domingo, 22 de junho de 2014

A NOVA ERA TORNA VÁLIDA A FRASE DE MILTON: MELHOR REINAR NO INFERNO DO QUE SERVIR NO CÉU. Há definitivamente semelhança entre a modernidade no primeiro século e a modernidade no vigésimo primeiro século


Escrito por Jeffrey Nyquist e publicado no site Mídia Sem Máscara

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Hoje em dia, a nova encarnação rebelde de Satã é apresentável, engraçada e musicalmente talentosa como artista.
A derrocada da instituição familiar está muito evidente para que se possa negar, e essa derrocada é o prenúncio da destruição de uma sociedade que estará demasiadamente fraca para exercer resistência.


Em Diálogo sobre os oradores ou: Causas da corrupção da retórica, o historiador romano Públio Cornélio Tácito repassa as observações de um orador sobre a queda de Roma pela cultura do entretenimento durante o primeiro século d.C.: “As causas da decadência da retórica não são, de maneira alguma, difíceis de serem sondadas”, explicou o orador. “Dentre as verdadeiras causas [da decadência] estão a indolência dos jovens, a negligência dos pais, a ignorância daqueles que pretendem nos ensinar algo e a total negligência em relação à antiga disciplina”.

Evidentemente, a antiga disciplina era algo moralmente sério. Uma seriedade que inspirava paixão. Por volta do início do primeiro século, o historiador romano Tito Lívio lamentou “a aurora sombria dos tempos modernos [1]”, e observou: “Nestes últimos anos a riqueza trouxe consigo a avareza; e a completa submissão aos prazeres criou no homem uma paixão pela ruína própria e pela ruína de tudo o mais por meio da autoindulgência e da licenciosidade”.

Nesse distante espelho sustentado por Lívio dois mil anos atrás é possível que vejamos nossos próprios reflexos, porquanto estamos repetindo a história social do primeiro século. Temos todas essas baixas paixões e mais algumas coisas. Tácito usou as seguintes palavras para descrever a antiga disciplina que era o oposto à licenciosidade que começava a imperar naqueles dias: “Nossos ancestrais buscaram um plano diferente: Eles encheram seus espíritos dos bons juízos sobre o bem e o mal, das regras de diferenciação do honesto do torpe, e da diferenciação do justo do injusto nos tratos entre as pessoas. Esta é sem dúvida, em todas as matérias de controvérsia, a limítrofe do orador”. (XXX.1)

Para quê mais deveria servir um poderoso discurso?

Imagine uma retórica corrompida com o fim de seduzir, persuadir e conjurar algo inatural – como é o caso da glamourização da confusão, da idealização da perversão e da romantização da rebelião metafísica. Dê a isso uma voz musical e uma letra. Talvez se parecerá com algo próximo disso:


Waking in the rubble [Acordando nos escombros]
Walking over glass [Andando sobre o vidro]
Neighbors say we’re trouble [Os vizinhos dizem que somos um problema]
Well that time has passed [Bem, esse tempo passou]

Peering from the mirror [Mirando o espelho]
No, that isn’t me [Não, esse não é eu]
Stranger getting nearer [Um estranho se aproximando]
Who can this person be [Quem poderia ser?]

You wouldn’t know me at all today [Você não me reconheceria nos dias de hoje]
From the fading light I fly [Da luz que desvanece eu voo]

Rise like a Pheonix [Surjo como uma fênix]
Out of the ashes [Das cinzas]
Seeking rather than vengeance [Buscando em vez de vingança]
Retribution [Retribuição]
You were warned [Você foi avisado]
Once I’m transformed [Assim que eu me transformar]
Once I’m reborn [Assim que eu renascer]
You know I will rise like a Phoenix [Você saberá que eu surgirei como uma fênix]
But you’re my flame [Mas você é minha chama]


A letra é da música “Rise Like a Phoenix” [Surjo como uma fênix] – vencedora do concurso musical de Eurovision 2014 – escrita e interpretada pela drag queen “Conchita Wurst” (nome fantasia do austríaco Thomas Neuwirth, nascido em 16 de novembro de 1988). Diz-se na Wikipédia que Neuwirth usa pronomes femininos para descrever sua persona drag queen “embora ao mesmo tempo use pronomes masculinos para se referir à sua pessoa”. Ele se identifica como “gay”, apresenta uma imagem completamente feminina ao mesmo tempo que mostra uma consolidada barba. Conforme explicou em uma entrevista recente, o nome artístico “Conchita” se refere “’as partes íntimas de uma mulher” e “Wurst”, é claro, é a palavra alemã para salsicha.

