segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Lei antiterror, imprensa livre, democracia, black blocs, terrorismo, MST, cinegrafista da Band, imprensa acovardada

Por Reinaldo Azevedo no Blog do Reinaldo na Veja:

Black blocs em ação: será que isso é permitido na democracia? Resposta óbvia: não!

Em dezenas de artigos neste blog e na minha coluna na Folha de sexta, acusei a omissão da imprensa e dos jornalistas, que não revelam a seu leitores, telespectadores ou ouvintes que são obrigados a se esconder nas manifestações. Um colete com a palavra “Imprensa” não seria uma boa ideia porque, em vez de proteger o jornalista, a vestimenta o exporia a riscos ainda maiores. Pode até ter a sua eficácia na Síria, não nas ruas de São Paulo ou do Rio. E a omissão continua. Por enquanto ao menos, homenagens à parte, no que concerne à reação dos profissionais de imprensa, Santiago Andrade morreu em vão. Aliás, note-se, em vez da justa indignação, começou foi o coro dos hipócritas do “deixa disso”. Há até alguns e algumas bacanas sugerindo que os jornalistas precisam evitar a reação “corporativista”. E assim é, vocês já perceberam, porque os assassinos de Santiago são dois manifestantes. Imaginem o escarcéu que se faria — e com razão, noto — se tivesse sido morto pela Polícia Militar.

Aliás, reações, estas sim, corporativistas, vimos e ainda vemos quando se trata de apontar o dedo contra as forças se segurança. É possível que um ou outro policiais tenham atirado balas de borracha contra jornalistas porque jornalistas — e, ficando evidenciado, têm de ser punidos porque o artefato deixa de ser dissuasivo para se transformar em arma de ataque. No mais das vezes, no entanto, jornalistas foram feridos no fogo cruzado. Infelizmente, a tal bala ainda é incapaz de distinguir profissões. Como os coleguinhas estão sempre fazendo a cobertura do ponto de vista do “manifestante”, nunca da polícia, a chance de ser atingido é grande. “Ah, está justificando!” Não estou. Digo como são as coisas.

Vejo associações de empresas e de jornalistas cobrando “garantias” à polícia. Quais garantias? O instrumento mais eficaz, nesses casos, é haver a clara identificação dos profissionais de imprensa. Ou deem outro! Mas assim não pode ser porque eles estão com medo — e com razão. No Rio, no dia 13 de junho, policiais foram literalmente linchados. Então a coisa não começou agora, certo? Um grupo foi sitiado na Assembleia, com vândalos dispostos a botar fogo no prédio. Em São Paulo, um coronel da Polícia Militar teve a clavícula quebrada e poderia ter sido morto não fosse a intervenção de homens do serviço reservado. E o coronel estava lá para negociar. Imaginem se esses canalhas cercam um repórter de TV cuja cara é conhecida. Um carro da TV Record foi incendiado — apesar disso, um gigante moral como Paulo Henrique Amorim usa seus dotes momescos para fazer graça com a violência, tripudiando sobre o cadáver de um colega de sua ex-profissão.

Por que a Globo, a Band ou a Record não mandam para as ruas, com a devida identificação no microfone e nas câmeras, seus profissionais conhecidos, justamente os mais experientes e, em tese ao menos, mais aptos a coberturas com esse grau de complexidade? Porque seriam linchados! Ainda que as empresas fossem irresponsáveis o bastante para convocá-los, eles não iriam. Se conhecerem alguns, perguntem a eles se teriam coragem de enfrentar a parada. Não são doidos. Aliás, os repórteres de TV que me leem agora sabem que falo a verdade. As TVs estão recorrendo a estratégias editoriais: o jornalismo atua de modo clandestino, colhendo imagens. Depois, os mais experientes se encarregam de “amarrar” uma reportagem final. E ninguém está se escondendo da polícia. É vergonhoso que isso não tenha sido denunciado ainda:
a: pelas emissoras;
b: pelas associações profissionais de jornalistas;
c: pelas associações profissionais das empresas de comunicação;
d: pela Ordem dos Advogados do Brasil. Esta, então, por intermédio de sua seção no Rio, está, na prática, justificando a violência, como já demonstrei aqui. A atuação da entidade nesse particular tem sido vergonhosa.


