sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Duas concepções conflituosas da dignidade feminina

Duas concepções conflituosas da dignidade feminina
Escrito por F. Roger Devlin* e publicado no Blog Marxismo Cultural em 16/08/2012
Um dos baluartes da civilização ocidental é o anormal estatuto elevado que ela conferiu à mulher. Esse facto é normalmente atribuído ao Cristianismo, que valoriza algumas virtudes tipicamente femininas (misericórdia, humildade) mais do que as sociedades pagãs haviam feito. No entanto. Tácito havia já ressalvado o respeito que era conferido às opiniões femininas nas tribos pagãs Germânicas do seu tempo. Alguns defendem que o respeito conferido às mulheres era um reflexo das condições do Norte da Europa durante o mundo antigo, onde a familiar nuclear - e não a família alargada - era a unidade econômica mais importante.

Mas onde quer que se tenha originado, a posição da mulher na nossa civilização tem sido recentemente corroída pelos desenvolvimentos económicos e pelo movimento feminista. O ensaio que se segue tem como propósito explicar como é que isto aconteceu, e demonstrar a necessidade de se reverter o processo.

Existe alguma confusão em torno do ataque feminista ao estatuto da mulher uma vez que o movimento feminista apresentou-se ao mundo . com algum sucesso - como um esforço para melhorar esse mesmo estatuto. Como todos sabemos, as feministas alegam que as mulheres são, em pleno direito, "iguais" aos homens e como tal merecem "condições de concorrência equitativas" como forma de competir com os homens.

Nos dias de hoje, é rara a pessoa cuja noção em torno das alegações das mulheres não tenha sido de todo influenciada por estes slogans; isto é verdade mesmo entre muitos que se julgam "inimigos do feminismo". Por exemplo, alguns pseudo-defensores da Civilização Ocidental acreditam que o islão é um perigo para nós principalmente porque não aceita a "igualdade entre os sexos". Esses mesmos defensores do Ocidente parecem transmitir a ideia de que não teriam problemas com o islão se as raparigas muçulmanas fossem livres para usar mini-saias, alistarem-se no exército e divorciar o marido. Muitos homens que fazem parte do crescente movimento dos Pais (inglês "Father's Movement") descrevem o seu objectivo como a implementação da "genuína igualdade", e não a recuperação do seu tradicional papel de líderes da família.

Eu cheguei a conhecer conservadores que asseguraram perante as suas jovens audiências que a ideia da igualdade sexual provém do Cristianismo - uma ofensa mais grave do que aquelas que Voltaire ou Nietzsche alguma vez poderiam ter feito.

Um caso extremo desta confusão pode ser encontrado em conservadores "mainstream" tais como William Kristol, que alega ser contra o feminismo porque as suas mais exóticas manifestações "ameaçam aquilo que as mulheres já conquistaram". Ou seja, o problema com o feminismo é que ele coloca em perigo o feminismo. É difícil combater um movimento quando se aceitam as premissas fundamentais.

Na realidade, o elevado estatuto da mulher no ocidente não só é anterior ao feminismo como é logicamente incompatível com o mesmo. Para se entender o porquê, é preciso manter dois pontos em mente:
1. O estatuto tradicional da mulher estava conectado a certas expectativas comportamentais - cumprir os deveres da sua condição;
2. O mesmo estatuto assumiu diferenças qualitativas e complementares entre os sexos (e não competição "justa").

Em relação ao primeiro ponto: falando de forma clara, nunca foram as mulheres em si que desfrutaram de elevado estatuto mas sim os papéis sociais associados a elas - primordialmente, os papéis de mãe e de esposa. Nascer fêmea (ou macho) é meramente um facto natural sem qualquer valor moral intrínseco; mas levar a cabo papéis sociais envolve esforço e, muitas vezes, sacrifício.

Consequentemente, o respeito conferido às mulheres não era um direito de nascença, mas sim algo reservado às mulheres que realizavam as suas obrigações femininas. Entre estas obrigações, a fidelidade matrimonial era de importância suprema - tanto assim que na nossa língua, termos gerais como a virtude e a moralidade têm sido especificamente usados para se referirem à fidelidade sexual nas mulheres. Isto não se deve a puritanismo irracional, como os apóstolos da emancipação imaginavam, mas sim ao reconhecimento de que tudo o que é preciso para destruir uma raça e uma civilização é a recusa feminina em ser uma fiel mãe e esposa.

A tradição ocidental inclui também a forte presunção de que as mulheres querem cumprir o seu papel; dito de outra forma, assume-se que as mulheres são "virtuosas" até prova em contrário. Em algumas épocas, se alguém não tivesse evidências confirmatórias, era perigoso sugerir que uma mulher poderia não ser o paradigma da contenção sexual. Uma alegação em torno da honra duma mulher era suficiente para que fosse levado a cabo um duelo.

