quinta-feira, 21 de novembro de 2013

A mentalidade anticapitalista ou: A ciência econômica e o submundo

Escrito por Jeffrey Nyquist* e publicado no site Mídia Sem Máscara

A destruição da economia global que está em andamento não é acidental. A irracionalidade contida na raiz dessa destruição foi compreendida bem antes do início do século XX.

Enquanto a economia depende do lado racional do homem, a humanidade, não obstante, busca o irracional. Nós queremos nossa fatia do bolo. Queremos almoço grátis, convênio de saúde grátis e aposentadoria sem custos. Mas nada é de graça. Alguém tem de pagar. Assim diz a ciência econômica.

Quando dizemos que a economia é uma ciência, o homem comum logo faz a associação à física e à biologia. Entretanto, a economia é um tipo diferente de ciência. De acordo com a Escola Austríaca, a economia é uma ciência a priori que “pressupõe um comportamento propositado (que) tenha o poder de afastar ou pelo menos aliviar o seu desconforto”. O processo pelo qual esse grande alívio se torna possível chama-se capitalismo ou livre mercado. O que quer que alguém tenha a dizer contra o livre mercado, não há alternativa viável.

De acordo com Mises, em seu livro A Mentalidade Anticapitalista

“O surgimento da economia como nova forma de conhecimento foi um dos eventos mais significativos da história da humanidade. Ao preparar o caminho para a empresa capitalista privada, ela transformou, em poucas gerações, todos os acontecimentos humanos de forma mais radical do que milhares de anos anteriores haviam conseguido”. 

Ainda mais surpreendente é que a ciência econômica e a transformação capitalista da vida humana foi obra de um pequeno número de autores cujos livros influenciaram uma igualmente diminuta parcela de homens de estado. Como explicou Mises,

“Não apenas as massas indolentes, mas também a maioria dos homens de negócios que, por meio do seu comércio, tornaram eficientes os princípios do laissez-faire não conseguiram compreender as formas essenciais como agem esses princípios. Mesmo no apogeu do liberalismo, somente alguns tiveram conhecimento integral do funcionamento da economia de mercado”.

Foi uma louca história como um punhado de pensadores começou a entender a ciência econômica. Mais raro ainda, em termos de política, que um punhado de homens de estado tenha conseguido colocar em prática os apontamentos ali descobertos. Como explicou Mises, “a civilização ocidental adotou o capitalismo por recomendação de uma pequena elite”. Por sua essência, o capitalismo sempre esteve pendurado por um fio; porquanto, com qual frequência podemos encontrar inteligência suficiente nas classes dominantes? Quão frequentemente um gênio passa despercebido? Afinal, todo homem é um gênio em sua própria mente. Pense como os vários gênios que produzem tão poucas coisas de valor a partir dos seus egos inflados hoje naturalmente amaldiçoam qualquer um cujo pensamento esteja em um patamar mais alto. Com efeito, a cruel história humana sugere que uma verdadeira e digna ciência social (ou econômica) é tão improvável quanto um rato correndo atrás do gato, pois tudo aquilo que toca nas estruturas sociais e institucionais deve necessariamente acabar como vítima de poderosos interesses e paixões políticas.

Ainda assim a ciência econômica conseguiu operar seu milagre. Maravilhas tecnológicas e riquezas agora abundam. Nossos ancestrais dificilmente poderiam imaginar o mundo moderno. Ao mesmo tempo, uma nuvem sombria se aproxima. Os poucos inteligentes foram sobrepujados pela esmagadora maioria. Ninguém pode ser tão ingênuo a ponto de imaginar que a história é apenas a história do progresso. Se estivermos prestando atenção, lembraremos do ditado, “tudo aquilo que sobe, desce.”

Se a praxeologia é o estudo dedutivo da ação humana, então devemos considerar a existência de dois tipos de ação: (1) ações racionais; (2) ações irracionais. Encontra-se na humanidade um lado obscuro – muitas vezes autodestrutivo e paranoico, agressivo e homicida. Ao observar isso, Freud descreveu aquilo que ele veio a chamar de pulsão de morte (todestrieb em alemão). Sua hipótese era que o instinto mortal poderia efetivamente se opor à racionalidade e à civilização. Um dos grandes pensadores da psicologia moderna, Carl Jung, propôs a existência das “sombras”, que faz referência aos elementos instintivos e irracionais da psique que estão propensos à projeção psicológica. Como descrito primeiramente por Freud, a projeção psicológica é um mecanismo de defesa em que nossas próprias deficiências morais são percebidas como pertencentes a outras pessoas. É uma espécie de paranoia encontrada no ladrão que acredita que os outros estão planejando dar um fim nele. Pode também ser visto como um aspecto da mentalidade anticapitalista. Nesse caso, o mercado se torna um quadro ao qual todos os males da sociedade humana são projetados. O mercado é, portanto, retratado negativamente, enquanto às personalidades malignas que se opõem ao mercado lhe são atribuídos motivos totalmente cândidos.

