sábado, 22 de fevereiro de 2014

Entenda a crise da Ucrânia - Qual o papel da Rússia? O que quer dizer ir para a Maidan? Semelhança com a Venezuela. Ou:

Escrito por Timothy Snyder* e publicado no site Mídia Sem Máscara
Putin quer a Ucrânia em sua União Eurasiana, o que quer dizer que a Ucrânia tem de ser autoritária, e isto significa que a Maidan deve ser destruída.
O eurasianismo não é somente a fonte ideológica da União Eurasiana, é também o credo de muitas pessoas na administração Putin.

N.T.: Artigo publicado na edição de 20 de Março de 2014 da The New York Review referente ao atual conflito na Ucrânia. A exposição do cenário político e cultural desse conflito feita pelo autor é importante no entendimento do cenário latino-americano atual e, particularmente, no conflito que hoje ocorre na Venezuela, como pode ser visto pela leitura dos debates entre o professor Olavo de Carvalho e o teórico russo Aleksandr Dugin.
Os estudantes foram os primeiros a protestar contra o regime do presidente Viktor Yanukovych na Maidan, a praça central de Kiev, novembro passado. Esses eram os ucranianos que mais tinham a perder, os jovens que sem dúvidas se vêem como europeus e que desejam ter uma vida e uma pátria ucraniana européia. Muitos deles eram alinhados politicamente à esquerda, alguns deles radicalmente à esquerda. Após anos de negociações e meses de promessas, o seu governo, sob a administração do presidente Yanukovych, no último momento deixou de assinar um importante acordo com a União Européia. 

Quando a polícia de choque entrou em cena e reprimiu os estudantes novembro passado, um novo grupo, dos veteranos do Afeganistão, foi para a Maidan. Esses homens de meia idade, soldados da reserva e oficiais do Exército Vermelho, muitos deles carregando as cicatrizes dos ferimentos em campo de batalha, foi para a Maidan, como eles diziam, para proteger “seus filhos”. Eles não se referiam diretamente aos seus filhos e filhas: eles se referiam ao melhor da juventude, o orgulho e o futuro do país. Depois dos veteranos do Afeganistão vieram muitos outros, dezenas de milhares seguidos por centenas de milhares, agora nem tanto a favor da Europa mas em defesa da decência. 

O que quer dizer ir para a Maidan? A praça está localizada perto de alguns dos maiores prédios do governo e é agora um local tradicional para protestar. É importante ressaltar que a palavra maidan existe em ucraniano mas não em russo, e que mesmo as pessoas que falam russo usam essa palavra devido ao seu significado especial. Na sua origem, é a palavra arábica para "praça", um espaço público. Porém, maidan hoje quer dizer em ucraniano o mesmo que a palavra grega agora: não simplesmente um mercado público onde as pessoas podem se encontrar, mas um local onde as pessoas se encontram deliberadamente, precisamente para deliberar, para conversar e para criar uma sociedade política. Durante os protestos a palavra maidan veio a se referir ao ato público da política em si. Assim, por exemplo, as pessoas que usam seus carros para organizar a atenção pública e proteger os outros protestantes são chamados automaidan. 

Os protestantes representam todos os grupos de cidadãos ucranianos: Os que falam russo e os que falam ucraniano (mesmo que a maior parte dos ucranianos sejam bilíngues), pessoas das cidades e do campo, as pessoas de todas as regiões do país, os membros de todos os partidos políticos, os jovens e os idosos, os cristãos, os muçulmanos e os judeus. Todas das maiores vertentes do cristianismo estão representadas por fiéis e a maior parte delas pelo clero. Os Tártaros da Criméia marcharam em número impressionante e as lideranças judaicas fizeram questão de apoiar o movimento. A diversidade da Maidan impressiona: o grupo que monitora os hospitais para que o regime não possa sequestrar os feridos é organizado por jovens feministas. Um telefone de emergência que os protestantes ligam quando necessitam de ajuda é mantido por ativistas LGBT.

Em 16 de janeiro, o governo ucraniano, encabeçado pelo presidente Yanukovych, tentou colocar um fim na sociedade civil ucraniana. Uma série de leis passadas as pressas e sem seguir os procedimentos normais restringiram a liberdade de expressão e de comício, e removeram os poucos entraves que restavam a autoridade do executivo. Isso foi feito com o intento de levar a Ucrânia a uma ditadura e tornar todos os participantes na Maidan, que naquela altura provavelmente já somavam alguns poucos milhões, criminosos. O resultado foi que os protestos, até então pacíficos, se tornaram violentos. Yanukovych perdeu o apoio mesmo na sua base política no sudeste, próxima da fronteira com a Rússia. 

