sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Lançamento de filme sobre Guimarães Rosa na mostra de cinema de São Paulo foi proibido pelas herdeiras

Chamem o Chico Buarque, o Caetano Veloso e o Djavan. Se der, chamem também a Luísa Mell e Bruno Gagliasso. O que os dois últimos têm a ver com a questão? Ora, vamos reunir todos os iluministas do Brasil!

As cineastas Adriana Jacobsen e Soraia Vilela fizeram um documentário sobre aquele que é considerado o maior prosador do Modernismo brasileiro: Guimarães Rosa (o meu é Graciliano Ramos, mas isso não importa agora). Chama-se “Outro Sertão”. Rosa é um mito da literatura. Os professores de nossas escolas só fazem mal quando pedem que os alunos digam que diabos quer dizer “a terceira margem do rio”… Cai até em prova. Quase todo mundo que me lê, se puxar um pouco pela memória, passou por isso. E quase ninguém entendeu a explicação. Não se aflijam. Não havia nada de errado com vocês. Sigamos. Adriana e Soraia fizeram o documentário, venceram um festival, mas o filme não pode ser lançado comercialmente. Será exibido hoje na Mostra de Cinema de São Paulo.

E por que o lançamento está proibido? Porque as herdeiras não querem e pronto! Há algo de estranho no filme? Entra-se na fofoca da vida privada? Algum amor secreto do Rosa? Descobriram que aquele negócio de Diadorim e Riobaldo era mais complicado? Nada! O filme mostra, acreditem!, que Rosa, como diplomata, salvou judeus do nazismo. Além de ser verdade, é um filme a favor.

Mesmo assim não pode. Leiam trecho da reportagem de Raquel Cozer, na Folha:
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Um João Guimarães Rosa (1908-1967) que ajudou a salvar judeus na Alemanha e foi investigado pelos nazistas na Segunda Guerra, antes de se firmar como escritor, é o centro de “Outro Sertão”, longa exibido hoje na Mostra de Cinema de São Paulo. A faceta menos conhecida do autor de “Grande Sertão: Veredas” (1956) vem à tona com o documentário de estreia de Adriana Jacobsen e Soraia Vilela. O filme, premiado no Festival de Cinema de Brasília, ilustra um viés menos lembrado no debate sobre a autorização para biografias: o de casos envolvendo obras cinematográficas.

A pesquisa para o filme começou em 2003, com o aval das filhas de Rosa. Em 2011, esse braço da família pediu, dizem as diretoras, R$ 60 mil para autorizar a veiculação. “Fizemos contraproposta de R$ 30 mil ou R$ 40 mil. Fomos então informadas de que queriam R$ 300 mil e, depois, que não queriam mais a veiculação”, diz Jacobsen.

Antes da exibição em Brasília, a dupla pediu às herdeiras uma reavaliação da decisão. Receberam um telegrama do advogado informando que as filhas não autorizavam a veiculação por questões de “foro íntimo”. As herdeiras negam ter sido contatadas nessa ocasião.
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A base do documentário são duas cadernetas com anotações de Guimarães Rosa no período em que foi cônsul-adjunto em Hamburgo, na Alemanha, de 1938 a 1942. Uma cópia delas está na Universidade Federal de Minas Gerais. Foi com a autorização das filhas do autor, dez anos atrás, que as diretoras tiveram acesso ao texto.

Inéditas em livro, as cadernetas estão no centro de uma disputa familiar. Em Hamburgo, o autor se apaixonou por Aracy Moebius de Carvalho (1908-2011), que trabalhava com ele no consulado e se tornaria sua segunda mulher. Segundo o neto Eduardo Tess Filho, as referências a Aracy nas cadernetas incomodam as filhas do primeiro casamento do escritor.

“Ele ficou menos de dez anos com Lygia e quase 30 com Aracy, mas elas querem apagar isso da história”, diz.
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