Jung alertou que um ser humano que entra no estado de projeção psicológica pode se tornar “possesso” por sua sombra. Jung escreveu: “um ser humano possuído por sua sombra está postado em sua própria luz, caindo em suas próprias armadilhas...”. Durante as primeiras décadas do século XX, Jung temeu que a possessão pela sombra estivesse crescendo. Com o advento do totalitarismo e o declínio do laissez-faire, Jung observou que a religião estava sendo substituída pela ideologia política a tal ponto, que um crescente número de pessoas estavam sujeitas à possessão sombria. Pior ainda, Jung disse que uma pessoa pode estar possuída pelo lado sexual oposto da sua personalidade, pois cada homem tem uma pequena parte de mulher em si e cada mulher tem uma pequena parte de homem. Se um homem se torna possesso pelo seu lado feminino, essa possessão chama-se anima. Se uma mulher se tornar possessa pelo seu lado masculino, então a possessão é animus.

Acerca desse assunto, Jung observou que “nesse estado de possessão” por anima/animus “ambas as figuras perdem seu encanto e seus valores”. Nesse caso, constata-se um mundo em que homens viraram mulheres e mulheres viraram homens. Os homens assim não são mulheres de charme e graça, são apenas fracos e mornos. Ao mesmo tempo, mulheres que tentam fazer o papel da força e dos princípios acabam por ser dominadoras e errôneas. Tudo é então colocado na cabeça: desordem substituindo ordem, escuridão substituindo luz, o desejo de morte inconscientemente ganhando vantagem sobre a vida... Um dos primeiros sintomas, como observado por Jung, é a perda da grande arte. Quando o manancial da criatividade, o inconsciente, toma o lugar do consciente, então ele não pode mais exercer sua função criativa. Em vez disso, a arte passa a apresentar algo parecido com a pulsão de morte freudiana. Como escreveu Jung em sua obra ‘Presente e Futuro’, 

“o desenvolvimento da arte moderna com sua tendência aparentemente niilista de dissolução deve ser entendido como sintoma e símbolo de um espírito universal de decadência e de renovação do nosso tempo. Esse espírito se manifesta em todos os campos, tanto político como social e filosófico”.

Podemos acrescentar também que essa disposição tem ultimamente se manifestado na economia.

A destruição da economia global que está em andamento não é acidental. A irracionalidade contida na raiz dessa destruição foi compreendida bem antes do início do século XX. A destruição da economia global e da civilização foi aludida nos escritos de visionários do século XIX como Dostoievski, Kierkegaard e Nietzsche. Foi Dostoievski quem previu que o socialismo viria a matar 100 milhões de pessoas na Rússia durante o século XX. Décadas antes do século XX, Kierkegaard alertou contra a vã arrogância da opinião pública, a democracia hedonista e a tóxica cultura do autoengano. Mais famoso ainda, mas ainda menos compreendido, Friedrich Nietzsche alertou que o cristianismo estava morrendo por dentro, que Deus havia sido sepultado nas igrejas. Nietzsche previu um período de dissolução e destruição gradual que duraria 200 anos, indo de 1888 até 2088, onde o “advento do niilismo europeu” levaria ao cesarismo (i. e., totalitarismo) e à guerras cujo escopo destrutivo não teria precedentes. Nietzsche não podia suportar o que ele chamou de "otimismo econômico". Em seu pensamento, o igualitarismo levou embora a autoridade e a inteligência que uma vez reinou sobre os altos postos da civilização. Sem uma ordem de autoridade e inteligência no comando, tudo estava destinado ao colapso.

Ao tentar entender a situação econômica não devemos apenas enfocar na economia. Devemos observar a história, a psicologia, a ciência política e a religião. Jung disse que estamos vivendo uma era de metamorfose dos “princípios e símbolos”. A transição pela qual estamos passando está cheia de perigos por causa da nossa própria tecnologia, que por sua vez pode nos destruir. Não apenas a ciência econômica é desdenhada por aqueles que estão no poder, como lamentou Mises, mas há também o problema daquilo que Jung chamou de “atraso moral da humanidade em geral que se mostra hoje inadequada diante do desenvolvimento científico, técnico e social”. Assim como Mises adotou o individualismo metódico, Jung também disse que tudo dependia de valorizar o indivíduo singular como “unidade infinitesimal de quem depende um mundo, a essência individual, na qual – se percebermos corretamente o sentido da mensagem cristã – o próprio Deus busca a sua finalidade”.

A massa de homens nos dias de hoje, possuída por suas sombras e precipitada ao submundo, opõe-se ao livre mercado por inveja ou ignorância. Contudo, o indivíduo necessita de liberdade e livre mercado, pois a alternativa socialista ameaça riscá-lo dos planos. Isso é algo que não podemos permitir – e mesmo assim está acontecendo diante dos nossos olhos. De alguma forma, em algum lugar, devemos reverter a atual tendência que ruma à morte universal e à destruição. Homens devem ser homens e mulheres devem ser mulheres. A ignorância deve ser dissipada e a inveja suprimida. Devemos, se quisermos sobreviver.

*Publicado no Financial Sense.

Tradução: Leonildo Trombela Junior

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