quarta-feira, 2 de abril de 2014

As crianças foram sequestradas numa excursão na praia, colocadas em um caminhão frigorífico e levadas para extração de órgãos, mas o motorista errou o caminho do matadouro e, por esse erro, um caminhão de crianças foi salvo. Outras milhares não escaparam da morte.

Escrito por David Brunat* e publicado no site Mídia Sem Máscara
Eis o modelo do futuro.
Comentário do tradutor:
No artigo publicado no El Confidencial há uma boa quantidade de informações importantíssimas. Recentemente e para o espanto de muitos – embora venha explicando isso há alguns anos (vide O Mínimo que você precisa saber..., pg. 522 e seguintes) – o professor Olavo de Carvalho sintetizou o panorama político futuro mais ou menos nos seguintes termos: “o futuro do Brasil será o PT contra o narcotráfico (PCC, CV, etc), e ao final dessa disputa o PT sairá derrotado e as organizações criminosas, vitoriosas”. Para o brasileiro médio (confuso e desinformado) é de todo surreal imaginar uma situação onde as organizações criminosas e narcotraficantes venham a conquistar inclusive o poder político. No entanto, é precisamente esse o testemunho que o México nos dá e que esse artigo nos mostra! Os cartéis mexicanos descobriram algo bastante simples: deter o controle de um país inteiro ou de tão somente uma região não somente é extremamente lucrativo como é uma fonte virtualmente inesgotável de dinheiro e recursos. As cifras descritas mostram precisamente isso e é através dessa abundância de recursos que se faz possível rivalizar abertamente com o poder estatal constituído. 

Outro ponto que o artigo demonstra são os efeitos não imaginados das políticas de legalização das drogas. À medida que a “produção local” de drogas nos Estados Unidos aumenta, diminuem as exportações e vendas desses cartéis àquela nação, e esse desenvolvimento produz uma alteração substancial no cenário econômico tradicional dos cartéis mexicanos, induzindo-os a buscar outros ramos de atividade em substituição à perda de um mercado.

Trata-se de um efeito adverso das políticas de legalização liberacionistas. Há liberais que defendem entusiasticamente a liberação da produção e comercialização de entorpecentes como um meio de combater o próprio narcotráfico, porém o caso mexicano mostra que essas relações dinâmicas não são tão simples quanto imaginadas pela teoria.


Amontoados dentro de um baú refrigerado, um grupo de meninos teve sorte quando o motorista do caminhão se perdeu pela estrada. A entrega deveria ter sido feita ao sul de Michoacán, no porto de Lázaro Cárdenas, porém ele se enganou, trocou de estrada e acabou chegando a Tepalcatepec (ao norte) no meio da noite. Lá, agentes revistaram a mercadoria e qual não foi a surpresa quando no congelador surgiram os meninos em plena hipotermia. Eles haviam sido sequestrados horas antes na praia, numa excursão da escola.

Eles se salvaram, porém uma centena, e talvez até milhares, não tiveram a boa sorte do motorista errar o caminho. Foram sequestrados, tiveram seus órgãos vitais roubados e desapareceram para a eternidade. É assim que trabalha um dos ramos dos negócios do Los Caballeros Templarios, o primeiro cartel que fez do tráfico de drogas um objetivo secundário para concentrar-se em áreas mais lucrativas. Não são os únicos.

O Comissário de Segurança em Michoacán, Alfredo Castillo, revelou há alguns dias que o minério de ferro passou a ser “a principal fonte de receita” do Los Caballeros Templarios. “Estão cobrando 15 dólares pela tonelada de minério extraído, transportado, armazenado, pelas permissões e para a exportação”, disse um funcionário. Segundo a Câmara Mexicana do Ferro e Aço, o cartel arrecadou em torno de 1 bilhão de dólares em 2013 pela exportação de 10 milhões de toneladas de minério de ferro, comprado em sua maioria por empresas da China, país de onde provém a maioria dos insumos químicos que os Templarios utilizam para elaborar metanfetaminas.

Ferro, extorsões, corte ilegal de árvores e, só então, o tráfico de drogas. Esta é a ordem de prioridades dosTemplarios. “As pessoas pensam que na Tierra Caliente (o epicentro do conflito com os grupos de autodefesa) a luta só ocorre por uma 'plaza' do narcotráfico, no entanto, o que está em jogo na realidade é um negócio de bilhões de dólares que goza da cumplicidade das autoridades, pois é óbvio que nenhuma organização do crime organizado pode funcionar sem a cumplicidade e a proteção oficial”, assegura, ao El Confidencial, Leticia Quiroz, investigadora da Universidade de Goethe em Frankfurt e especialista no tema.

O sequestro de meninos nos estados mais pobres
Todavia, é um mistério a importância que o tráfico de órgãos tem na trama criminosa. “Todos os investigadores científicos e os policiais tem conhecimento que existe um alto índice de meninos desaparecidos no México, especialmente nas áreas rurais, onde há vezes que a população indígena nem mesmo fala espanhol e dificulta a realização de uma investigação. São meninos que ninguém reclama devido à pobreza, à marginalização ou ao idioma, algumas vezes são meninos com certas características físicas em função dos interesses”, denuncia Quiroz. Nos estados mais pobres do México, onde existem grandes populações indígenas, o sequestro de garotos é um terror faz alguns anos. Em Quintana Roo, na península de Yucatán, é considerado o problema mais grave, estando acima de qualquer outro crime.