Para mostrar o quanto a Roma do primeiro século é um espelho da Europa do século XXI, vejamos o relato de Tácito sobre o Imperador Nero, que também foi um famoso cantor, e vencedor do concurso musical equivalente ao “Eurovision” daqueles dias. Como Neuwirth da Áustria, Nero era também uma drag queen, e isso não deveria nos surpreender, dados os paralelos entre a “crise da modernidade” romana e a nossa. Tácito escreveu:
Nero já estava corrompido por todo tipo de concupiscência, fosse natural ou inatural. Mas ele agora mostrou que não existem limites para sua degradação. Alguns dias depois ele fez uma cerimônia solene de casamento com um membro de uma gangue pervertida (o nome dele era Pitágoras). O imperador, na presença de testemunhas, vestiu o véu nupcial. Dotes, cama nupcial, tochas nupciais, estava tudo lá. Sem dúvidas tudo estava público para que fosse igual em uma união natural, onde até a escuridão cessa quando uma mulher casa.

Há definitivamente semelhança entre a modernidade no primeiro século e a modernidade no vigésimo primeiro século. Essa semelhança pode ser tomada como um alerta e como um desafio às crenças populares acerca do progresso e para onde estamos indo; porquanto sabemos para qual direção foi Roma. No momento podemos congratularmo-nos como pessoas de mente aberta; contudo, somos inteligentes o bastante para distinguirmos uma mudança de moda de um sintoma fatal? Como mostra a história de Nero, união gay não é algo novo. E agora isso volta sorrateiramente ao nosso meio por não sabermos o precipício ao qual estamos para cair. Muitos analistas políticos contemporâneos, que agora estão entre os 70 e 80 anos, mostraram em privado surpresa pelo fato de a união gay – ou o próprio sujeito homossexual – ter ganhado um status popular nos dias de hoje. “Eu jamais teria previsto isso vinte e cinco anos atrás”, confidenciou um velho clérigo para mim. “Não esperava por essa”. (Peço que note o papel que desempenha hoje a união homossexual, especialmente no crescente cisma entre conservadores econômicos e conservadores culturais – e pergunte com um olhar estratégico: cui bono?)

É evidente que há algo mais profundo nisso tudo do que apenas política. O gayzista [2] é rebelde metafisicamente e moralmente. Como se fosse para destruir os grilhões da realidade, como se fosse para negar os limites da existência humana (do próprio DNA), somos agora incitados a aplaudir quando um homem quer tornar-se uma mulher e vice-versa. A imoralidade do projeto passa despercebida em uma geração que não reconhece a verdade objetiva ou a realidade. Dizem-nos que a verdade é subjetiva. Mas isso é verdade? Se dizermos “preto é branco”, ofendemos a razão. Se um homem veste um vestido e refere-se a si mesmo como uma mulher, um tipo mais profundo de ofensa é promulgado: uma ofensa metafísica contra a existência humana e a moralidade que a integra. Aqui o império das mentiras encontra uma fissura pela qual ela pode entrar e destruir de maneira espetacular nossos débeis suportes à “verdade”, embora essa infiltração destrutiva não signifique que o resultado significará vitória para alguém.

