domingo, 16 de fevereiro de 2014

Biografia de Frederick Douglass: o escravo que conquistou a própria liberdade e a de muitos outros sem promover revoltas

Autor Jim Powell*
Frederick Douglass fez de si mesmo a vítima mais persuasiva dos males da escravidão e do preconceito. Ele sofreu quando seu senhor separou sua família e teve de aguentar chicotadas e surras. Embora fosse ilegal ensinar escravos a ler e a escrever, Douglass ainda assim aprendeu, e ensinou secretamente outros escravos. Após fugir, passou a participar incansavelmente de encontros abolicionistas por todo o Norte e pelas Ilhas Britânicas durante mais de duas décadas. Quando ficou claro que a Guerra Civil era apenas um marco sangrento na luta, ele encabeçou os protestos contra o preconceito no Norte e contra estados no Sul que subvertiam as liberdades civis recém conquistadas dos negros.

Douglass abraçou o ideal de liberdades iguais para todos. Apoiou o voto das mulheres, dizendo: “acreditamos ser justo que as mulheres tenham os mesmos direitos que reivindicamos para os homens”, e pediu tolerância para com os imigrantes chineses perseguidos: “eu não conheço nenhum direito de raça que esteja acima dos direitos da humanidade”. No exterior, uniu-se ao grande Daniel O'Connel pedindo a liberdade dos irlandeses, e dividiu palanques com Richard Cobden e John Bright, falando em favor do livre mercado.

Douglass acreditava que a propriedade privada, a competitividade empresarial e a auto-ajuda eram essenciais ao progresso humano. “A propriedade”, escreveu, “produzirá a única condição na qual qualquer pessoa possa viver com dignidade e genuína hombridade. (...) Conhecimento, sabedoria, cultura, refinamento e boas maneiras são todos fundados no trabalho e na riqueza que o trabalho traz. (...) Sem dinheiro não há ócio, sem ócio não há reflexão, sem reflexão não há progresso”.

Seus críticos o consideravam teimoso, arrogante e demasiado sensível ao desdém alheio, mas ele conquistou o respeito dos amigos da liberdade. Por anos esteve em palanques com William Lloyd Garrison e Wendell Phillips, liderando o movimento anti-escravidão. Harriet Beecher Stowe, autora de A cabana do Pai Tomás, elogiou Douglass, e o ensaísta Ralph Waldo Emerson disse: “eis um homem; e se se trata de um homem, negro ou branco é uma insignificância”. Mark Twain tinha orgulho de ter Douglass como um amigo. John Bright contribuiu financeiramente para comprar sua liberdade. “Ele viu de tudo, viveu de tudo e superou tudo”, exultou o pioneiro autodidata negro Booker T. Washington.

Os custos pessoais de sua campanha anti-escravidão foram altos para Douglass. Ele quase não ficava em casa. Não viu seus cinco filhos crescerem, e sua esposa, Anna, ressentia-se por ser deixada em casa sozinha para cuidar dos filhos e ainda ajudar nas despesas da casa.

Ottilia Assing, uma amiga alemã, descreveu Douglass como um “mulato claro de constituição incomumente grande, esbelta e forte. Suas feições eram marcadas por uma testa distintamente saltada e a dentição singularmente profunda na base do nariz. Seu nariz era arqueado, seus lábios pequenos e bem formados, revelando mais influência branca do que suas origens negras. Seu cabelo grosso se mistura aqui e ali com cinza e é ondulado, mas não crespo”. Um observador americano recordava a presença de Douglass como orador: “Ele tinha mais de 1,80m de altura, e sua forma majestosa, quando se levantava para falar, ereto como uma flecha, musculoso, ainda que leve e gracioso, seus olhos faiscantes, e mais do que tudo, sua voz, que rivalizava com a de Daniel Webster em sua riqueza, e na profundidade e na sonoridade de suas cadências, faziam dele o ideal de orador do qual o ouvinte nunca se esquece”.

A feminista individualista Elizabeth Cady Stanton viu como, em um encontro anti-escravidão em Boston, “com sagacidade, sátira e indignação [Douglass] descreveu vividamente a amargura da escravidão e a humilhação da submissão àqueles que, em todas as virtudes e poderes humanos, eram inferiores a ele. (...) Ao seu redor sentavam-se os grandes oradores abolicionistas do dia, sinceramente assistindo aos efeitos de sua eloquência sobre aquela imensa audiência, que ria e chorava alternadamente, completamente levada pelos maravilhosos presentes da sua paixão e do seu humor. (...) Todos os outros palestrantes pareceram monótonos depois de Frederick Douglass. (...) [Ele] se manteve com um príncipe africano, majestoso em sua ira”.

