quinta-feira, 24 de outubro de 2013

O QUINTO DOS INFERNOS

Escrito por Gustavo Nogy* e publicado no site Ad hominem
LEONARDO SAKAMOTO não gosta de assaltos a mão armada e não gosta de pessoas baleadas. Folgo em saber. O insigne colunista, doutor em Ciência Política (e, no Brasil, quem não é doutor em ciências sociais?), reconheceu que “o policial cumpriu o seu dever”. Eu sei que vocês sabem do que se trata: “São Paulo – Um vigilante de 35 anos com uma câmera acoplada no capacete filmou um assaltante roubando sua moto e logo em seguida um policial militar atirando no criminoso. O caso aconteceu na tarde deste sábado, 12, em São Miguel Paulista, zona leste de São Paulo. A vítima pilotava uma Honda Hornet branca”.

Dizem que o assaltante passa bem, obrigado, e pretende voltar aos trabalhos assim que se recuperar dos ferimentos. A cirurgia foi um sucesso. Não obstante, o caso gerou a costumeira celeuma, e dividiu as opiniões mais ou menos na seguinte proporção: 75% das pessoas normais entenderam (e aprovaram) a ação policial; 20% das pessoas anormais, i.e., dos cientistas sociais, líderes de ongs, colunistas e estudantes ‘de humanas’ repudiaram a ação policial e ofereceram casa, comida, roupa lavada e uma Hornet branca para o pobrezinho baleado; e os 5% restantes, concorrentes na dura lida da vida criminosa, comemoraram: “Menos um!”. 

Mas é evidente que Leonardo não poderia deixar de ser Sakamoto por muito tempo. Se nos primeiros parágrafos nosso herói reconhece, quase com desdém, que o policial não fez nada mais do que lhe caberia fazer naquele momento e naquela situação, prontamente ele nos lembra da verdade tão evidente quanto inexpugnável: “Boa parte da população, apavorada pelo discurso do medo, mais do que pela violência em si, tem adotado a triste opção de ver o Estado de direito com nojo”.

Então acabamos de descobrir que não tememos assaltos ou assaltantes, nem tememos seqüestros ou seqüestradores, menos ainda homicídios ou homicidas, e tampouco nos afetam os estupros ou estupradores. Isso tudo são detalhes. Não temos medo “da violência em si”, segundo nosso malfadado Kant d’olhos rasgados e inteligência apoucada. Temos medo do discurso. Temos medo do medo que tais incidentes nos provocam. Nossos inimigos não são os bandidos armados que nos roubam a Hornet branca. Nossos inimigos são “os políticos imbecis, apresentadores de TV safados e estruturas conservadoras, como a família, a igreja e a escola”, que têm “desconstruído do dia para a noite” o tal Estado de Direito. Baixa o pano.

Diogo Quinteiro é um Sakamoto sem grife. Tão logo a notícia do assalto frustrado tocou suas cordas morais, houve por bem escrever certo conto, João e Paulo, devidamente parodiado nesta gazeta pelo cúmplice Joel Pinheiro. A historinha é a seguinte: João e Paulo, “em uma dessas coincidências que só Deus explica”, nasceram no mesmo dia. Que dois seres humanos nasçam no mesmíssimo dia é mesmo fato inexplicável. Sabemos todos que os bebês nascem um após o outro, numa cronológica fila indiana, desde que o mundo é mundo. E que esses dois peraltas tenham vindo a se encontrar anos depois, em circunstâncias desafortunadas, é tão impressionante quanto. Pessoas civilizadas costumam marcar dia e hora para as desavenças, com razoável antecedência. O japonês supracitado talvez não me deixasse mentir, se ele mentisse menos. Adiante.

João é pobre e Paulo é rico. As circunstâncias fizeram de João um anti-herói e de Paulo um playboy. Numa outra “dessas coincidências que só Deus explica”, ambos se encontram num cruzamento. João tenta assaltar Paulo e é baleado por um policial que também numa “dessas coincidências que só Deus explica” passava por ali e resolveu cumprir o seu dever. Os populares comemoravam o destino de João enquanto João morria, vítima das circunstâncias de que foi feita sua vida. Fim.

A presepada é sempre a mesma: João teria sido bom, se a sociedade lhe tivesse oferecido oportunidades de ser como Paulo. O interessante é que Paulo não é retratado como um sujeito bom. Ricos nunca são retratados como especialmente bons, e isso, se se prestasse a devida atenção à tese do nobre selvagem rousseauniano, deveria intrigar. Se o criminoso é invariavelmente tido como epifenômeno de seu meio, se a pobreza circundante o convida à criminalidade, e se a falta de melhores opções e condições materiais o incita à violência, a conclusão inescapável seria a seguinte: sob ótimas condições, o indivíduo há de ser bom. Mas os mais ricos não são quase sempre maus? Não são eles – os políticos, os banqueiros, os burgueses, os playboys – responsáveis por ‘tudo isso que está aí’?

O discurso que pretende humanizar criminosos, desconsiderando as escolhas que fizeram e fazem, na prática os desumaniza, tomando-os como títeres, meros representantes ou símbolos de um ecossistema. Pobres tendem a ser criminosos porque são pobres. Não porque escolheram, num certo momento, as piores alternativas morais. Eles foram escolhidos pelas piores alternativas morais porque a ‘sociedade’ e o ‘sistema’ são assim.

Há injustiça, há desigualdade, há joões e paulos e a responsabilidade é de todos. Os marginais são apenas isso: seres à margem das benesses do falido Estado de Direito e do livre mercado, vítimas dos “políticos imbecis, apresentadores de TV safados e estruturas conservadoras, como a família, a igreja e a escola”; e aqui, Leonardo Sakamoto volta à cena e cumprimenta seu mais dileto aluno, vindo dos quintos de não sei onde.

O inusitado é que, por esse mesmo raciocínio, se os pobres são propensos ao crime porque vivem em condições desfavoráveis, os ricos, precisamente porque vivem nas mais agradáveis das condições, deveriam ser tidos como probos e boníssimos, mas não o são. Ricos são corruptos, estelionatários e aproveitadores, a despeito das ótimas oportunidades que têm na vida. E se os outros – os marginais, os joões-assaltantes, os desafortunados que “não tiveram a vida que mereciam” são o que são – a culpa é dos primeiros.

Melhor: a culpa é da ‘sociedade’, ente remoto e intangível o suficiente para pulverizar qualquer vestígio de responsabilidade concreta de agentes morais concretos numa dada concreta circunstância de vida, e para nos fazer esquecer dos motivos pelos quais não deveríamos dar mais do que cinco minutos de atenção a cavalgaduras como Leonardo Sakamoto e Diogo Quinteiro. Mea culpa. Mea maxima culpa.

*Gustavo Nogy edita o site Ad Hominem

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