quarta-feira, 12 de março de 2014

AMULIANOS E A REPÚBLICA: O povo pediu um rei, mas o altíssimo disse que o rei nos escravizaria. O diabo, as vezes, fantasia-se de São Miguel. É melhor um rei católico que um rei comunista

Escrito por Frei Clemente Rojão
Todos os anciãos de Israel vieram em grupo ter com Samuel em Ramá, e disseram-lhe: Estás velho e teus filhos não seguem as tuas pisadas. Dá-nos um rei que nos governe, como o têm todas as nações. Estas palavras: Dá-nos um rei que nos governe, desagradaram a Samuel, que se pôs em oração diante do Senhor. O Senhor disse-lhe: Ouve a voz do povo em tudo o que te disseram. Não é a ti que eles rejeitam, mas a mim, pois já não querem que eu reine sobre eles. Fazem contigo como sempre o têm feito comigo, desde o dia em que os tirei do Egito até o presente: abandonam-me para servir a deuses estranhos. Atende-os, agora; mas declara-lhes solenemente, dando-lhes a conhecer os direitos do rei que reinará sobre eles. 
Referiu Samuel todas as palavras do Senhor ao povo que reclamava um rei: Eis, disse ele, como vos há de tratar o vosso rei: tomará os vossos filhos para os seus carros e sua cavalaria, ou para correr diante do seu carro. Fará deles chefes de mil e chefes de cinqüenta, empregá-los-á em suas lavouras e em suas colheitas, na fabricação de suas armas de guerra e de seus carros. Fará de vossas filhas suas perfumistas, cozinheiras e padeiras. Tomará também o melhor de vossos campos, de vossas vinhas e de vossos olivais, e dá-los-á aos seus servos. Tomará também o dízimo de vossas semeaduras e de vossas vinhas para dá-los aos seus eunucos e aos seus servos. Tomará também vossos servos e vossas servas, vossos melhores bois e vossos jumentos, para empregá-los no seu trabalho. Tomará ainda o dízimo de vossos rebanhos, e vós mesmos sereis seus escravos. E no dia em que clamardes ao Senhor por causa do rei, que vós mesmos escolhestes, o Senhor não vos ouvirá. O povo recusou ouvir a voz de Samuel. Não, disseram eles; é preciso que tenhamos um rei! - I Samuel 8,4-19

Uma das histórias mais interessantes da gloriosa Ordem de Santo Amúlio - senão a mais interessante - é engajamento histórico da ordem amuliana nas causas republicanas.
Quem cria corvos, tem seus olhos bicados
Tudo começou com os estudo exegético dos quatro livros dos Reis do Frei Brutus de Agnani no século XI (Hoje em dia, livros de Samuel e Reis). Semelhante estudo sobre os danos à fé da monarquia israelita ficou famoso em toda ordem, mesmo em toda a Igreja. Logo em seguida, o glorioso papa Bonifácio VIII come o pão que o diabo amassou quase martirizado nas mãos da cada vez mais forte coroa francesa, culminando no Exílio na Babilônia e a submissão dos papas ao rei francês.

A Ordem Amuliana, engajada na independência do papado, foi fortemente impressa por estes eventos. A explosão da heresia protestante com nobres ávidos por espoliar os bens da Igreja, bem como a Concordata de Augsburgo - cada reino teria a fé do príncipe - apenas reforçou o clima anti-monárquico na Ordem. Os padres amulianos foram eloquentes - ainda que voto perdido - que a despeito da concordata salvaguardar os reinos católicos, os príncipes protestantes não tinham o direito de arrastar os súditos à heresia, e que o direito, ou melhor, o dever à Verdade da fé católica suplantava qualquer direito divino dos reis.

Que o leitor não estranhe eventos de dois séculos se somarem, a Ordem Amuliana é movida pelos séculos.

