quinta-feira, 25 de abril de 2013

A SOCIEDADE E SUAS CONTINGÊNCIAS

A sociedade e suas contingências
Escrito por Bruno Salama* e Lucas Mendes* e postado por ORDEMLIVRE (site www.ordemlivre.org) em 18/04/2013.

A liberdade individual é o valor supremo no pensamento hayekiano, e o estado de liberdade é aquele em que cada um pode usar seu conhecimento com vistas a atingir seus propósitos; o grande algoz da liberdade é o oportunismo.

A vida social é marcada pelas contingências humanas, que se podem chamar de contingências internas ou externas. As internas se dividem em duas: em primeiro lugar, há contingências de ordem física, que surgem porque não possuímos força e capacidade de executarmos tudo aquilo que desejamos com nosso corpo. Em segundo lugar, há contingências de ordem intelectual ou mental, que surgem porque nossa mente é limitada tanto em sua capacidade de reter conhecimento quanto na maneira como a mente de cada indivíduo age e reage diante dos fatos que se apresentam ao longo da vida.

Além dessa, o homem encontra uma contingência externa, referente aos limites de recursos fornecidos pela natureza. Há lugares, por exemplo, onde a água potável é abundante; há outros em que não. Há regiões em que o clima é favorável ao cultivo de determinados cereais, enquanto em outras o clima é adverso. Além disso, o homem não possui em abundância tudo aquilo de que gostaria. As contingências externas determinam uma situação de desconforto que impele o homem à ação e à cooperação com seu semelhante. O leitor talvez já tenha se dado conta de que em economia tal contingência se chama “escassez”, o que impõe aos homens a necessidade de utilizarem com eficiência os recursos econômicos disponíveis.

O problema, sugere Hayek, é que o cientificismo e o pragmatismo parecem ignorar essas contingências inerentes à condição humana. A eventual frustração de determinados planos dos homens e a impossibilidade prática do equilíbrio econômico, conforme pressupõem certos modelos teóricos, acabam servindo de justificativa para políticos e burocratas experimentarem seus planos a fim de atingirem resultados aparentemente desejáveis ou mesmo admiráveis. Esses homens e seus apoiadores acreditam que manipulando as peças do “jogo econômico e social” poderão obter, matematicamente, os resultados que almejam. Assim procedendo, tratam a grande ordem espontânea da sociedade como um laboratório de ciências exatas.

Mas a ordem complexa da sociedade e seus mutantes elementos — que nada mais são que os seres humanos — não apresentam regularidades entre suas partes. Por isso, a manipulação da sociedade através de medidas governamentais, especialmente através do grande instrumento de manobra política — a saber, a legislação — jamais reverte numa ordem conforme pretendida. O uso do método científico das ciências exatas e naturais seria por isso um dos sérios equívocos do pensamento social moderno.

Hayek foi um dos autores mais notáveis na luta contra o cientificismo no século XX. Argumentou ser irracional extrapolar o método das ciências naturais e exatas -—que lidam com variáveis constantes — para as ciências sociais, que genuinamente lidam com variáveis mutáveis. Numa das passagens, assim nosso autor observou esse exagero:

“A visão míope da ciência que se concentra no estudo de fatos particulares porque só estes podem ser empiricamente observados, e cujos defensores até se vangloriam de não ser guiados por aquela concepção de ordem global só alcançável pelo que denominam ‘especulação abstrata’, de modo algum nos torna mais capazes em moldar uma ordem desejável; ao contrário, ela nos priva na realidade de toda orientação eficaz para a ação bem sucedida.”

A ordem global a que Hayek se refere é a própria ordem espontânea de uma sociedade livre. Essa ordem é considerada uma utopia porque ela jamais é uma ordem concreta, observável empírica e racionalmente, como queria Descartes. Todavia, essa ordem, por ser puramente abstrata, deve servir de modelo ao cientista social, como um guia que aponte a ordem ideal a ser alcançada. Segundo Hayek, tal ordem constitui o verdadeiro alvo para ordenar políticas racionais e apontar soluções para problemas da política prática.


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* Bruno Salama é mestre e doutor em Direito pela UC Berkeley e professor da Fundação Getúlio Vargas – SP. Lucas Mendes é economista e mestre em Filosofia pela Universidade de Santa Maria.

** Publicado originalmente no OrdemLivre.org em 07/12/2009.

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