terça-feira, 17 de junho de 2014

Sobre o temperamento filosófico. Quando Cristo pôs para correr os vendilhões do Templo, não o fez com açúcar na boca nem nas mãos. Foi uma manifesta ira justa

O temperamento filosófico
Escrito por Sidney Silveira* a Luiz Astorga e publicado no Blog Contra Impugnantes
Cristo expulsa os vendilhões do Templo (Gustave Doré)
A Luiz Astorga
Sidney Silveira
Há quem confunda temperamento com caráter. O caráter, como nota distintiva predominante dos hábitos morais, pode e deve ser formado, ou seja, educado para o aprendizado do bem, da verdade, da beleza. Por sua vez, o temperamento é o conjunto de tendências que radicam no corpo, ao modo de predisposições naturais. A clássica teoria dos temperamentos de Hipócrates ainda tem muito a dizer a diferentes ramos da psicologia moderna — tal o realismo de suas finas observações. Ainda hoje, a um bom observador não é difícil entrever a irritabilidade e a impulsividade típicas dos homenssangüíneos; identificar as reações explosivas e repentinas dos coléricos; perceber a habitual apatia de muitos fleumáticos; e constatar a introspectiva excitação nervosa dos melancólicos.
Não se trata propriamente de emoções, no sentido moderno do termo, mas dosubstrato orgânico das emoções. Em síntese, o temperamento são as inclinações afetivas que predominam num sujeito — pertencentes, portanto, à instância sensitiva. Em vocabulário metafísico, podemos dizer o temperamento participa da sensibilidade; e o caráter participa da razão. Por isso, somente uma boa formação do caráter é capaz de fazer um sujeito vencer as inclinações radicadas em seu corpo que, se exacerbadas, podem transformar-se em vícios para lá de daninhos.
A educação da alma, sabemos desde Platão, passa pela estrita atenção do pedagogo ao temperamento do discípulo. É a partir desta identificação do feitio da têmpera que o mestre sem pruridos propõe privadamente práticas preventivas — com perdão da quíntupla aliteração —, no sentido de se evitarem os extremos indesejáveis. Ao fogoso aconselha o exercício da meditação; ao apático, atividades físicas que literalmente o acendam; ao irado, receita leituras espirituais; ao triste, banho frio e audição de boa música alegre, como por exemplo Vivaldi. A pedagogia dos séculos XIX e XX perdeu completamente esta noção elementar que abarca as relações entre temperamento e caráter.
Uma inteligência bem formada é a que resolveu satisfatoriamente a dicotomia temperamento/caráter. Noutras palavras: ela implica a vitória do caráter sobre eventuais inclinações más do temperamento. Tal vitória, diga-se, é consignada não pelo esmagamento das tendências naturais que radicam no corpo — entre as quais citemos a configuração hormonal predominante —, mas pelo aproveitamento eficaz delas, na medida em que a vida exige, em variadas ocasiões, a manifestação de aspectos distintivos de cada um dos temperamentos. Quando Cristo pôs para correr os vendilhões do Templo, não o fez com açúcar na boca nem nas mãos. As glândulas supra-renais de Nosso Senhor certamente fizeram-lhe subir a adrenalina, com o conseqüente aumento da tensão arterial provocado nas ocasiões de manifesta ira justa.
Se a formação da inteligência passa, entre várias outras coisas, pelos fatores anímicos acima arrolados, somos levados a concluir em favor da existência dum temperamento filosófico. Este se caracterizaria pela consolidação do hábito de (em sentido literal, estrito) temperar os afetos de acordo com a plasticidade da inteligência, de modo a não prejudicar a tendência natural do intelecto às formas inteligíveis. Como o filósofo — pelo menos o bom filósofo — necessita desenvolver em padrão elevadíssimo a capacidade de análise e síntese, na prática ele precisa estar muito bem treinado para acolher as objeções que se lhe fazem de maneira análoga à de um boxeador que suporta os socos do adversário e se mantém de pé.
Se o candidato a filósofo não é capaz de nem mesmo ouvir objeções razoáveis aos seus argumentos, saibamos que estamos diante duma pessoa que não possui temperamento filosófico — por mais cultura filosófica que possua. Em poucas palavras, trata-se de alguém cujo caráter ainda não está suficientemente moldado para vencer as inclinações desfavoráveis radicadas no corpo: irrita-se desproporcionalmente se uma pessoa o contraria; critica os objetores movido por impulsos irracionais; agita-se como se, a qualquer ressalva ao seu pensamento, estivesse diante de um inimigo mortal; atribui ao adversário intenções que jamais poderá comprovar, etc.
Alguém como Kant, por exemplo.Muitas vezes, são homens talentosos que, por falhas de caráter alimentadas por seus maus bofes, deixam de realizar plenamente a sua vocação, por pura e simples falta de temperamento filosófico.

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