domingo, 3 de novembro de 2013

Elogio da ira, ou: De como o Brasil pode amadurecer com Olavo de Carvalho

Escrito por Fábio Lins Leite* e publicado no site Mídia Sem Máscara
Imitam-lhe os sonoros palavrões e agressões, mas não os quarenta anos de silenciosa luta interna.
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Não há dúvidas que Olavo é o primeiro brasileiro de influência pública e cultural que tem a coragem e a maturidade de caráter para canalizar uma ira justa contra coisas erradas, ainda que sejam mesquinharias, sem se esquivar da luta com desculpas de bom-mocismo.
Uma civilização é uma rede de instituições sociais e culturais criada por pessoas de caráter maduro e com capacidade de educar novas pessoas para este mesmo nível de maturidade ou até mais alto. Esta maturidade consiste no pleno desenvolvimento das virtudes mais altas, o que é o mesmo que dizer as mais humanas e divinas. Este desenvolvimento, entretanto, é dependente de forças que o façam acontecer, não bastando a consciência de sua possibilidade. Tanto os helênicos clássicos, como vemos em Platão, quanto os helênicos cristãos, como veremos em referência à Filokalia, reconhecem três forças que energizam este processo, e que precisam ser curadas de seu mal uso e estado para tornarem-se efetivas: 1) a apetitiva (epithymikon), responsável pelo desejo, pelo querer; 2) a intelectiva (logistikon), responsável pela apreensão da verdade; 3) e a incensiva (thymikon), responsável pelas emoções intensas, e mais comumente a ira.

A força incensiva destaca-se das outras duas, entre demais atributos, por ser a única destrutiva, de caráter negativo. Tanto o querer, quanto a intelecção possuem um caráter construtivo, organizador, positivo enfim. A ira, como qualquer emoção intensa, possui um caráter fundamentalmente destrutivo. A disciplina ascética que está descrita na Filokalia recomenda precisamente a cura da ira no seu uso contra os nossos pecados. Temos que literalmente ter raiva, um ódio destrutivo, de nossos pecados, seja a covardia, a gula, a falta de castidade, a preguiça, para que possamos acabar com eles. Mas ódio desses pecados, não de nós mesmos. Não somos juízes, nem de nós mesmos, esse papel cabendo ao Cristo, quando Ele retornar. Em suma, não basta conhecer e amar a verdade, é necessário odiar e destruir tudo que se lhe opõe. Antes mesmo de assentarmos a rocha, é necessário limpar e aplainar os terrenos, "endireitar as veredas". 

É evidente que a força incensiva, a ira e outras emoções intensas, existem em estado degenerado. Guerras, paixões loucas, destrutivas e auto-destrutivas, existem em miríades de formas para provar isso. Por isso sempre reforça-se a recomendação de que o primeiro alvo são nossos próprios pecados, o arrependimento sempre conjugado com a luta cheia de ira contra os nossos pecados. A obsessão e pecado desta ira acontece quando cremos, e agimos de acordo com esta crença, que iremos aniquilar todos os nossos pecados. Nós cristãos, cremos e confessamos que apenas Jesus Cristo é sem pecados, mesmo em potência, e, como ortodoxo, creio que apenas Sua mãe, apesar de tê-los em potência, nunca os realizou em atos. Esta fé serve, não para condescendência na luta espiritual, mas para a humildade para com o próximo: "quem estiver sem pecados que atire a primeira pedra". Está máxima nos acompanhará inclusive na vida no mundo que há de vir, embora ali será recitada no tempo passado. Sem esta ressalva, a força incensiva nos transforma em celerados, moralistas, deprimidos, suicidas, assassinos, controladores, viciados e um sem número de perversões. 

