grande Paulo Freire tinha razão!!! Deve ser culpa do Aécio Neves. É por isso que eu sou Dilma até no mais fundo do Inferno!
E Dom Tomás pôs-se a recolher a última caçamba. Finalmente terminou.

- Oh, meu Deus! Terminei! Meu Deus! Aleluia! Será que serei salvo finalmente? Eu mereço um alívio destas brasas horríveis, destes horrores sem trégua! É insuportável ficar aqui!!!

Um vento violento soprou do leste. Violentíssimo, ao ponto de arrastar o velho bispo. E todas aquelas incontáveis caçambas cheias de terra foram viradas, e a poeira se espalhou pela mesma superfície ocupada pela Grande Nuvem de Magalhães. Uma voz cavernosa ressoou por todo o Inferno:

- Dom Tomás Balduíno, bispo emérito de Goiás, divida a terra!

- Ah, com mil demônios, vão para o Inferno! Não sou idiota! 

- Dom Tomás Balduíno, bispo emérito de Goiás, divida a terra!

- Eu não vou mais! - e atira a pá longe

- Dom Tomás Balduíno, bispo emérito de Goiás, divida a terra!

- E você vai fazer o quê? Já estou no Inferno e condenado, pior que isto não fica...

A terra começou a tremer violentamente. E a distância, Dom Tomás ouviu gritos que se aproximavam
"Latifundiário!"
"Arauto do capitalismo e do agronegócio!"
"Toda terra é roubada!" 
"Reforma agrária já!"
"Pelo fim das grandes corporações!"
"Contra a exploração do capital no agro!"

Era o MST infernal

- Não! Não! Nããããããããããããããão!!!!

E Dom Tomás Balduíno, bispo emérito de Goiás, no Inferno levou outra surra até decidir voltar a dar suas pazadas e recolher toda a terra... e de novo, e de novo, e de novo, e de novo por toda eternidade, até a Ressurreição, o Final dos Tempos e além...
***
O autor pede gentilmente que o leitor recolha-se em silêncio num exame de consciência de suas obras.

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