sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

UM BOM GOVERNO ISLÂMICO SÓ SERÁ BOM SE DEIXAR DE SER ISLÂMICO

Um bom governo islâmico só será bom se deixar de ser islâmico
Por Reinaldo Azevedo no blog www.veja.abril.com.br/blog/reinaldo/

É uma pena. Como poderia dizer Ronaldinho Gorducho, aquele que perdeu o pênalti nesta quarta, “quem não faz toma”. Comecei a escrever um texto ontem afirmando que o anúncio feito pelo primeiro-ministro da Tunísia, Hamdi Jebali — um gabinete de tecnocratas e dissolução do governo, com novas eleições — não valia 10 centavos de um dinar tunisiano. E por suas razões: a) um governo não político, formado de tecnocratas, é coisa de ditaduras laicas. Como a Tunísia caminha para ser uma ditadura (branda, moderada…) islâmica, isso seria logicamente impossível; b) seria a primeira vez que um primeiro-ministro dissolve o governo tendo maioria no Parlamento (e ele tem; os islâmicos venceram a eleição), com o mimo adicional de que ele não estava renunciando; c) sem a concordância do Ennahda (que é a Irmandade Muçulmana na Tunísia, composta de um monte de “Eugênios Bucci do Islã” — hehe…), ele não conseguiria realizar o seu intento; d) uma nova eleição levaria, de novo, a Irmandade ao poder; e) como a população mais pobre, principal clientela dos radicais, está decepcionada com o governo, haveria a possibilidade evidente de os extremistas religiosos ganharem ainda mais espaço.

Isso tudo já estava elencado num texto iniciado e que acabei deixando no arquivo. Aí alguém me telefonou, eu mesmo tive de fazer algumas ligações, me deu vontade de tomar café, perdi-me aqui numa leitura lateral, e acabei deixando a coisa pra lá. Bem feito! Os fatos acabaram vindo antes do meu texto. Na mosca! O tal Ennahda não topou a dissolução do governo. Simples assim. “O primeiro-ministro não perguntou a opinião de seu partido. Nós, do Ennahda, acreditamos que a Tunísia precisa de um governo político agora. Vamos continuar as discussões com outros partidos sobre a formação de um governo de coalizão.” A afirmação é de Abdelhamid Jelassi, vice-presidente da agremiação.

A imprensa ocidental, árabe-primavarista de um jeito que deve fazer os próceres da Irmandade rolar de rir, parece ter achado a solução realmente do balacobaco. Nem se deu conta de que, embora ela parecesse encantadora, era autoritária até para os padrões tunisianos de democracia, né? Um primeiro-ministro não decide sozinho dissolver um governo. Ainda que venha a fazê-lo, o que se seguirá? Essa história de governo de tecnocratas é uma ilusão estúpida. Jebali é quem é por causa da Irmandade; supor que possa ser Jebali sem ela afronta a lógica mais elementar.

“Ah, mas qual a solução então?” Sei lá que diabos os tunisianos farão de seu futuro. Para ser franco, não me atrevo a repetir o procedimento de muitos analistas, que decidiram se comportar como utopistas do Islã. Eu não tenho utopias para o islamismo. Eu não tenho prefiguração nenhuma para uma turma que acredita que o governo dos homens deva se dar segundo as regras de Deus. “Você, um cristão?” Sim, eu, um cristão, defendo valores, não que a hierarquia religiosa se meta a governar.

Se critico, desde a primeira hora, essa tolice de “Primavera Árabe” — uma invenção, reitero, do Ocidente, não lá deles —, é porque enxergava e enxergo, SEGUNDO UMA VISÃO DE MUNDO QUE, DE FATO, NÃO É ARABISTA NEM ISLAMITA (E QUE NEM PRETENDE SÊ-LO), a nova face da tirania, desta feita empregando instrumentos consagrados pela democracia, como as eleições. “Ah, então você é contra eleições nos países árabes?” Que burrice! Se alguém tentasse impor o terror político utilizando métodos científicos, eu me oporia — e nem por isso seria contra a ciência…

A questão na Tunísia e nos países que passaram ou passarão pela tal “Primavera” é de valores. Os grupos que lideram a “luta contra as ditaduras” querem exatamente o quê? Eu acho que querem governos religiosos, ainda que supostamente “moderados”. E, por essa razão, não contam com o meu apoio simbólico ou intelectual (os únicos possíveis).

Desde a origem, há uma má consciência no Ocidente a respeito desse movimento. Nove em cada dez analistas começam a se acercar do caso indagando, de partida, os “erros que cometemos” (as potências ocidentais) com os árabes. Os EUA, por exemplo, teriam feito uma grande bobagem ao apoiar ditaduras, impedindo o florescer da democracia… A análise não resiste a cinco minutos de lógica. Não fossem os tais “ditadores”, compor com quem? Não existiam nem mesmo esses “moderados” de agora. Eles só apareceram depois que a Irmandade Muçulmana mudou a sua tática de luta, não é?

Assim que eu vir um governo da Irmandade Muçulmana meter na cadeia, para valer, os radicais islâmicos; assim que eu vir um governo islâmico a defender — e a reprimir quem se opõe — a liberdade de expressão; assim que eu vir um governo islâmico garantir direitos iguais para homens, mulheres, gays e outras minorias; assim que eu vir um governo islâmico garantir liberdade religiosa; assim que eu vir um governo islâmico submetido ao estado de direito laico (não religioso), então podem me apresentar a Primavera! Por enquanto, eu vi Mohamed Mursi, no Egito, empregando a seu favor violência dos extremistas e trocando beijos com Mahmoud Ahmadinejad…

“Mas esse Reinaldo é mesmo um cretino! Um governo assim não seria islâmico!” Ah, eu sei. Eis a questão. Eu rechaço a delinquência intelectual a que pertence uma suposta analista como Jocelyne Cesari, aboletada lá em Harvard, segundo quem a “democracia islâmica” é diferente da nossa. Eu não sei o que isso quer dizer porque, no fim das contas, as ditaduras islâmicas também são diferentes das nossas. Cada coisa é o que é segundo a sua natureza. Para que seja outra coisa, há que se mudar essa natureza.

Enquanto o islamismo não for apenas uma religião, sem a ambição de ser poder de estado, não há solução que conte com a minha simpatia. “Isso é impossível!” Então tá. O islamismo pode viver bem sem a minha simpatia. Deixo o entusiasmo com a “Primavera Árabe” para os que acreditam que a lógica é só uma bobagem de trapaceiros.

Tags: islamismo, Tunísia, Irmandade Muçulmana, Primavera Árabe, Mursi, AhmadinejadEnnahdaHamdi Jebali

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