Após semanas respondendo pacificamente as prisões e as agressões da polícia de choque, muitos ucranianos concluíram que tinham chegado ao limite. Uma parte dos protestantes, longe de serem a maioria dos alinhados à direita e à direita extrema, decidiram entrar em confronto com a polícia. Entre eles estavam membros do partido de extrema direita Svoboda e um novo conglomerado de nacionalistas que se intitulam Setor Direito (Pravyi Sektor). Jovens, alguns de grupos da direita e outros não, tentaram tomar a força os espaços públicos disputados pela polícia de choque. Jovens judeus formaram seu próprio grupo de combate, ou sotnia, para lutar contra as autoridades. 

Mesmo tendo Yanukovych revogado a maior parte das leis ditatoriais, a violência ilegal do regime, que havia começado em novembro continuou em fevereiro. Membros da oposição foram alvejados e assassinados, ou molhados pelos carros de água usados para dispersar manifestações em temperaturas abaixo de zero para que morressem de hipotermia. Outros foram torturados e deixados para morrer no mato. 

Durante as duas primeiras semanas de fevereiro, o regime de Yanukovich buscou restaurar algumas das leis ditatoriais por decretos, atalhos burocráticos e novas legislações. Em 18 de fevereiro, um debate parlamentar que estava anunciado para tratar de uma reforma constitucional foi cancelado. Ao invés desse debate, o governo colocou milhares de policiais do batalhão de choque contra os manifestantes de Kiev. Centenas de pessoas foram feridas por balas de borracha, gás lacrimogêneo e cassetetes. Dezenas foram mortas. 

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O futuro desse movimento de protestos será decidido pelos ucranianos. Ainda assim, os protestos haviam começado na esperança de que a Ucrânia pudesse entrar para a União Européia, uma aspiração que para muitos ucranianos representa algo como uma combinação de estado de direito, ausência do medo, fim da corrupção, estado de bem estar social e livre mercado sem a intimidação dos sindicatos controlados pelo presidente. 

O curso dos protestos foi muito influenciado pela presença de um projeto rival para a Ucrânia, apoiado por Moscou e chamado de União Eurasiana. Trata-se de uma união internacional política e comercial que ainda não existe mas que deve passar a existir em janeiro de 2015. A União Eurasiana, ao contrário da União Européia, não está baseada nos princípios da igualdade e da democracia nos seus países membros, nem no estado de direito, nem nos direitos humanos.

Ao contrário, é uma organização hierárquica, que por sua natureza parece improvável que admita qualquer membro que seja democrático, com estado de direito e direitos humanos. Qualquer democracia na União Eurasiana seria uma ameaça ao poder de Putin na Rússia. Putin quer a Ucrânia em sua União Eurasiana, o que quer dizer que a Ucrânia tem de ser autoritária, e isto significa que a Maidan deve ser destruída.

As leis ditatoriais de 16 de janeiro eram obviamente baseadas nos modelos russos, e foram propostas por legisladores ucranianos com laços fortes com Moscou. Essas leis parecem ter sido a condição imposta pela Rússia para o apoio financeiro ao regime de Yanukovych. Antes de serem anunciadas, Putin ofereceu a Ucrânia um grande empréstimo e prometeu reduzir o preço do gás natural Russo. Todavia, em janeiro o resultado não foi o alinhamento à Rússia. As pessoas da Maidan se defenderam, e os protestos continuaram. Onde isso tudo vai levar ninguém pode adivinhar; somente o Kremlin expressa certeza em relação ao que tudo isso significa.

Os protestos na Maidan, nos foi dito diversas vezes pela propaganda russa e pelos amigos do Kremlin na Ucrânia, significavam o retorno do nacional-socialismo à Europa. O ministro de relações exteriores russo palestrou aos alemães em Munique sobre o apoio dos protestantes a pessoas que saúdam Hitler. Naturalmente, é importante que se esteja atento à extrema direita na política e história ucraniana. Essa ala política ainda é uma presença séria nos dias de hoje, ainda que menos importante que a extrema direita na França, na Áustria ou na Holanda. Ainda assim, é o regime ucraniano, não seus opositores, que está retomando o anti-semitismo, instruindo sua polícia de choque de que a oposição é liderada por judeus. Em outras palavras, o governo ucraniano está dizendo para seus policiais que o oponente é judeu e dizendo para nós que o oponente é nazista. 