Frederick Douglas nasceu Frederick Augustus Washington Bailey em algum dia de fevereiro de 1818 (datas de nascimento de escravos não eram registradas) em uma fazenda ao longo da margem oriental de Maryland, perto de Easton. Ele não conheceu seu pai. Sua mãe, Harriet Bailey, era escrava, e consequentemente todos os seus filhos foram condenados à escravidão. “Eu não vi minha mãe, a ponto de reconhecê-la como tal, mais de quatro vezes em minha vida”, lembrou ele, “e cada uma destas vezes era apenas por um curto período de tempo, e à noite”. Ela morreu quando ele tinha sete anos.

Bailey foi levado para a mansão de Edward Lloyd, ex-governador de Maryland e senador, além de um dos homens mais ricos do Sul. Lloyd era proprietário de um certo número de fazendas, e Bailey lembrava de como um capataz, Austin Gore, chicoteava um escravo chamado Denby. Quando Denby tentou escapar pelo rio, Gore matou-o com um tiro – e se livrou do crime sem problemas. “Matar um escravo, ou qualquer pessoa de cor, em Talbot County, Maryland”, Bailey explicou, “não é considerado crime”.

Em novembro de 1826, Bailey foi designado a Thomas Auld, que lhe enviou a seu irmão Hugh, em Baltimore. A esposa de Hugh, Sophia, lia a Bíblia para ele, e ele começou a notar a conexão entre os símbolos nas páginas e as palavras que ela falava. Ela começou a ensinar-lhe o alfabeto. Bailey recordou que Hugh Auld reclamara, “se você ensinar-lhe a ler, ele vai querer aprender a escrever; e, se isso ocorrer, ele fugirá daqui”.

Bailey aprendeu mais nas ruas de Baltimore: “Quando eu encontrava qualquer garoto que soubesse escrever eu lhe dizia que eu podia escrever tão bem quanto ele. A respostava era sempre 'Não acredito. Quero ver'. Então eu desenharia as letras que havia tido a sorte de aprender e desafiá-lo-ia a fazer melhor. Desta maneira eu tive boas lições de escrita, que possivelmente não teria de nenhuma outra maneira”.

Quando Bailey tinha doze anos, ouviu seus amigos lerem uma coleção de grandes discursos que lhes havia sido recomendada na escola. Ele pegou cinquenta centavos que havia economizado, foi até a livraria Knight, e comprou sua própria cópia de The Columbian Orator [“O orador colombiano”]. Compilado por Caleb Bingham, apareceu pela primeira vez em 1797, e teve várias edições. “Sozinho, atrás do muro do estaleiro”, relatou o biógrafo William McFeely, “Frederick Bailey lia em voz alta. Com dificuldades e de maneira estudada a princípio, e depois fluente e melodiosamente, ele recitava grandes discursos. Com The Columbian Orator nas mãos, com as palavras dos grandes oradores vindo da sua boca, ele ensaiava. Ele lia os sons – e os significados – das palavras que ele mesmo um dia iria escrever. Ele tinha o mundo inteiro à sua frente. Ele era Catão diante do Senado Romano, [William] Pitt [o Velho] diante do Parlamento, defendendo a liberdade americana, [Richard Brinsley] Sheridan defendendo a emancipação dos Católicos, Washington desejando sucesso a seus oficiais”. O livro incluía A Dialogue between Master and Slave [“Diálogo entre senhor e escravo”], no qual o escravo diz ao senhor que ele não deseja gentileza, mas sim liberdade. Havia também uma peça curta, Slave in Barbary [“Escravo na barbárie”], em que o governante Hamet declara: “Lembremo-nos de que não há nenhum luxo tão belo quanto o exercício da humanidade e nenhuma posição tão honrosa quanto a daquele que defende OS DIREITOS DO HOMEM”.

Bailey lembrou: “o trunfo de prata da liberdade havia inflamado minha alma para o eterno despertar. A liberdade havia aparecido, para nunca mais desaparecer. (...) Foi escutada em todos os sons e vista em tudo. Esteve sempre presente para me atormentar com a noção da minha infeliz condição. Ela estava em tudo o que eu via, ouvia e sentia. Olhava-me de cada estrela, sorria em cada calmaria, respirava em cada brisa e movia-se em cada tempestade”.

