sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

A Ucrânia acorda para o seu ódio - Será que houve acordo na Ucrânia? Governo ucraniano anuncia coalizão e eleições antecipadas

Uma crise com a violência que se vê na Ucrânia não explode da noite para o dia. Há por lá menos desejo de se integrar à Europa do que rancor da Rússia, que foi, afinal de contas, o centro do império soviético. Mesmo depois da desintegração desse império, o país nunca deixou de ser uma espécie de satélite russo. E velhos ódios ficaram guardados, para explodir agora.

Poucos países pagaram um preço tão alto para construir a antiga União Soviética. Entre 1930 e 1933, calcula-se que pelo menos 3,5 milhões de ucranianos morreram de fome em razão da política de coletivização da agricultura empreendida por Stálin. A Ucrânia era considerada uma espécie de celeiro dos soviéticos. Os relatos da fome nesse período são aterradores.

Há até uma palavra para designar o que se chama de “holocausto ucraniano”: holodomor, que significa “extermínio pela fome”. No livro “A Corte do Czar Vermelho”, Simon Sebag Montefiore transcreve telegramas de agentes de Stálin enviados ao país que, entre relatos burocráticos, afirmam chegar a aldeias em que toda a comunidade estava morta. Estima-se que o ditador mandou nada menos de 350 mil ucranianos para campos de trabalho forçados. Uma lei para punir camponeses que roubassem alimentos foi criada pensando na Ucrânia: atendia pelo simpático nome de “Apropriação Indevida de Propriedade Socialista”.

Stálin estava convencido de que os ucranianos buscavam sabotar o seu esforço e deslocou para o país um enorme contingente de agentes da polícia política. O resultado foi trágico. O tirano determinou um bloqueio à Ucrânia, e a região estava proibida de receber qualquer alimento de outras regiões. Aos mesmo tempo, os camponeses não podiam cruzar a fronteira do país em busca de comida.

“A Rússia atual não é a União Soviética”, dirá alguém. Mas é evidente que é a sua herdeira. Se o estopim das manifestações foi a recusa do presidente do país, Viktor Yanukovytch, de levar adiante o seu plano de integração à Europa, o que há, de verdade, é uma reação à condição de eterna submissa da Rússia.

Um país não sai de uma relativa paz para uma situação de guerra civil se ódios antigos não restam ainda vivos nas consciências. É o que se viu, por exemplo, no desmantelamento da Iugoslávia. Repúblicas que até então pareciam viver em paz resolveram reciclar dissensões seculares.

Noto — e isto precisa ser dito — que também os protestos fugiram do controle, e há táticas de luta que podem, sem favor, ser chamadas de terroristas. Não parece que os líderes de oposição estejam se comportando também da forma mais responsável. De todo modo, não se vislumbra uma saída civilizada para o governo — este ou outra que venha a assumir — que não passe por uma maior independência em relação à Rússia.

Por Reinaldo Azevedo no Blog do Reinaldo na Veja:
Na VEJA.com:
O governo da Ucrânia e os principais líderes da oposição assinaram nesta sexta-feira o acordo que prevê a antecipação de eleições e a formação de um governo de coalizão e unidade nacional, com o objetivo de conter a crise que sacode o país desde o fim do ano passado. As propostas do acordo foram anunciadas nesta manhã pelo presidente Viktor Yanukovich.

De acordo com a rede BBC, o anúncio da assinatura foi feito por representantes da Alemanha, França e Polônia, que participaram das discussões e também assinaram o acordo. Eles saudaram as duas partes pela “coragem e compromisso”. O embaixador americano no país, Geoffrey Pyatt, apontou um “avanço”. Os três líderes opositores que assinaram o documento foram o ex-boxeador Vitali Klitschko, líder do partido Udar; Arseniy Yatsenyuk, do segundo maior partido ucraniano, o Pátria; e Oleh Tyahnybok, do partido nacionalista Svoboda. O representante russo que participou das discussões não assinou nada.

Apesar do otimismo, não está claro se os manifestantes que ocupam praças em várias cidades do país e têm pedido a renúncia do presidente Yanukovich vão aceitar o compromisso – e permanecem dúvidas sobre o poder de influência dos líderes oposicionistas sobre eles. De acordo com a BBC, diversas pessoas entrevistadas que permanecem na Praça da Independência, em Kiev, manifestaram que só aceitam a saída imediata de Yanukovich. Um dos movimentos organizados, o radical Setor de Direita, divulgou em sua conta no Twitter que não está alinhando com os líderes opositores.

Além das eleições antecipadas, que devem acontecer até no máximo dezembro, o acordo prevê a restauração da antiga Constituição de 2004 – que limitava o poder do presidente –; uma reforma constitucional, que deve ser completada até setembro; a abertura de investigações para apurar os recentes atos de violência cometidos pelas autoridades e pelos manifestantes. Também está previsto que o governo da Ucrânia não vai impor mecanismos que declarem estado de emergência e que os manifestantes e as autoridades vão frear qualquer escalada de violência. Já a coalizão deve ser formada nos próximos dez dias. O acordo também prevê que os manifestantes devem entregar armas ilegais a partir do momento em que for aprovada a lei que restaura a antiga Constituição. De acordo com Arseniy Yatsenyuk, o acampamento da Praça da Independência, em Kiev, que tem sido o epicentro dos protestos, vai permanecer até que todas os itens do acordo sejam cumpridos.

Minutos depois da divulgação da assinatura do acordo, o Parlamento ucraniano começou a votar algumas das medidas. A volta da antiga Constituição de 2004 foi aprovada com 386 votos — eram necessários 300. Além disso, os deputados aprovaram uma anistia geral para todos os manifestantes que foram presos nas últimas semanas ou para aqueles que foram processados ou poderiam ser indiciados. O Parlamento também aprovou a destituição do ministro do Interior do país, Vitali Zakharchenk, que comandou a repressão aos protestos nos últimos dias.

O acordo anunciado pelo governo ucraniano ocorre depois de a capital Kiev presenciar, nesta quinta, um banho de sangue no pior dia desde o início dos protestos contra o governo de Yanukovich – o momento mais dramático desde a separação da União Soviética. Os confrontos entre a polícia e manifestantes deixaram cerca de 100 mortos e 500 feridos – o governo admitiu 77 mortes e 577 pessoas feridas, mas a oposição conta mais óbitos. O clima se aproximou de uma guerra civil, com franco-atiradores disparando contra ativistas, que também usaram armas letais contra a polícia.

Corpos de manifestantes foram levados para a recepção do hotel Ukrania, na Praça da Independência, cobertos com lençóis e guardados por profissionais de saúde que atendiam os feridos. Vídeos postados na internet mostram o ponto dramático a que chegou a crise. Em um deles, homens armados efetuam disparos. Em outro, um grupo tenta avançar usando escudos como proteção quando tiros são disparados e algumas pessoas caem feridas no chão. Em seguida, feridos e mortos são carregados em macas improvisadas.

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