O mais estranho em relação às aspirações de Moscou é a ideologia política dos seus teóricos. A União Eurasiana é a inimiga da União Européia, não só na estratégia mas também na ideologia. A União Européia se baseia em uma lição histórica: de que as guerras do século XX se basearam em idéias falsas e perigosas, o nacional-socialismo e o stalinismo, que devem ser rejeitadas e de fato superadas em um sistema que garanta livres mercados, livre fluxo de pessoas e estado de bem estar social. O Eurasianismo, ao contrário, se apresenta com seus defensores como o oposto da democracia liberal. 

A ideologia eurasiana pinta uma lição totalmente diferente do século XX. Fundada por volta de 2001 pelo cientista político russo Aleksandr Dugin, ela propõe a realização do nacional-bolchevismo. Ao invés de rejeitar ideologias totalitárias, o eurasianismo chama os políticos do século XXI a buscar o que é útil tanto no fascismo como no stalinismo. O principal trabalho de Dugin, Os Fundamentos da Geopolítica, publicado em 1997, segue de perto as idéias de Carl Schmitt, o líder dos teóricos nazistas. O eurasianismo não é somente a fonte ideológica da União Eurasiana, é também o credo de muitas pessoas na administração Putin e a força motriz de um movimento bastante ativo da juventude russa de extrema direita. Por anos Dugin defendeu abertamente a divisão e colonização da Ucrânia. 

O homem de referência para as políticas eurasianas e ucranianas no Kremlin é Sergei Glazyev, um economista que, como Dugin, tende a combinar nacionalismo radical com nostalgia pelo bolchevismo. Ele foi membro do Partido Comunista e deputado comunista no parlamento russo antes de se tornar um dos fundadores do partido de extrema direita chamado Rodina, ou Terra-mãe. Em 2005, alguns de seus deputados assinaram uma petição ao procurador geral russo pedindo que todas as organizações judaicas fossem banidas da Rússia. 

Mais tarde, naquele mesmo ano, o Rodina foi proibido de participar das futuras eleições depois de reclamações de que suas propagandas incitavam o ódio racial. A mais notória dessas propagandas mostrava pessoas negras comendo melancias e jogando as cascas no chão, para então chamar os russos para a limpeza de suas cidades. O livro de Glazyev Genocídio: Rússia e a Nova Ordem Mundial defende que as forças sinistras da “nova ordem mundial” conspiraram contra a Rússia nos anos 90 para impor políticas econômicas que levaram ao “genocídio”. Esse livro foi publicado em inglês pela revista de Lyndon LaRoucheExecutive Intelligence Review com prefácio de LaRouche. Hoje, a Executive Intelligence Review ecoa a propaganda do Kremlin, disseminando em língua inglesa que os protestantes ucranianos queriam um golpe de estado nazista e que iniciaram uma guerra civil.

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A campanha populista na mídia pela União Eurasiana está agora nas mãos de Dmitry Kiselyov, o anfitrião do mais importante talk show da Rússia e, desde dezembro, também diretor da estatal de mídia russa designada a formar a opinião pública da nação. Mais conhecido por dizer que os gays que morrem em acidentes de carro devem ter seus corações cortados de seus corpos e incinerados, Kiselyov levou a campanha de Putin contra os direitos dos homossexuais e a transformou em uma arma contra a integração européia. Assim, quando o então ministro de relações exteriores alemão, que é gay, visitou Kiev em dezembro e se encontrou com Vitali Klitschko, o político campeão dos pesos-pesados e opositor ucraniano, Kiselyov diminuiu Klitschko como um ícone gay. De acordo com o ministro de relações exteriores russo, a exploração das políticas sexuais deve se tornar agora uma arma na luta contra a “decadência" que representa União Européia. 

Seguindo a mesma estratégia, o governo de Yanukovych alegou, falsamente, que o preço das relações mais próximas com a União Européia era o reconhecimento do casamento gay na Ucrânia. Kiselyov é bem aberto em relação a estratégia da mídia russa sobre a Maidan: “aplicar a tecnologia política correta”, e "levá-la ao ponto de super-aquecimento”, para então trazer para a “lente de aumento da televisão e da internet”.