Não obstante, o comissário Castillo tem dúvidas sobre o destino final desses órgãos, já que, segundo alguns testemunhos, Los Caballeros Templarios também usam corações humanos para serem comidos em ritos de iniciação ou em provas de fidelidade. Segundo o servidor, o líder templário recém-falecido Nazario Moreno ('El Chayo') obrigava alguns de seus sequazes a comer um coração humano para pô-los a prova, uma prática macabra cuja veracidade é mantida por mais de um testemunho. Manuel Plancarte, sobrinho do dirigente templário 'Kike' Plancarte, foi preso essa semana e reconheceu estar à frente do negócio de extração de órgãos humanos, embora nada tenha dito sobre o roubo de corações para comer.

O narcotráfico não é para todos
“É um erro identificar todas as organizações criminosas como narcotraficantes. Há de se distinguir entre os cartéis da droga e as organizações criminosas territoriais. Estes últimos são especializados no controle do território por meio da violência. Para eles, toda a atividade econômica representa um forte potencial de ingresso de receita. Não os interessa controlar um mercado (como fazem os cartéis tradicionais da droga), mas sim todos os mercados”, explica Antonio Mazzitelli, representante para o México e a América Central da Oficina da ONU contra a Droga e Crime.

É esse o perigoso modelo que marcará o futuro dos cartéis no México e que há anos tem manifestado seu poder nas quadrilhas de Honduras e El Salvador ou no controle exercido pelos Comandos no Brasil: já não é mais a distribuição da droga o que todos buscam, mas o controle total de uma economia numa região.Los Caballeros Templarios encontraram uma oportunidade excelente na exploração das minas de ferro de Michoacán, ao passo que outros cartéis, como Los Zetas, há vários anos roubam combustível dos imensos dutos que a petroleira Pemex tem espalhados ao largo do Golfo do México.

A empresa detectou no ano passado 2190 pontos de extração ilegal e 'gatos', um aumento de 40% que,somados, lhe fizeram ter um prejuízo de 1 bilhão e 290 milhões de reais. Um montante gigantesco que passou às mãos dos Los Zetas e, em menor medida, para o cartel do Golfo. Na verdade, os Los Zetas são os pioneiros nessa mudança de modelo no México. Esse cartel de antigos militares da elite era especializado em violência e em controle territorial, não em narcotráfico, dando treinamentos sobre o uso do terror aos seus protegidos da La Familia Michoacana, que ao cindir gerou Los Caballeros Templarios.

Hoje, quase todos os grupos criminosos mexicanos e latinos americanos encaram o narcotráfico como outro negócio a mais. É assim, não por uma questão de interesse, mas devido ao quase monopólio exercido pelo cartel do Pacífico (Federacíon de Sinaloa) sobre esse setor e pelo preocupante aumento da produção local nos Estados Unidos, que está minguando o volume do mercado. Mesmo assim, 90% da cocaína consumida pelos Estados Unidos provêm do México, um negócio que, segundo os cálculos mais conservadores da ONU, rende aos cartéis de 15 a 60 bilhões de dólares por ano, sem contar os lucros do varejo que, teoricamente, não regressa. A Microsoft, por exemplo, fatura 60 bilhões anualmente.

“Os grandes cartéis com capacidade operativa continuam no negócio do narcotráfico, porém os menores e recém-chegados não tem esse know-how. Por conta disso, os novos grupos encontram um espaço muito mais promissor no modelo de controle do território e dos mercados criminais e lícitos. É o mecanismo mafioso da extorsão e oferta de proteção”, explica Mazzitelli. Segundo dados oficiais, o ano de 2014 iniciou no México com 12 grandes cartéis e outros 88 grupos criminosos que tem como aspiração crescer e competir nas grandes ligas do crime. Seu modelo de negócio não é o de Sinaloa e do narcotráfico, mas o da extorsão, do sequestro, da prostituição, do tráfico de pessoas e, mais adiante, a infiltração em todos os âmbitos econômicos.

O cartel do Pacífico começa, pois, a ficar sozinho no antigo código de conduta do narcotráfico, apesar da organização liderada pelo recém-detido Joaquín Guzmán ('el Chapo') também possuir uma rede de - pelo menos - 288 empresas, as quais estão centradas na lavagem de dinheiro e no reinvestimento dos lucros do narcotráfico. Um empório criminoso que conta com extravagâncias como granja de avestruzes, pista de corridas e até mesmo uma creche. Mais além dos desvios dos lucros, Sinaloa também encontrou um mercado muito lucrativo em áreas de negócio paralelas à droga, como o contrabando de animais em perigo de extinção e no controle do mercado da pirataria audiovisual, práticas que, hoje, os cartéis imitam e ampliam. 24/03/14


Tradução: Francis Lauer

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