segunda-feira, 7 de julho de 2014

Os adversários da liberdade (esquerdistas) lamentam o estado atual do mundo porque o pessimismo é caminho mais curto para o poder pessoal

Por que aqueles que são otimistas a respeito do estado do mundo são desproporcionalmente representados pelos liberais clássicos, pelos libertários e pelos conservadores que apóiam o livre mercado, enquanto os pessimistas a esse respeito são desproporcionalmente representados por estatistas?

Por que a parcela da mídia com tendências à esquerda, como o New York Times e a CNN, devotam tanta tinta e tempo na TV à afirmação de que os americanos de classe média obtiveram pouco ou nenhum progresso nos últimos 35 anos e que o planeta continua seguindo em espiral para uma iminente catástrofe?

Por que, sempre que Paul Krugman, do New York Times, e Harold Meyerson, do Washington Post, escrevem (o que acontece quase semanalmente) que os americanos comuns foram presos pelos “ricos” e poderosos à uma situação econômica de crescimento zero, os blogueiros favoráveis ao mercado respondem com dados mostrando que essa afirmação é falsa?

E por que, sempre que o Los Angeles Times ou a New Yorker publicam mais outra “reportagem” que supostamente documenta a contínua degradação ambiental, vários estudiosos favoráveis ao mercado denunciam que essas reportagens estão distantes da verdade dos fatos, ou carecem de fundamentos – ou os dois?

Esse padrão é tão familiar que esses acontecimentos escapam à nossa atenção. Mas, ainda assim, é fascinante refletirmos sobre isso. Não existe nenhuma razão óbvia para que as pessoas de esquerda tenham uma tendência a ver o estado do mundo como particularmente ruim, e nenhuma razão óbvia pela qual alguém que defenda os mercados deva acreditar ver rosas onde só existe podridão.

Como tem sido freqüentemente documentado nessa publicação (e em várias outras) nos últimos anos, os padrões de vida dos americanos, hoje, são os maiores de todos os tempos. Os dados a respeito do consumo dos lares normais, ou mesmo dos mais pobres lares americanos, mostram que a nossa prosperidade é imensa e está crescendo. Da mesma forma, o valor real da compensação total dos trabalhadores (salários mais benefícios adicionais) continua a crescer. O tempo de descanso – descanso tanto do trabalho quanto dos tediosos afazeres domésticos continua a crescer, como também crescem nossos gastos reais em atividades e equipamentos de recreação. A expectativa de vida nos Estados Unidos é a maior de todos os tempos.

Além disso, o planeta não está ficando sem recursos naturais, nem caminhando em direção a um Armaggedon ambiental. Os trabalhos do falecido Julian Simon e, mais recentemente, de Bjørn Lomborg e Indur Goklany, são fontes importantes de documentação desses fatos.

Estamos vivendo mais e de forma mais saudável, trabalhando menos, nos divertindo e consumindo mais, em um planeta cheio de vida e rico em recursos.

Fora eu defensor dos governos grandes, em vez de negar esses fatos eu os celebraria como evidências de que as políticas intervencionistas adotadas desde o New Deal fizeram maravilhas. As rendas reais das famílias estão mais altas (diria eu) por causa da Assistência Social, da lei do salário mínimo e dos vários estatutos contra a discriminação. Estamos mais saudáveis e vivemos mais (diria eu) por causa do Medicare e do Medicaid, das diversas regulamentações para a segurança de produtos e de ambientes de trabalho, dos esforços da Agência de Proteção Ambiental (EPA, Environment Protectment Agency) e das ações governamentais contra o uso do tabaco.

E o meio ambiente está muito bem protegido (eu alegaria) por causa da EPA e da pletora de regulamentações nacionais, estaduais e locais designadas a protegê-lo.

Ainda assim, se formos acreditar nas afirmações feitas de fato pela esquerda moderna a respeito do estado do mundo, é bastante plausível concluir que nenhum dos seus queridos programas funciona muito bem. Os americanos normais e o planeta permanecem à beira do abismo, apesar de gerações de crescimento governamental e de aumento das intervenções.

Parece uma afirmação estranha, já que vem, principalmente, da esquerda.