Tim Lopes, sim!, mas pior

Mesmo assim, apesar de todas as evidências de que os jornalistas estão sendo caçados nas ruas, prevalecem o silêncio e a reação, esta sim hipócrita, de culpar os dois lados. Por quê? Porque estão todos com medo dos milicianos organizados das redes sociais.

Leio um texto em que se sustenta que Santiago Andrade não pode ser comparada a Tim Lopes porque, nesse caso, os traficantes sabiam quem estavam matando e se tratou de um agressão explícita à liberdade de imprensa. Já a dupla que atacou Santiago, bem, o rojão não estava destinado a ele; teria havido um acidente. A consideração é de uma imoralidade asquerosa. É claro que não era “para ele”. Como confessou um dos agressores, o objetivo era atingir os policiais. E que se note: fosse o morto um fardado, a reação teria sido ainda mais discreta.

Certas ocorrências, ainda que infinitamente menores do que emblemas de tragédias humanitárias, trazem a memória pura da indignidade. Hitler matou seis milhões de judeus. E encontrou um lugar justo na história, sendo cultuado não mais do que por meia dúzia de lunáticos. Stálin responde pela morte de uns 40 milhões na União Soviética — quase nunca, mas também, matava alguém por pertencer a este ou àquele grupos. A vocação homicida do Bigodão era menos seletiva do que a do Bigodinho. É evidente que o Holocausto judeu merece um lugar único na história porque o ódio a uma etnia, a um grupo social, a um povo reveste-se de particular gravidade. Hitler matava judeus porque eram judeus. Mas como explicar que partidos comunistas mundo afora e esquerdistas em penca ainda hoje cultivem a memória de Stálin — e, mais genericamente, do socialismo — como um reformador?

A sobrevivência, diga-se, das ideias de esquerda decorre, em grande parte, desse dar de ombros para os crimes cometidos pelos socialistas. Admite-se, em larga medida, que a violência é um instrumento aceitável da luta política, daí um certo Marcelo Chalreo, presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ, ter citado alegremente numa nota — num daqueles momentos em que a ignorância se cruza com a truculência — que “a violência é a parteira da história”. Não se enganem: se as organizações judaicas não fossem tão vigilantes e não se empenhassem, ainda hoje, em lembrar quem foi Hitler e o que foi o nazismo, também essa besta-fera já teria sido reciclada para consumo. Afinal, se “a violência é a parteira da história”, então tudo é permitido. Os canalhas intelectuais que acusam os judeus de alimentar “a indústria do holocausto” deveriam atentar para o mal que fizeram os liberais por não terem alimentado a “indústria do morticínio socialista”.

O caso Santiago Andrade, na verdade, é mais grave do que o de Tim Lopes. Sim, os traficantes sabiam quem estavam matando. Mas notem: Tim estava infiltrado no “movimento”, numa operação que sabia de altíssimo risco, para fazer a denúncia por dentro. Fosse um policial ou religioso, uma vez descoberto, teria morrido do mesmo jeito. É tolice achar que o assassinaram porque era um jornalista. Os facínoras que o mataram não estavam se manifestando contra a liberdade de imprensa. Só não queriam ser denunciados. Duvido que Elias Maluco já tenha pensado a respeito da liberdade de informação ou que chame o jornalismo de “mídia conservadora”, com esgar de nojo. Ele habita outro planeta.

Nestes dias, a coisa é bem diferente. Fato: a dupla não tentou matar Santiago — o artefato era para a polícia… Mas Santiago pertencia a uma categoria que não pode se identificar e mostrar a cara porque grupos organizados, que odeiam o jornalismo livre, que se manifestam abertamente contra a liberdade de imprensa, não permitem.