Claro que isto não faz sentido nenhum se as mulheres não têm honra. Os actuais proponentes da igualdade e da emancipação abertamente repudiam esta ideia e qualificam-na de "construção social opressora." Mas, dito de modo franco, eu suspeito que a honra nunca foi o determinador primário do comportamento feminino. O bom exemplo (especialmente das mães), hábitos, falta de oportunidade, instruções religiosas, e, em último caso. a possibilidade de desgraça social e ruína financeira foram provavelmente muito mais eficazes junto das mulheres.

Os homens, por outro lado, foram frequentemente encorajados a acreditar que as mulheres eram naturalmente monogâmicas, sem qualquer tipo de comportamento baseado em algo tão básico como a atração sexual, e que apenas buscam "bons maridos" com quem elas desinteressadamente se casam apenas e só por amor. Esta agradável e edificante visão da feminidade é a base das expressões culturais ocidentais em torno dos relacionamentos entre os sexos: galanteio, cavalheirismo, corte e casamento. Isto é o que coloca o amor, usando a frase de Edmund Burke, "senão entre as virtudes, pelo menos entre os ornamentos da vida."

Existem também considerações mais prácticas, embora menos delicadas: se o marido confia na esposa, ele pode evitar vir apressadamente para casa - sem avisar - como forma de ter a certeza de que ela não está na cama com o jardineiro. Isto faz com que ele dedique mais tempo ao seu papel de ganha-pão para os filhos que ele tem a certeza serem seus.

A socialmente benéfica visão cavalheira em torno da feminidade é totalmente independente da sua veracidade. Não existe qualquer harmonia pré-estabelecida entre o que é verdade e o que é útil que os homens acreditem. Talvez seja melhor que o homem não saiba toda a verdade em torno das mulheres - mesmo, ou especialmente, a sua esposa. No entanto, a maior parte das mulheres coopera de modo entusiástico na promoção da visão cavalheiresca, mesmo que elas não tenham sido sujeitas a mesma. Isto deve-se em parte ao facto delas terem sido sagazes o suficiente para se aperceberem das vantagens em manter uma elevada reputação entre os homens, e parcialmente porque elas são naturalmente mais reticentes que os homens no que toca os seus desejos sexuais ("modéstia").

Mas quer tenha sido com base no conhecimento ou numa ilusão, o valor que a nossa civilização conferiu à mulher depende de forma fundamental na sua monogamia, e não faz qualquer sentido separada dela. Enquanto os casos de adultério feminino foram poucos, os mesmos foram considerados aberrações da natureza - análogo a bebés com duas cabeças. Quando, no entanto, milhões de mulheres agem de acordo com o plano feminista de "emancipação", deixando os maridos, separando-os dos filhos, levando-os à ruína com divórcios, e vivendo com outros homens, o sistema vai abaixo. [Exatamente o que os engenheiros do feminismo tinham em vista]

É aqui que nos encontramos hoje em dia. Para mim, a característica mais notável da revolução que nós atravessamos é o atraso temporal entre o comportamento da mulher e a mudança da atitude masculina em relação às mulheres. Muitas vezes os homens culpam membros do seu próprio sexo quando algo corre mal, embora a desvantagem natural da posição masculina torne a sua responsabilidade primária muito improvável à priori. Uma vez que as mulheres possuem mais controlo que os homens no processo de acasalamento, elas são inerentemente as responsáveis mais prováveis pelo desmoronar da formação e estabilidade familiar.

Parece que muitos homens possuem uma necessidade emocional de acreditar na virtude ou inocência inerente da mulher, algo sentimentalmente parecido com o culto Romântico da infância. Mesmo hoje, perante um Estado-polícia feminista, os comentadores frequentemente atacam o seu próprio sexo por uma alegada insuficiente apreciação das alegações da feminidade. A coisa mais simpática que se pode dizer desses homens é que eles se estão a condenar à irrelevância. Um julgamento menos gentil é o de qualificá-los de colaboradores.

Numa sociedade substancialmente monogâmica, a visão cavalheira da mulher é útil para ncontrolar os naturalmente agressivos desejos dos jovens maridos. No entanto, Numa sociedade controlada por mulheres mimadas e tiranas - que se "emanciparam" para longe das obrigações domésticas - o cavalheirismo é inútil ou prejudicial. Como é normal, os conservadores estão ocupados a tentar fechar a porta do estábulo quando o cavalo já fugiu.

A nossa tarefa hoje em dia não é "proteger" o casamento mas sim reconstruí-lo do nada. A estratégia para levar isto a cabo necessariamente tem que ser distinta da estratégia levada a cabo quando a instituição do casamento estava apenas sob ameaça.

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