Ocorre que a perda da vida de ascese e luta espiritual que são o fundamento da ortodoxia cristã, levou também a perder de vista o bom uso da ira, tanto pessoalmente na formação do caráter cristão maduro, quanto civilizacionalmente, a expressão social deste caráter. Por isso temos o culto o bom-mocismo, do politicamente correto, da personalidade histericamente e maliciosamente tolerante, do temor do mundo, que tudo concede e nada mais é que sombra negativa do temor de Deus. Por um lado aponta-se os muitos e verdadeiros perigos da ira descontrolada, e por outro lado, cala-se ou ignora-se, o seu possível bom uso no contexto de uma vida cristã séria. Assim esmagada entre a meia-verdade e o silêncio, a ira cristã fica isolada de suas forças companheiras, o querer e a intelecção. E temos a situação bem diagnosticada por Yeats no poema The Second Coming:
The best lack all conviction, while the worst
Are full of passionate intensity.
Esta intensidade passional é precisamente a força incensiva, ou pervertidamente apontada para alvos bons, ou sem alvo algum, satisfeita consigo mesmo, atirando para todos os lados.

No Brasil a força incensiva sempre faltou. Sempre fomos apáticos no que é importante, dourando este vício com o discurso da superioridade intelectual ou moral. O brasileiro sempre assistiu "bestializado" e passivamente a história acontecer. Não fazemos história, a história é um evento que acontece sobre nós, como a chuva ou a seca. O imperador aceitou um golpe passivamente em nome de escrúpulos moralistas, quando o moralmente correto seria resistir. Foi bom-moço e aplaudimos até hoje. Diversas pessoas de excelência em suas áreas profissionais quiseram impactar o Brasil, mas ou exilaram-se, ou foram sufocadas pelo enxame de medíocres, com protestos, mas dignos e sofisticados demais para reagir com ira e violência, mesmo que mera violência verbal como reação à violência social ou mesmo física. O regime autoritário militar combateu apenas as expressões para-militares do comunismo e foi derrotado porque foi bom-moço na área cultural. É verdade que faltou além da força incensiva, a própria intelecção da conjuntura e dos meios de ação. Alguns conservadores de internet falam na falta de ação das Forças Armadas, em vista de um governo que comete crimes constitucionais e de lesa-pátria contra o povo e o estado. Mas que são estas conclamações senão o grito de almas que desejam que outros assumam a irascibilidade e não eles mesmos? Essa platitude suicida do Brasil é fruto de um dos pilares do nosso pensamento conservador, o positivismo. Não que todo brasileiro seja positivista, mas a estrutura geral determina as potencialidades reais de posicionamento diante do mundo. No caso, que existiria uma evolução do estúpido passional ao sábio isento e que não se envolve em picuinha. Existe aí algo de um estoicismo pagão, no qual a apatia é uma virtude e todas as paixões necessariamente ruins. Como vimos, porém, num contexto cristão, as paixões são curadas e não destruídas, inclusive o próprio ser passional. 

Olavo de Carvalho mencionou em algum lugar que sua contribuição para a cultura brasileira seria, entre outras, servir de ponte entre uma geração de alta cultura que o antecedeu e as novas gerações, dada que a sua própria fez uma escolha pela ignorância e pela mais abjeta submissão aos piores ideais. Creio que existe outra mais importante, que é a introdução da boa ira na personalidade brasileira. Olavo é a primeira figura de relevo nacional e de importância cultural que, diante do enxame de mediocridade, ao invés de afirmar sua própria superioridade dá-lhe combate e vence. Em Olavo de Carvalho a identidade nacional amadureceu a expressão da boa ira, reconhecendo-a como necessária e aplicando-a socialmente estabelece as condições para que se limpe o terreno para um renascimento civilizacional. Como ele mesmo diz, preparou-se no silêncio por anos, aplicando a si mesmo esta mesma ira, destruindo em si suas próprias mediocridades e mesquinharias, para só então dar expressão pública a elas. O que alguns de seus imitadores não entendem é precisamente que ambas as fases do processo necessitam serem imitadas para que se obtenha resultado análogo em suas próprias personalidades do que ocorreu no Olavo. Imitam-lhe os sonoros palavrões e agressões, mas não os quarenta anos de silenciosa luta interna.