Ao confrontarmos essas motivações mais profundas que subjazem nesses slogans “descolados” e nessas causas queridas, devemos lembrar a fórmula secreta que inspirou o império das mentiras desde o seu começo. Aqueles que destroem a moralidade estão querendo reconstruir o mundo. Aqueles que estão querendo reconstruir o mundo estão tentando usurpar o emprego do próprio Deus. “A moralidade é o aspecto derradeiro de Deus que deve ser destruído antes que se possa recomeçar a reconstrução”, escreveu Albert Camus em O homem rebelde. Camus intui que “O herói romântico [...] considera-se obrigado a cometer o mal pela sua nostalgia de um bem que não se realizou”. No caso de Thomas Neuwirth, o suposto herói romântico (Conchita Wurst) faz o mal a partir de uma equivocada nostalgia de uma impossibilidade ontológica. Nesse mesmo ato o sujeito afirma sua própria divindade ao jogar sua luva no chão em frente ao criador [3] e dizer: “Eu não preciso ser aquilo que você me criou para ser”. Eis uma negação do próprio eu que se alia à adoração de um falso eu; É a revelação do niilismo e do narcisismo. Esse ato compartilha com o comunismo a negação da nossa humanidade como ela é e nos envolve em um pesadelo monstruoso – seja um homem em um vestido ou um soviete. Nessas duas instâncias, a tentativa de tiranizar a natureza e de negar os dados ontológicos resulta em confusão e perdas trágicas. A confusão nesse caso se estende cada vez mais adiante por meio de círculos concêntricos, uma expansão perniciosa pela própria natureza equivocada. É assim que Milton retrata a queda do anjo rebelde em O paraíso perdido [4]:

“Eis a região, o solo, a estância, o clima,
E o lúgubre crepúsculo por que hoje
Os Céus, a empírea luz, trocado havemos!
(O perdido anjo diz). Troque-se embora,
Já que esse, que ficou dos Céus monarca,
O que bem lhe aprouver mandar-nos pode.
É-nos melhor estar mui longe dele:
Se a sublime razão a nós o iguala,
Suprema força o põe de nós acima.

Adeus, felizes campos, onde mora

Nunca interrupta paz, júbilo eterno!
Salve, perene horror! Inferno, salve!
Recebe o novo rei cujo intelecto
Mudar não podem tempos, nem lugares;”


De acordo com Milton, o primeiro rebelde metafísico encorajou a ideia “Melhor reinar no inferno do que servir no Céu”. Os rebeldes metafísicos de hoje proclamam “o paraíso na terra” junto da tolerância universal. Isso não é apenas semelhança, é a própria incorporação do tipo. Em um ensaio exposto no blog The Contemplative Observer, constatamos a ideia de que Thomas Neuwirth (ou Conchita Wurst) não é simplesmente um homem barbado em um vestido. Sua aparência exterior é perturbadoramente similar aos retratos popularizados de Jesus Cristo. O autor observa: “E, com efeito, circula [...] uma imagem que mostra a face de cristo substituída pela face de Conchita Wurst...”
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Enquanto a cristandade sofre um ataque após o outro, uma afronta após a outra, uma derrota após a outra, uma nova religião se move para tomar seu lugar. A grande e ascendente facção da nossa era, o socialismo, tem três grandes objetivos conforme nos disse o dissidente soviético Vladimir Bukovsky. Primeiro: o socialismo quer destruir o capitalismo (i.e., destruir a propriedade privada de todos aqueles considerados possuidores dos meios de produção); Segundo: o socialismo quer destruir a família; E terceiro: o socialismo quer destruir os Estados-nação. Como observou Bukovsky, os socialistas fracassaram ao tentar destruir a ideia de propriedade privada, mas eles foram parcialmente bem sucedidos contra a família e os Estados nacionais. A derrocada da instituição familiar está muito evidente para que se possa negar, e essa derrocada é o prenúncio da destruição de uma sociedade que estará demasiadamente fraca para exercer resistência.

Para termos uma ideia mais ampla dessa dita derrocada, o The Contemplative Observer cita integralmente um inominado amigo americano (adivinhe quem) para responder à ideia de ser rotulado como “intolerante” por um fã no site de Neuwirth cujo codinome é andiamo24:

Percebo que em meu dicionário a definição da palavra ‘intolerância’ foi mudada para ‘fanatismo’. Mas não é fanatismo se constatarmos que um assassinato é intolerável. Também não é fanatismo se constatarmos que a depravação e a perversão sexual são intoleráveis. Isso é prudência e é um instinto saudável de se ter.


