sexta-feira, 4 de abril de 2014

A ideologia é o nome contemporâneo do pecado original, a ilusão de que o homem pode resolver os mistérios do mundo por si mesmo. O esquerdista e o ateísta encontrarão o caminho verdadeiro. Um dia conhecerão Cristo

Nicodemos
Escrito por Paulo Briguet* em 10 de Março de 2014 e publicado no Blog Com o Perdão da Palavra Jornal de Londrina
Não abandonei a esquerda e o ateísmo da noite para o dia. Durante algum tempo, fiz como Nicodemos, que ia conversar com Jesus à noite, quando ninguém estava vendo. Nesta longa jornada em direção ao dia, que levou anos, vi e ouvi coisas terríveis, que só poderiam me conduzir a duas soluções: a morte ou o renascimento. O fato de que estou aqui escrevendo estas palavras mostra qual saída escolhi. É bem verdade que, no caminho, encontrei a Rosângela e o Pedro. Sem eles não haveria solução possível; minha mulher e meu filho são a imagem do amanhecer.

Em mim, a esquerda e o ateísmo estavam profundamente ligados. A revolução política pode ser simbolizada pelo anel de Tolkien ou o círculo de Chesterton: uma solução perfeita, encerrada em si mesma – e falsa. A ideologia é o nome contemporâneo do pecado original, a ilusão de que o homem pode resolver os mistérios do mundo por si mesmo. Até hoje, quando encontro um católico de esquerda (e existem muitos!), penso que há algo de muito errado com o seu catolicismo ou com o seu esquerdismo.

Li um poema de Cecília Meireles e encontrei a seguinte expressão: “domador de culpas”. Essa imagem impressionou-me fortemente; não me saía da minha cabeça. A razão é simples. Durante muito tempo na vida, eu fui um domador de culpas – as minhas e as da “sociedade”. Quem não sente culpa não é ser humano, dizia o professor José Monir Nasser. O problema não está na culpa em si, mas no que você faz com ela. Eu me arrependi – e continuo me arrependendo.

É claro que deixar a esquerda teve algumas consequências. Nada muito grave. Não sou mais convidado para certas festinhas da categoria. Desconfio que antes só me chamavam porque eu tocava violão e cantava paródias; mas, como eu continuo fazendo as duas coisas, acho que não me convidam porque não apreciam a companhia de um “fundamentalista” ou “fascista” (embora poucas coisas me causem mais repugnância que o fundamentalismo e o fascismo). Que remédio!

Também não sou mais convidado para bancas de TCCs. Acredito que os formandos de Comunicação não querem ver seu nome associado a um “cronista de direita”. Quando eu era diretor sindical e militante, todo fim de ano pipocavam quatro ou cinco convites. Nunca mais.

Mas a grande vantagem de não ser mais de esquerda é a de ter me livrado daquele terrível “amor pela humanidade”, característico das mentes revolucionárias. Não sinto mais amor por abstrações; passei a gostar das pessoas de carne, osso e alma. O vendedor de alho da esquina, por exemplo. Seu nome é Ismael; o meu é Nicodemos.

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