Em março de 1832, Thomas Auld decidiu que precisava de Bailey, e ele voltou à propriedade de Auld em St. Michaels, Maryland. Auld percebeu que o gosto pela liberdade havia tido um efeito pernicioso sobre Bailey e que uma dura disciplina se fazia necessária. Assim, em janeiro de 1833 ele foi enviado a Edward Covey, um pequeno fazendeiro conhecido como “quebrador de negros”. Bailey foi brutalmente chicoteado uma vez; quando Covey tentou fazê-lo novamente, Bailey defendeu-se com sucesso usando seus braços fortes e seu espírito indomável. “Eu não era nada antes”, escreveria Bailey depois; “AGORA EU ERA UM HOMEM”.

Ele resolveu ser livre e fez o que pôde para alimentar o espírito da liberdade em outros. Na casa de um negro liberto, ele educou cerca de quarenta escravos com The Columbian Orator e uma cópia do livro de alfabetização de Webster, que ele aparentemente havia adquirido através de um amigo. “Estas boas almas não vinham à escola de sábado porque era popular fazê-lo, nem eu ensinava-os por isso me trazer a reputação de uma pessoa engajada”, escreveu. “A cada momento que eles passavam na escola, poderiam ser levados e sofrerem trinta e nove chicotadas. Eles vinham porque desejavam aprender. Suas mentes haviam passado fome pelas mãos de seus cruéis senhores. (...) O trabalho de instruir meus companheiros escravos foi o mais gratificante com que já fui abençoado”.

Em abril de 1836, Bailey e outros quatro escravos armaram um plano de fuga, mas foram traídos. Eles foram arrastados por cavalos por quinze milhas até a cadeia de Easton. Bailey foi considerado uma perigosa influência na fazenda, e Thomas Auld decidiu que ele deveria ser devolvido a seu irmão Hugh, em Baltimore. Bailey conseguiu um emprego no estaleiro de Gardiner como aprendiz de calafetador. Na primavera de 1838, ele propôs um negócio a Hugh Auld: deixá-lo livre para que terceirizasse seu trabalho. Ele compraria suas próprias ferramentas, pagaria por sua moradia e alimentação, e enviaria três dólares por semana. Auld sabia que, se dissesse não, Bailey provavelmente fugiria, e então concordou. Bailey juntou-se à East Baltimore Mental Improvement Society, uma associação de calafetadores negros libertos que se reuniam para debater idéias e aprender mais sobre viver por seus próprios meios.

Nesta época, ele conheceu Anna Murray, uma negra liberta cujos pais supostamente haviam sido libertados antes do seu nascimento. Ela era cerca de cinco anos mais velha que ele e trabalhava como doméstica em Baltimore. Embora fosse analfabeta, foi provavelmente ela quem o incentivou a tocar violino. Este tornou-se um passatempo predileto, e ele amava especialmente Händel, Haydn e Mozart.

Anna supostamente teria arrecadado dinheiro para que Bailey fugisse vendendo seu colchão de penas. Como ele havia trabalhado nas docas de Baltimore, sabia falar como um marinheiro, e decidiu escapar vestido assim, trajando uma camisa vermelha, um chapéu de marinheiro e um lenço no pescoço. Em 3 de setembro de 1838, embarcou em um trem lotado em direção ao norte e, quando o condutor pediu por seus “papéis de alforria”, certificando que ele não era escravo, ele apresentou documentação de marinheiro (usada por marinheiros americanos quando em viagens ao exterior), que havia pegado emprestado com um marinheiro negro liberto aposentado. O condutor não notou que os papéis descreviam outra pessoa. Ele escapou de várias pessoas que suspeitaram e conseguiu chegar a Nova York, onde encontrou Anna, e se casou com ela. Então eles se mudaram para New Bedford, Massachussets, uma cidade próspera baseada na construção naval, onde ele estaria a salvo de caçadores de escravos e provavelmente encontraria um emprego como calafetador. New Bedford contava com cerca de vinte mil habitantes, uma comunidade negra, e um contingente significante de Quakers abolicionistas.