Os amulianos nas sombras tornaram-se inimigos acérrimos dos tronos. Citavam os abusos que as coroas fizeram em nome da Igreja durante o Renascimento e Barroco, que os reis tinham a fé na boca mas o ouro no bolso, e que se queriam espoliar os súditos e colônias, tirassem o nome de Cristo da boca. Grandes querelas se deram especialmente na península Ibérica, onde os amulianos negaram-se a reconhecer a validade da Inquisição liderada pelas coroas.
Porque o Diabo as vezes se fantasia de São Miguel...
Diversos tratados republicanos circulavam na Ordem. A República - e uma república laica - ofereceria à Igreja as maiores vantagens. Um papado mais forte, sem reis que interviessem na escolha dos bispos. Liberdade religiosa para retomar os reinos perdidos ao protestantismo (ainda que abrisse a guarda dos países católicos). Revezamento de poder, permitindo rápida correção de curso e a ascensão de líderes formados na moral católica . Maior força da elite esclarecida católica no processo político, especialmente das classes intermediárias.

É tido como uma das mais arriscadas estratégias da História a aproximação dos amulianos com o iluminismo. Os jesuítas, principais vítimas do despotismo supostamente "esclarecido", dizem, (com razão, confesso!) que os amulianos foram atropelados pelas engrenagens que puseram para mover. Foi do Frei Jean das Ardenes, depois de um almoço pesado, a frase "O mundo ficará livre no dia em que último rei for enforcado nas tripas do último herege", lamentavelmente sequestrada por Voltaire para o anti-clericalismo. "O mundo ficará livre no dia em que último rei for enforcado nas tripas do último padre"

A dissolução dos jesuítas pelas coroas, a despeito da rivalidade com os amulianos, foi um exemplo claro para nossa ordem que "O adversário de meu adversário não é necessariamente meu amigo". O tiro saiu totalmente pela culatra, o iluminismo gerou forte movimento anti-clerical e este monstro oprimiu a Igreja, gerando um monstro ainda pior, o comunismo. Esta é uma das razões do "gelo" em que a ordem amuliana foi submetida nos últimos séculos.

Os ideais amulianos de república foram retomados pelo positivismo, e do pais menos esperado, os EUA, veio a influência republicana derradeira no século XX. A participação amuliana nestes eventos é material classificado, do qual devo manter silêncio obsequioso.
Vai defender maçon para ver o que acontece, vai...
O leitor deve estar se perguntando se influenciamos a queda de D. Pedro II. Sim, influenciamos. A despeito das virtudes pessoais do Imperador, sua intervenção na questão maçônica foi lamentável. Enquanto os historiadores brasileiros não se livrarem da canga marxista que mantém no pescoço, nunca perceberam a atuação de nossa Ordem nestes eventos. Tivemos uma atuação em Portugal, porém a queda da monarquia lusitana mais uma vez ensinou os perigos do flerte com revoluções mundanas, dado o forte componente anti-clerical, e o mergulho do pais numa ditadura. Erro este do anticlericalismo que evitamos na Guerra Civil Espanhola. Afinal, é melhor um rei católico que um rei comunista.
Os historiadores amulianos que se debruçaram nesta questão concluíram que é muito difícil gerar Repúblicas virtuosas a partir de revoluções, e o vácuo pode ser ocupado pelas estrovengas racionalistas (como da Revolução francesa) ou comunistas. As Repúblicas, e isso já se sabe desde Platão, são tão boas quanto a virtude de seus cidadãos. Alguns amulianos dizem que a culpa não é nossa, que se o povo não é virtuoso isso é culpa do resto da Igreja. Outros dizem que colocamos os carros na frente dos bois, e que buscamos justiça política antes de trabalhar a virtude humana. Qualquer semelhança com a Teologia da Libertação não é mera semelhança. Também os libertides estão condenados a serem devorados pelo comunismo cristão (paradoxo!) que propagaram... assim que a máscara de cristão cai e fica apenas o comunismo devorador.

Mas viva a República do mesmo jeito! Temos apenas um rei que é Cristo, e vamos se virando delegando e revezando poder.

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