Eu gostaria de perguntar a essa andiamo24 se ela acharia que está tudo bem expor um garoto de 10 anos à ‘maravilhosa’ Conchita Wurst (e por que ela é maravilhosa?) Algo tão maravilhoso como um jovem sexualmente confuso que adota a personalidade de uma mulher não poderia significar um contágio de perversidade – exceto quando essa perversidade é tão sedutora. E então devemos nos perguntar se um jovem garoto instintivamente achar perturbadora a personalidade de Conchita Wurst se andiamo24 acharia esse garoto ‘intolerável’. Ou então, e se o garoto decidir se tornar uma mulher por conta do carisma verdadeiramente avassalador de Conchita? E se todos os garotos acharem Conchita irresistível e quiserem se tornar como ela? Digamos que a glorificação de Conchita – que é maravilhosamente poderosa – converta todos humanos ao glamoroso caminho do transgenerismo. Nesse caso você terá conquistado a destruição da raça humana, pois ela morreria, uma última Rainha anciã morrendo sozinha sem um público. Cada vez que cada indivíduo decidir quebrar a grande corrente que torna a raça humana possível, andiamo24 tem de aplaudir. Bem, ela já está aplaudindo. Ela já comemora nossa extinção e a nossa condenação sob o estandarte da tolerância. E ela chama isso de ‘maravilhoso’.

Na verdade isso é perverso, pois uma pessoa que apoia a destruição da sua própria espécie e a degradação dos dados ontológicos (i.e. a sexualidade) é um monstro corrupto até seu âmago, venenoso até para si mesmo. E se nossa posteridade sobreviver ao nosso presente flerte com a morte (com a negação da nossa posteridade), eles se horrorizarão com tipos como andiamo24 assim como se horrorizarão com o assassinato. Eles estariam justificados para condenar tão doentios progenitores (ou não-progenitores) e ficariam maravilhados em saber que a humanidade sobreviveu, que a Europa sobreviveu. Mas não irá sobreviver, certo? Pois muçulmanos e russos já rondam os portões da Europa e estão prontos para tomá-la de posse enquanto ela se ajoelha perante um homem que adota a personalidade de uma mulher.

O que eu digo aqui não é fanatismo. O que eu digo é prudência, e prudência é uma das quatro virtudes cardeais. E aqui, sem dúvida, intolerância se torna um adjunto necessário.

A perversão, que traz a um término toda a inocência e que normaliza tudo que é danoso ao ciclo vital não deve ter uma louvação heroica ou uma romantização como se fosse algo nobre. Quando a perversão é normalizada devemos nos perguntar o que mais tem de ser normalizado, especialmente com o advento de uma revolução tão abrangente. “Com efeito, o assassinato está a caminho de se tornar aceitável”, escreveu Albert Camus acerca do caminho niilista. “Basta comparar o Lúcifer dos pintores da Idade Média com o Satã dos românticos. Um adolescente ‘jovem, triste e charmoso’ (Vigny) toma o lugar da besta chifruda’.

Hoje em dia, a nova encarnação rebelde de Satã é apresentável, engraçada e musicalmente talentosa como artista. Para preencher essa fascinação perturbadora, adicione uma irresistível feminidade – e uma barba como se fosse do Novo Testamento. “O dândi cria sua própria harmonia por meios estéticos”, observou Camus. “Mas é uma estética da negação. ‘Viver e morrer perante um espelho’; que, de acordo com Baudelaire, era o slogan do dândi. É de fato um slogan coerente. O dândi, pelo seu próprio ofício, está sempre em oposição”.


Agora ele veste um vestido, faz sexo com homens e canta.


Notas: 
[1] NT.: referência aos tempos correntes de então, e não à modernidade pós-medieval.
[2] NT.: o autor usa o termo ‘homossexualist’, cujo equivalente em português é o gayzista, ou seja, o sujeito, que não necessariamente ele mesmo homossexual – como por exemplo, Marta Suplicy – faz uma defesa ferrenha da agenda gay
[3] NT.: O ato de jogar a luva no chão era a forma pela qual um cavaleiro na era medieval desafiava o outro para um duelo. O ato ficou imortalizado na primeira cena do primeiro ato da peça Ricardo II de Shakespeare.
[4] Tradução de Antônio José de Lima Leitão

Tradução: Leonildo Trombela Junior

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