Bailey ficou maravilhado com a prosperidade em New Bedford: “Eu havia estranhamente suposto, enquanto escravo, que os poucos confortos, e quiçá alguns dos luxos, desfrutados no Norte, se comparavam aos desfrutados pelos senhores de escravos do Sul. Eu provavelmente cheguei a essa conclusão partindo da premissa de que as pessoas no Norte não tinham escravos. Eu supunha que eles estivessem no mesmo patamar dos não-proprietários de escravos do Sul. Eu sabia que eles eram extremamente pobres, e eu havia me acostumado a ver a pobreza deles como uma consequência necessária do fato de não possuírem escravos. Eu tinha assimilado de alguma maneira a idéia de que, na ausência de escravos, não poderia haver riqueza, e muito pouco refinamento...”

“Aqui eu me vi cercado pelas maiores provas de riqueza. Deitado no cais, ou mesmo navegando, vi muitos navios dos melhores modelos, da melhor qualidade, e do maior tamanho. À minha direita e à minha esquerda havia armazéns de granito das maiores dimensões, abarrotados até o limite com as necessidades e confortos da vida. Além disso, quase todos pareciam trabalhar, mas, em comparação com aquilo a que eu me acostumara em Baltimore, quase silenciosamente... Eu não ouvia terríveis xingamentos dirigidos ao trabalhador. Não vi homens chicoteados; mas tudo parecia funcionar perfeitamente. Todos os homens pareciam entender seu trabalho, e o realizavam com uma aplicação sóbria e ao mesmo tempo alegre, que denunciava o profundo interesse que ele sentia por aquilo que fazia, além de uma percepção de sua própria dignidade enquanto homem. Para mim, isso parecia incrivelmente estranho. Eu saía do cais para passear pela cidade, observando com espanto e admiração as igrejas esplêndidas, as casas belas e os jardins delicadamente cultivados, revelando uma riqueza, um conforto e um bom gosto como eu jamais vira em qualquer parte da Maryland escravagista.”

Até que o casal encontrasse um lugar para si, hospedou-se com Mary e Nathan Johnson, cozinheiros negros. Bailey contou que Nathan lia “mais jornais, entendia melhor o caráter moral, religioso e político da nação do que nove décimos dos donos de escravos em Talbot County, Maryland. No entanto, Mr. Johnson era um trabalhador. Suas mãos tinham sido enrijecidas pelo trabalho duro, e não só as suas, mas suponho que também as de Mrs. Johson. Achei as pessoas de cor muito mais animadas do que esperava. Entre elas, encontrei a determinação de proteger uma a outra do sequestrador sanguinário a qualquer custo”. Nathan sugeriu que Bailey adotasse um nome livre distintivo, como Douglas, o nome do lorde escocês no poema “The Lady of the Lake” [“A dama do lago”], de Walter Scott. Ele aceitou a sugestão, acrescentando um “s” para dar individualidade.

Ele conseguiu um emprego numa refinaria de óleo de baleia de propriedade de quakers, e ele e Anna frequentavam Igreja Sião Episcopal Metodista Africana. O pastor, Thomas James, trabalhava no movimento abolicionista e editava uma publicação quinzenal chamada The Rights of Man [“Os direitos do homem”]. Em 12 de março de 1839, Douglass levantou-se na igreja e denunciou as propostas de que os negros fossem enviados de volta à África. Ele queria ficar na América. Suas palavras foram comoventes o bastante para ser mencionadas no Liberator, jornal abolicionista radical que William Lloyd Garrison publicava semanalmente desde janeiro de 1831. Ele foi convidado a falar em 10 de agosto numa reunião da Sociedade Abolicionista de Massachusetts em Nantucket. Garrison e Wendell Phillips, seu compatriota, estariam lá.

Em Nantucket, de acordo com as recordações de Garrison, Douglass “veio até o palanque com hesitação e constrangimento. Depois de se desculpar por sua ignorância, e de lembrar à audiência que a escravidão era uma escola ruim para o intelecto e o coração humano, começou a narrar alguns fatos da sua própria história de escravo, e em seu discurso proferiu pensamentos nobres e reflexões comoventes. Tão logo voltou a se sentar, cheio de esperança e admiração, me levantei e declarei que Patrick Henry, de fama revolucionária, jamais fizera um discurso tão eloquente na causa da liberdade”.

Pediram a Douglass que se tornasse palestrante pago para a Massachusetts Anti-Slavery Society [Sociedade Anti-Escravagista de Massachusetts]. Ele se uniu a Garrison, Phillips, Stephen S. Foster e Charles Lenox Remond, falando em qualquer lugar onde conseguissem reunir uma dúzia de pessoas. Douglass deu mais de 100 palestras por ano em Massachusetts, New Hampshire e Rhode Island, e se tornou um valioso articulista do Liberator, apesar de ter sido importunado e agredido diversas vezes.