Não há dúvidas que Olavo é o primeiro brasileiro de influência pública e cultural que tem a coragem e a maturidade de caráter para canalizar uma ira justa contra coisas erradas, ainda que sejam mesquinharias, sem se esquivar da luta com desculpas de bom-mocismo.

É evidente que no futuro se poderá fazer o que ele faz com ainda mais virtuosismo. Mas estes futuros brasileiros serão melhores não por o negarem ou criticarem, mas por o incluírem em sua formação, e fazer melhor o que ele já faz agora. O mal é a pequenez de espírito e tem que ser combatido no Brasil, não pode ser respeitado, não pode ser deixado de lado para não nos rebaixarmos. Quando um animal vem nos matar, ou entramos na lógica baixa da mera sobrevivência, ou, morremos. É claro que o fazemos de modo humano. O urso vem nos combater com garras, dentes e força bruta, e podemos perfeitamente responder-lhe com um tiro que exigiu a inteligência de muitos homens para ser possível. Muitos dos debates do Olavo tem precisamente esta característica, onde os anos e toneladas de papéis de estudo permitem que ele dê o tiro certeiro e fatal, inviabilizando para o outro lado até mesmo continuar falando, dado que o próprio fundamento de todo o seu edifício já foi destruído. Neste sentido, e apenas neste, é que não podemos nos igualar aos nossos inimigos. Porém, mesmo o tiro terá a sujeira da pólvora, do sangue do urso, e de tudo relacionado a um combate. Se os demais brasileiros tivessem em sua respectivas áreas, como capitalistas, empresários, políticos ou militares a ira e disposição para o combate, sem frescura de não descer ao nível dos mesquinhos, conjugadas à intelecção da realidade e desejo do bem que Olavo tem na área cultural, Brasil não seria simplesmente uma "nação do primeiro mundo", mas uma resposta civilizacional do Ocidente à mentalidade revolucionária que o corrói. 

A mesquinharia é exatamente o que tem que ser combatido no Brasil e a ferida por onde o vírus revolucionário nos contamina. Os maus, os mesquinhos, devem ser desrespeitados, deslegitimados, publicamente humilhados até que seja culturalmente vergonhoso ser o que eles são, agir como eles agem. O empresário que prefere parasitar o governo ou se servir de leis protecionistas ao invés de criar riqueza oferecendo melhores serviços é um pulha e um incompetente que ocupa o lugar dos verdadeiros empreendedores, o militar que se submete às humilhações do seu inimigo é covarde e se não o identifica direito também um incompetente. O artista que vive de verba pública é um vendido e um marqueteiro, um poser, sua "arte" tão autêntica e desprezível quanto o salamaleque de um puxa-saco perante um déspota, o religioso que busca a aprovação dos aplausos do mundo em conferências, diálogos e conselhos ao invés de ter seu nome lembrado no Livro da Vida é o homem rico que deseja seguir o Senhor, mas não ao custo de perder o que tem, de ser excluído socialmente ou de perder a admiração e respeito das pessoas, suas igrejas sendo não locais de culto ao Senhor, mas de admiração ao quanto eles são compreensivos. A maioria dos diplomados no Brasil poderia perfeitamente ter feito um mero politécnico ou profissionalizante, não precisando do título de ensino superior para sua ambição ordinária de simplesmente exercer uma profissão ao invés de uma carreira de estudo e pesquisa.

É necessária a ira para limpar o terreno, para que as reais vocações em todas as áreas inclusive no serviço público burocrático, sejam resgatadas. E se o Brasil quer ter alguma esperança, é reconhecendo em Olavo a referência não somente de ação, mas de condição existencial que dá substância à ação. Mais do que cultura ou informação sobre novas fontes e ideias, Olavo é uma referência de uma nova direção para o ser brasileiro, incluindo a ira justa contra o que é errado, mesmo ao custo da vaidade de nossa superioridade moral e intelectual.

*Fabio Lins Leite é analista de negócios e professor de inglês.

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