Por qual motivo pessoas com tais visões pensam que podem chamar aos outros de fascistas? E por qual motivo ninguém na esquerda ocidental os leva a sério? Uma linha de raciocínio parece ser a seguinte: os russos ganharam a Segunda Guerra Mundial e por isso se pode ter certeza que eles reconhecem nazistas. Muita coisa está errada nisso. A Segunda Guerra Mundial, no front oriental, foi travada basicamente no que na época eram chamadas de Ucrânia Soviética e de Bielorrússia Soviética, não na Rússia Soviética. 5% da Rússia estava ocupada pelos alemães; toda a Ucrânia estava ocupada pelos alemães. Exceto pelos judeus, os quais sofreram de longe o pior, as principais vítimas das políticas nazistas não foram os russos, mas os ucranianos e os bielorrussos. Não existia nenhum exército russo lutando na Segunda Guerra Mundial, mas sim o Exército Vermelho Soviético. Os seus soldados eram de maneira desproporcional de origem ucraniana, já que o Exército Vermelho teve muitas perdas na Ucrânia e recrutou soldados entre população local. O grupo do exército que libertou Auschwitz era chamado de Primeira Frente Ucraniana.

A outra fonte da suposta legitimidade moral da Eurásia parece ser a seguinte: uma vez que os representantes do regime de Putin só de maneira seletiva se distanciam do stalinismo, eles são, portanto, herdeiros confiáveis da história soviética, e devem ser vistos como opositores automáticos aos nazistas e, dessa forma, confiáveis a se opor a extrema direita. 

Mais uma vez, muita coisa está errada nisso. A Segunda Guerra Mundial começou com uma aliança entre Hitler e Stalin em 1939. Terminou com a União Soviética expulsando os sobreviventes judeus pela sua fronteira para a Polônia. Após a fundação do Estado de Israel, Stalin começou a associar os judeus soviéticos com uma conspiração do mundo capitalista e iniciou uma campanha de prisões, deportações e assassinatos de líderes escritores judeus. Quando Stalin morreu em 1953, ele estava preparando uma campanha ainda maior contra os judeus. 

Após a morte de Stalin, o comunismo ganhou cada vez mais uma coloração étnica, com pessoas que queriam reviver suas glórias afirmando que o problema do stalinismo fora que esse havia sido estragado por judeus. A purificação étnica do legado comunista é precisamente a lógica do nacional-bolchevismo, que é a fundação ideológica do Eurasianismo hoje. Putin é um admirador do filósofo Ivan Ilin, que queria que a Rússia fosse uma ditadura nacionalista.

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O que quer dizer quando o lobo aponta aos outros e grita: “lobo!”? Obviamente, propagandistas em Moscou e Kiev nos tomam por idiotas - o que, pelos indícios, é um tanto justificável. 

De maneira mais sutil, o que essa campanha faz é tentar reduzir a tensão social em um país complexo a uma batalha de símbolos do passado. A Ucrânia não é o teatro para a propaganda histórica de outros nem um quebra-cabeça no qual peças possam ser removidas. É um grande país europeu no qual os cidadãos possuem importantes laços culturais e econômicos tanto com a União Européia quanto com a Rússia. Para definir seu próprio caminho, a Ucrânia necessita de debate público normal, da restituição da democracia parlamentar e de relações funcionais com todos os seus vizinhos. A Ucrânia está repleta de pessoas sofisticadas e ambiciosas. Caso as pessoas no Ocidente fiquem presas a questão de serem eles predominantemente nazistas ou não, então os ocidentais irão perder de vista as questões centrais da presente crise.

De fato, os ucranianos estão em uma luta tanto contra a concentração de riqueza quanto contra a concentração de poder armado nas mãos de Viktor Yanukovych e seus aliados mais próximos. Os protestos podem ser vistos como um belo exemplo de coragem para americanos tanto na esquerda quanto na direita. Os ucranianos estão fazendo sacrifícios reais na esperança de se juntarem a União Européia. Pode haver algo a ser aprendido nisso tudo entre os eurocéticos em Londres ou em qualquer outro lugar? Esse é um diálogo que não está ocorrendo.

A história do Holocausto é parte do nosso próprio discurso público, do nosso agora, da nossa maidan. A atual tentativa russa de manipular a memória do Holocausto é tão gritante e cínica que aqueles que são idiotas o suficiente para cair nela vão um dia ter de se perguntar como, e a serviço do que, foram coniventes. Se o fascismo se fantasia com o manto do anti-fascismo, a memória do Holocausto em si será alterada. Será mais difícil no futuro se referir ao Holocausto quando em defesa de qualquer causa nobre, seja ela particularmente a história judaica ou a história dos direitos humanos em geral.

Tradução: Fernando de Souza

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