Vagabundos financiados

Entrem nas páginas dos black blocs e afins na Internet para ver o que eles pensam da imprensa, que acusam de “distorcer” as reais intenções do seu glorioso “movimento”. A tal “Sininho”, que apareceu como animadora de torcida de depredadores, chamou de “carniceiros” os cinegrafistas que, trabalhando, cobriam o depoimento de Fábio Raposo, um dos assassinos de Santiago. Um de seus amigos apontou o dedo para eles: “Vocês serão os próximos”. Levou uma “camerada” na cabeça de um dos cinegrafistas — um gesto que mereceu o meu aplauso. Simples assim.

Façam um exercício: comparem o que os black blocs e outros violentos dizem do jornalismo livre com o que vai em páginas do subjornalismo governista-petista, financiadas pelo governo federal e por estatais. O texto é o mesmo. As acusações são as mesmas. A mesma é a vocação persecutória. O que os facinorosos que matam pessoas pensam do jornalismo não é diferente da pregação de Franklin Martins. Não é diferente do que dizem os documentos da Executiva Nacional do PT.

Em razão de tudo o que expus até aqui, escrevi assim na minha coluna de sexta na Folha:

(…)
Eu acuso Franklin Martins de ser o chefe de uma milícia oportunista contra a imprensa livre.
Eu acuso o governo federal e as estatais, que financiam páginas e veículos que pregam o ódio ao jornalismo independente, de ser corresponsáveis por essa morte.
Eu acuso o ministro José Eduardo Cardozo de ser, querendo ou não, na prática, um dos incitadores da desordem.
Eu acuso o ministro Gilberto Carvalho de especular com o confronto de todos contra todos.
Eu acuso jornalistas de praticar a sujeição voluntária porque se calam sobre o fato de que são caçados nas ruas pelos ditos “ativistas” e obrigados a trabalhar clandestinamente.
Eu acuso empresas e jornalistas de se render a milicianos das redes sociais e de se preocupar mais com “o que elas vão dizer de nós” do que com o que “nós temos de dizer a elas”.
Eu acuso uns e outros de se deixar pautar por dinossauros com um iPad nas patas.
(…)
A lei anterrorismo

O Brasil não tem uma lei antiterrorismo. Não posso afirmar com absoluta certeza porque não fiz o levantamento em todos os países do mundo, mas certamente é dos poucos a ter esse vazio legal. O Chile tem. A Colômbia tem. Os EUA têm. A Alemanha, a França, a Itália e Inglaterra têm. Ah, sim, a Venezuela, Cuba e China também — nesses três casos, diga-se, tão apreciados pelas nossas esquerdas, basta defender a democracia para ser enquadrado como terrorista.

Setores da imprensa brasileira já detonaram o Projeto de Lei do Senado nº 499 SEM LER. A íntegra está aqui. Como é óbvio, não pune manifestantes ou tolhe a liberdade de expressão. Pune com severidade quem infunde terror em massa e quem ataca instalações e bens públicos, incluindo meios de transporte, pondo em risco a segurança de milhares de pessoas. Aliás, a Lei de Segurança Nacional, a 7.170, que está em vigor, poderia já ter mandado para a cadeia alguns dos bandidos que estão por aí aterrorizando as pessoas.

A esquerda do PT saiu gritando contra o Projeto de Lei do Senado. Imediatamente, algumas vozes do jornalismo resolveram fazer eco à gritaria. Confunde-se a violência terrorista com simples distúrbios; confunde-se a repressão ao terror com o cerceamento à liberdade de expressão, o que é, obviamente, um absurdo.

É evidente que o estado brasileiro não pode definir O QUE SE PODE FAZER NUMA MANIFESTAÇÃO, O QUE SE PODE DIZER, O QUE SE PODE REIVINDICAR. Mas o estado tem legitimidade para definir, sim, O QUE NÃO SE PODE FAZER: explodir bombas, recorrer a coquetéis molotov, incendiar ônibus, infundir terror nas ruas e em aparelhos públicos, o que pode pôr em risco a segurança de milhares.

Só a mais escancarada má-fé ou a burrice mais saliente podem confundir o ataque a direitos fundamentais de todos os indivíduos como um pressuposto da liberdade de manifestação de alguns indivíduos. Não se trata de ser “progressista” ou “reacionário”, mas de admitir ou não o crime como instrumento de luta política.

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