Talvez seja igualmente estranho o otimismo consistente sobre o mundo, vindo dos acadêmicos defensores do livre mercado. Não seria surpresa alguma se, no momento em que alguém afirmasse que os padrões de vida dos americanos comuns estão estagnados por quase duas gerações, os alunos de Milton Friedman e os acadêmicos inspirados por Mises e Hayek aceitassem que essa afirmação é relevante e dissesse: “Vejam só! Tudo foi exatamente como eu disse. Primeiro viria a expansão do poder do Tio Sam sob Woodrow Wilson, e então a explosão desse poder sob Herbert Hoover e Franklin Roosevelt, seguida por aumentos constantes desde então. A estagnação dos rendimentos e a degradação do meio ambiente certamente são resultados do crescimento do Estado durante o século XX e no início do século XXI – ou, ao menos, o crescimento do Estado não fez nada para evitar esses problemas.”

Porém, um típico defensor do livre mercado resiste a essa tentação. Ele ou ela examina os fatos e conclui, corretamente, que os padrões de vida e o estado do meio ambiente estão muito melhores hoje do que estavam há 30 ou 40 anos.

É claro, ainda é possível aos defensores do livre mercado argumentar vigorosamente contra as várias intervenções governamentais que infestam nossas vidas atualmente. Mas grande parte desses argumentos, senão todos, são hipotéticos: se o governo fosse menos intrusivo, a economia e o meio ambiente estariam ainda melhores do que estão hoje. Entretanto, apesar desse argumento ainda ser forte, a verdade permanece. Os governos intrusivos, gananciosos e poderosos das últimas gerações não conseguiram reduzir nossos padrões de vida.

Então, por que os defensores do livre mercado proclamam, repetidamente, que os padrões de vida e o estado do mundo estão, em geral, melhorando?

Podem me chamar de tendencioso, mas tenho quase certeza de que os defensores do livre mercado lidam com os fatos e (embora eles fortaleçam ainda mais os argumentos contra o governo) se recusam a deturpar os dados de forma que façam a realidade parecer pior do que realmente é.

Uma pergunta mais interessante é por que os estatistas – ao alegar repetidamente que a economia está horrível e que o meio ambiente é um caldeirão de toxinas – de fato insistem (ainda que sem perceber) que seus amados programas fracassaram. Dadas as vastas evidências de que as nossas vidas materiais estão, hoje, melhores em quase todas as dimensões, eu, sinceramente, me surpreendo ao perceber que tão poucos estatistas aceitem-nas.

Pessimismo
Ou melhor, eu me surpreendia. Isso não acontece mais porque acredito que agora compreendo porque os adversários da liberdade lamentam constantemente o estado atual do mundo. Simples: pessimismo é o caminho mais curto para o poder. Não importa o quanto as coisas estejam boas. Nós, humanos, sempre podemos imaginar que elas poderiam estar ainda melhores. Não importa a clareza com que os dados mostrem nossos progressos, eles podem ser coletados erroneamente para fazer as coisas parecerem estar piores.

E não importa a quantidade de liberdade que o governo tenha nos tomado, enquanto algumas liberdades econômicas permanecerem, os esquerdistas continuarão a ver essas liberdades como uma fonte, não apenas de imperfeições reais, mas também de nossos fracassos nas tentativas de obter o que só pode existir nas fantasias daqueles que mantêm imensa fé no poder do Estado.

Os defensores da liberdade não têm ilusões de que mesmo a máxima liberdade, governada pela melhor aplicação possível do Estado de Direito, vá criar o paraíso na Terra. Por outro lado, os adversários da liberdade estão convencidos de que o impossível se torna possível ao darmos ao Estado mais recursos e poder. E, enquanto houver ainda mais recursos e mais poder a ser delegados ao Estado, a impossibilidade do mundo real de estar à altura das nossas mais queridas fantasias será considerada pelos esquerdistas uma “falha” e servirá como desculpa para mais limitações à liberdade.

* Publicado originalmente em 14/08/2008 no site Ordem Livre.
**Donald J. Boudreaux é o diretor do departamento de economia da Universidade George Mason.

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