Sua primeira autobiografia, Narrative of the Life of Frederick Douglass (junho de 1845), o ajudou a garantir a fama. Foi escrita como um tratado anti-escravidão, com os detalhes de sua fuga omitidos para a proteção de outros. Publicado pelo Anti-Slavery Office, em Boston, o livro incluía uma carta de Phillips e um prefácio por Garrison. Houve três edições européias, e o total de vendas chegou a trinta mil em apenas cinco anos.

Parecia natural que Douglass ajudasse os europeus contra o Sul e o isolasse da comunidade internacional. No outono de 1845, Garrison e ele falaram para plateias na Escócia, Inglaterra e País de Gales. Dramatizavam os males da escravidão americana, atacavam os clérigos que apoiavam a escravidão, pediam às pessoas que cortassem relações com o Sul escravocrata, e solicitavam contribuições. Na Irlanda, Douglass se horrorizou ao ver uma pobreza pior do que ele jamais havia conhecido. Numa reunião com cerca de vinte mil pessoas, ele dividiu o palanque com Daniel O’Connel, um ruivo de mais de 1,80m . Douglass se comoveu quando o irlandês o intitulou o “O’Donell negro dos Estados Unidos”. Depois da crise na colheita de batatas e da resultante fome irlandesa, Douglass se uniu a Richard Cobden, o ativista magro, moreno e tranquilo, e a seu parceiro John Bright, orador apaixonado. Os três viajavam de cidade em cidade exigindo a abolição imediata das Corn Laws (tarifas sobre os grãos), para que a população faminta pudesse comprar comida mais barata. Douglass foi recebido no London’s Free-Trade Club, e celebrou o tempo que passou ali como “um hóspede bem-vindo na casa do Sr. Bright em Rochdale... Tratado como amigo e irmão em meio a seus irmãos e irmãs”.

Enquanto isso, Douglass descobriu que Hugh Auld estava determinado a capturá-lo quando retornasse aos Estados Unidos. Como ele havia se tornado uma figura importante no movimento abolicionista, os amigos de Douglass acharam melhor comprar sua liberdade. Douglass se tornou legalmente livre em 12 de dezembro de 1845, e partiu para os Estados Unidos em 4 de abril de 1847.

Douglass teve seu papel na Ferrovia Subterrânea. Aparentemente, era possível a um escravo viajar de um estado na fronteira até o Canadá em 48 horas. Muitos escravos fugitivos apareciam na casa de três andares de Douglass em Rochester, Nova York, e sua família cuidava deles até que pudessem percorrer as sete milhas até Charlotte e de lá pegar um barco a vapor até o Canadá. A maior parte das fugas acontecia durante o inverno, quando havia menos supervisão nas plantações, e Douglass incansavelmente levantava dinheiro para oferecer aos pobres escravos fugitivos roupas quentes e comida.

Douglass apreciava sua independência. Ele acreditava em usar todos os métodos pacíficos contra a escravidão, incluindo a ação política, mas Garrison se opunha a ela. Douglass criou seu próprio jornal abolicionista, idéia contrária aos defensores de Garrison, que observavam que o Liberator estava perdendo dinheiro. Em 3 de dezembro de 1847, com US$4000 obtidos numa turnê de palestras, Douglass publicou a primeira edição de North Star, que manteve por 17 anos.

Nos dias 19 e 20 de julho de 1848, ele falou na Convenção de Seneca Falls, organizada pela dona de casa Elizabeth Cady Stanton para promover os direitos das mulheres. Douglass era o único homem a defender a proposta de Stanton em favor do sufrágio feminino. Ele concordava que as donas de casa pudessem ganhar seu próprio dinheiro; que as viúvas, assim como os viúvos, pudessem ser responsáveis legais por seus filhos; e que as mulheres, assim como os homens, tivessem direito a possuir propriedades, herdar propriedades, e administrar patrimônios.

