sábado, 18 de janeiro de 2014

6-Como é o apoio exterior à guerra revolucionária

Escrito por Carlos Azambuja* e publicado no site Mídia Sem Máscara
O apoio exterior a uma Guerra Revolucionária pode tomar as seguintes formas:

- Apoio Moral - desse apoio o rebelde se beneficiará sem qualquer esforço, desde que sua causa se coadune com “os ventos da História”. Por exemplo: na luta pela libertação de Angola e pelo fim do apartheid na África do Sul, os rebeldes se beneficiaram de um considerável apoio moral, que se expressou, fundamentalmente, pelo peso da opinião pública internacional e dos meios de comunicação. A propaganda é o principal instrumento de apoio moral. É usada para fermentar a opinião pública quando esta se mostra adversa, ou para reforçar a simpatia do povo, se existente;

- Apoio Político - representa uma aplicação direta de pressão sobre as forças legais, ou indireta, mediante ações diplomáticas nos fóruns internacionais. Nesse sentido, recorde-se que no caso de Angola muitos países romperam relações diplomáticas com Portugal que, também, foi excluído de várias organizações internacionais, como a Organização Internacional do Trabalho, por exemplo;

- Apoio Técnico - pode consumar-se na forma de assessoria ao rebelde para a organização do movimento e para a condução de suas operações políticas e militares, ou pode ser simples treinamento militar, como ocorreu com o núcleo que a partir de 1966 se instalou no Araguaia, que recebeu treinamento militar em Pequim;

- Apoio Financeiro - pode ser aberto ou encoberto. A Intentona Comunista, por exemplo, recebeu decisivo apoio financeiro do Komintern, sendo que até Luiz Carlos Prestes era um assalariado da 3ª Internacional, conforme está documentado no livro “Camaradas”, escrito por William Waack.

- Apoio Militar - seja através de uma intervenção direta, ao lado dos rebeldes, seja pelo fornecimento de equipamento e meios de treinamento. Um número considerável de terroristas urbanos brasileiros, por exemplo - cerca de 250 -, nas décadas de 60 e 70, recebeu treinamento militar e apoio financeiro do Estado cubano.

Todavia, nenhum apoio exterior é de absoluta necessidade no início de uma rebelião, embora sua utilidade seja inegável, pois a fase militar inicial de uma rebelião, seja ela terrorismo urbano ou rural, pouco exige em matéria de equipamentos, armas, munições e explosivos, já que esses produtos são encontrados localmente, podem ser expropriados ou contrabandeados.

Entretanto, quando o rebelde vislumbra o momento de passar para uma forma mais complexa de operações, a necessidade de suprimentos maiores e mais variados torna-se aguda. Ou ele os captura das forças legais ou esses suprimentos terão que ser obtidos no exterior. Sem eles, o desenvolvimento do poderio militar rebelde torna-se impossível. Todavia, por outro lado, se o auxílio exterior puder ser obtido com excessiva facilidade, isso poderá introduzir um excesso de confiança nas fileiras rebeldes, o que se tornaria um fator de debilidade tão logo esse auxílio, por qualquer motivo, fosse interrompido.

Concluindo, a SITUAÇÃO IDEAL PARA O REBELDE será: uma causa; uma fraqueza política ou administrativa do governo; um ambiente geográfico não muito hostil; apoio externo nos estágios médio e final da rebelião. As duas primeiras situações são indispensáveis, e a última poderá tornar-se uma necessidade. 

Essas características gerais da Guerra Revolucionária constituem um produto inelutável desse tipo de guerra. Um rebelde ou um governo (força legal) que conduza a guerra de forma oposta a quaisquer das características acima enunciadas, certamente será derrotado ou, pelo menos, diminuirá em muito suas possibilidades de êxito.

Num Estado Democrático de Direito, a teoria prevalecente é a de que os atos terroristas de uma guerra irregular sejam qualitativamente idênticos às violações diárias “normais” das leis. Esse é o principal problema que o Estado de Direito enfrenta ao combater o inimigo na guerra irregular. No Estado de Direito existem dois tipos de pessoas: o cidadão correto e o criminoso. O terceiro tipo de pessoa, aquele que conduz uma guerra irregular, para o Estado de Direito, não existe.

Aqueles que promovem uma guerra irregular não conhecem quaisquer obrigações, pois nada os submete à obediência da lei civil e nada há que os submeta às leis da guerra. Em contraposição, o Estado de Direito é submetido a todos esses aspectos. E mais: aqueles que promovem a guerra irregular podem explorar totalmente as possibilidades jurídicas que lhes são proporcionadas pelo Estado Democrático de Direito.

Em suma, a Guerra Revolucionária é uma guerra suja e nela são empregados todos os meios. Até mesmo os legais.

*Carlos Ilich Santos Azambuja é historiador.

Veja os outros itens do artigo "Como é a guerra revolucionária" de Carlos Azambuja

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