sábado, 29 de junho de 2013

Eis a grande virtude e beleza do capitalismo: a ganância dos empreendedores precisa estar voltada para o objetivo de satisfazer seu semelhante, sem o qual ele não enriquece

A ilusão dos agregados macroeconômicos
Por JOÃO LUIZ MAUAD** no site www.ordemlivre.org

Tornou-se um padrão mundial medir prosperidade de acordo com os níveis agregados de produção e emprego. Muito por conta disso, a matriz teórica – e retórica – das políticas intervencionistas passou a sustentar que as ações governamentais devem objetivar, prioritariamente, o incremento do PIB e dos empregos, como se isso fosse sinônimo de aumento do bem-estar da população, o que é um rematado absurdo.

Bens e serviços, como os próprios nomes dão a entender, são, por definição, produtos que devem ter utilidade. Produzir riqueza não é apenas fabricar alguma coisa. É preciso produzir algo que tenha valor de troca para que as pessoas – de preferência muitas pessoas – estejam dispostas a adquirir por necessidade ou prazer. Em resumo, é necessário que exista demanda por aquele bem e, consequentemente, potencial lucrativo. Por outro lado, a lucratividade depende da utilização eficiente dos recursos disponíveis, de forma que os consumidores os valorizem mais do que seus usos alternativos.

A produção de bens e serviços que não gera lucro, ou melhor, que não remunera o investimento realizado, é destruidora de riqueza, pois desperdiça fatores de produção (trabalho, matéria-prima, equipamentos) sempre escassos, que poderiam estar sendo utilizados em outras atividades mais úteis. Com efeito, quanto mais lucrativa é uma economia, maiores são a prosperidade e o bem-estar da sociedade. Não fosse assim, bastaria que todos ocupassem o tempo, por exemplo, a cavar grandes buracos e prosperaríamos sem parar.

No sistema capitalista, nenhuma empresa, pequena ou grande, permanecerá no mercado se não for lucrativa. Infelizmente, o mesmo não pode ser dito dos governos. Não raro, eles consomem maciças quantidades de recursos – principalmente trabalho e capital – sem criar qualquer valor. O ex-prefeito do Rio de Janeiro, por exemplo, construiu, num dos lugares mais valorizados da cidade, um grande mausoléu ao qual deu o pomposo nome de “Cidade da Música”. Gastou na empreitada a bagatela de 500 milhões e, até hoje, a obra faraônica não é mais que uma “Cidade Fantasma”.

Ainda que nem todos os exemplos sejam tão claros como o que vai acima, os governos, por não visarem o lucro (e não estarem sujeitos à concorrência), são normalmente muito menos eficientes e tendem mais à destruição de riquezas do que a iniciativa privada. Além disso, os investimentos do estado são determinados pelo seu viés político, não pelos sinais de preço enviados pelo mercado. Daí a grande vocação governamental para investimentos de pouca utilidade.

Nos países da antiga Cortina de Ferro, a sociedade, gerenciada exclusivamente pelos governos, produzia até bastante. O problema é que eles empregavam recursos humanos e materiais para produzir coisas, em geral, sem muita utilidade para a população e, portanto, não criavam riqueza. O cerne do problema comunista, onde quer que seja, está justamente na ausência do lucro como mola propulsora da atividade produtiva, e da concorrência como incentivo institucional à eficiência.

Nas economias planificadas, produz-se aquilo que a cabeça dos burocratas determina, de acordo com os gostos subjetivos desta mesma burocracia ou, o que é ainda pior, simplesmente com o objetivo de manter o poder pela força. Geralmente, atividades intensivas de mão de obra são preferíveis às intensivas de capital. Não surpreende, portanto, que a produção de armas fosse a atividade principal do Império Soviético, ao mesmo tempo em que faltava pão, leite e muitos outros gêneros de primeira necessidade.

Na antiga URSS, havia pleno emprego – ou quase isso – e produção em massa de inúmeros produtos, mas não havia bem-estar, pois de nada adianta produzir coisas que não têm como fim a satisfação dos consumidores. Eis aqui a grande virtude e beleza do capitalismo: a ganância dos empreendedores precisa estar voltada para o objetivo de satisfazer seu semelhante, sem o qual ele não enriquece.

Durante a Segunda Guerra Mundial, o PIB dos EUA experimentou um crescimento extraordinário. Produziu-se bastante naquele período, mas, tal qual na URSS, produziram-se majoritariamente bens que não visavam à satisfação do cidadão americano, mas ao consumo do governo e, principalmente, ao consumo da guerra. Então, mesmo com aquele incremento fantástico do PIB no período, os níveis de bem-estar da sociedade permaneceram baixos – na verdade, foi um dos períodos de maior penúria, em que faltavam até mesmo itens de primeira necessidade.

Alguns economistas e historiadores mais apressados costumam cometer os mais absurdos equívocos ao tratarem da Segunda Guerra. De modo geral, esses “especialistas” defendem que ela, graças aos “investimentos maciços do governo americano na economia”, encerrou a fase de depressão econômica dos anos 30 e recolocou a nação no caminho da prosperidade.

De fato, o desemprego oficial quase desapareceu, tendo caído de 14.6% em 1940 para apenas 1,2% em 1944. O que essas estatísticas escondem, porém, segundo o economista Robert Higgs, é que praticamente 11 milhões de americanos encontravam-se prestando serviço militar naquele período, dos quais 8 milhões eram desempregados em 1940. Ora, prestar serviço militar, notadamente em tempos de guerra, não é uma atividade criadora de riqueza e, muito menos geradora de bem-estar. Pelo contrário, a guerra destrói muito mais do que cria, machuca muito mais do que conforta.

Por outro lado, o Produto Interno Bruto também experimentou um sensível aumento naquele mesmo período. Pelos dados oficiais, o PIB norte-americano aumentou 84% entre 1940 e 1944. O problema é que todo esse incremento foi resultado de gastos governamentais, na sua quase totalidade voltados à produção de armas e equipamentos militares e pagamento de pessoal conscrito.

Já o componente privado do PIB (consumo e investimento), aquele que, como vimos acima, está ligado aos bens que geram bem-estar, na verdade caiu depois de 1941, e era 13% menor em 1943. Somente depois do término da guerra é que a economia privada – direta ou indiretamente voltada para a produção de bens de consumo – voltou aos índices anteriores à grande depressão e o nível de bem-estar começou a recuperar-se. Relembrando o grande Bastiat, é incrível que alguém possa ver algum efeito econômico positivo em uma guerra.

Se procurarmos, encontraremos certamente inúmeros exemplos de sociedades, ao longo da história, em que havia trabalho para todos – às vezes muito trabalho, como na China Maoísta -, havia produção (de coisas que não eram necessariamente riquezas), mas não havia satisfação, conforto, enfim, prosperidade, cuja única medida é a abundância de bens e serviços úteis à disposição dos indivíduos.

* Publicado originalmente em 10/03/2011.
**João Luiz Mauad é administrador de empresas formado pela FGV-RJ e profissional liberal (consultor de empresas).

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