Em 6 de março de 1857, o juiz Roger B. Taney, da Suprema Corte, sentenciou, no notório caso Dred Scott, que nem um escravo, nem um ex-escravo, nem um descendente de escravos poderia se tornar cidadão americano. Revoltado, Douglass queria ouvir qualquer idéia que pudesse ajudar na luta contra a escravidão. Em 1858, John Brown, abolicionista, estava na casa de Douglass em Rochester, trabalhando em sua idéia de fomentar uma insurreição negra e criar um estado negro nos Apalaches. A polícia ficou no encalço de Douglass depois de Brown ter roubado o arsenal federal de Harpers Ferry, Virgínia, em 16 de outubro de 1859. Douglass fugiu para a Inglaterra, e ficou lá por vários meses.

Depois do tiroteio de abril de 1861 em Fort Sumter, que marcou o início da guerra civil, Lincoln deixou claro que a luta era para preservar a União, não para abolir a escravidão. A política de Lincoln era que os escravos fugitivos fossem devolvidos a seus senhores. Douglass, mesmo assim, exigia “a emancipação total e irrestrita de todo escravo nos Estados Unidos, seja sua posse reclamada por um senhor leal ou desleal”. Em 1 de janeiro de 1863, Lincoln promulgou a Proclamação de Emancipação, dizendo que os escravos estavam libertados nos estados rebeldes, os quais ele obviamente não controlava. A proclamação não libertava os escravos do Norte, mas fazia da abolição um objetivo da guerra. Ainda que Douglass admirasse Lincoln, ele percebia o quanto Lincoln estava disposto a ceder à escravidão.

Quando a escravidão foi abolida, Douglass decidiu concentrar-se em obter para os negros o direito de votar, para que pudessem estabelecer uma presença política (os negros não podiam votar em Connecticut, Nova Jersey, Pensilvânia e diversos estados do oeste), mas era politicamente impossível obter o direito de voto para as mulheres e os negros ao mesmo tempo. Logo depois de 30 de março de 1870, data da adoção da décima-quinta emenda, que dava aos negros o direito de voto, Douglass apoiou a campanha pelo voto feminino.

Douglass entrou para o Partido Republicano durante o longo ocaso de sua carreira, mas suas conexões políticas de pouco adiantaram. Grupos terroristas como os Caras Pálidas, Cavaleiros da Camélia Branca e a Ku Klux Klan assassinavam negros e queimavam casas, escolas e igrejas de negros, e nem o governo federal nem o estadual faziam alguma coisa.

Douglass incentivava a auto-ajuda. Incentivava os pais negros: “Eduquem seus filhos, mandem-nos para a escola. (...) Onde quer que um homem seja jogado pela má fortuna, se ele conhecer uma profissão útil, será útil aos demais homens, e assim será considerado”.

Em 1881, publicou The Life and Times of Frederick Douglass [“A vida e a época de Frederick Douglass”], que dava maiores detalhes de sua vida de escravo, revelando (pela primeira vez) como fugira, e discutindo as dificuldades subsequentes. Uma edição ampliada apareceu onze anos depois.

Anna, esposa de Douglass, faleceu em 4 de agosto de 1882. Quando ele se casou com Helen Pitts, uma abolicionista branca, tanto negros quanto brancos ficaram horrorizados. Incendiários queimaram sua amada casa de Rochester, e o casal se mudou para uma casa branca de 20 cômodos num terreno de 23 acres próximo ao rio Anacostia em Washington, DC. O terreno já tinha sido propriedade de Robert E. Lee. Com o nome de Cedar Hill, tinha uma biblioteca e um salão de música, onde Douglass podia tocar seu violino.

Em 20 de fevereiro de 1895, ele participou de uma manifestação em Washington, DC, pelos direitos das mulheres. Quando terminou de jantar, naquela noite, levantou-se da cadeira, caiu e morreu. Houve um funeral privado em sua casa, e o caixão foi levado para a Igreja Epsiscopal Metodista Africana Metropolitana, onde imensas multidões foram vê-lo. Após outro culto na Igreja Central de Rochester, ele foi enterrado no Cemitério Mount Home, ao lado de sua esposa e filha.

Mais do que qualquer pessoa, Douglass deu um rosto humano aos horrores da escravidão americana. Ele ajudou a convencer milhões de pessoas de que ela deveria ser abolida, falou bravamente contra a subversão dos direitos civis, e expressou grande simpatia por todos os oprimidos. Instou as pessoas a ajudar a si mesmas e a cumprir seu destino, sonhando com o dia em que homens e mulheres, negros e brancos, e todos pudessem viver em paz.

*Jim Powell, senior fellow do Cato Institute, é especialista na história da liberdade. Seu livro mais recente é "Greatest Emancipations: How the West Abolished Slavery".

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