sábado, 23 de fevereiro de 2013

DEIXAI FAZER, DEIXAI PASSAR, DEIXAI FALAR: Os defensores de ditaduras, estes sim, defendem o indefensável

Deixai fazer, deixai passar, deixai falar
Por MAGNO KARL* no site www.ordemlivre.org

A blogueira cubana Yoani Sánchez chegou ontem ao Brasil sob uma nuvem de polêmica (e violência). Ela é aguardada no país há mais de um ano para o lançamento do documentário “Conexão Cuba-Honduras” e chegou a apelar para que a presidente Dilma Rousseff intercedesse em seu favor junto ao governo cubano.

Manifestantes defensores do regime cubano seguiram Sánchez pelo aeroporto, com faixas que a acusavam de ser “agente da CIA” e de usar o seu blog como fonte de desinformação. Ela reagiu afirmando que gostaria que o mesmo tipo de manifestação também fosse permitida em seu país.

Ontem à tarde, antes mesmo das manifestações que impediram a exibição de um documentário em Feira de Santana (BA), do cancelamento de alguns eventos dos quais Sánchez participaria, e da presença de policiais militares para escoltá-la pelas ruas, Fábio Ostermann já perguntava nesse blog por que a esquerda brasileira (com raras exceções) odeia Yoani Sánchez.

Eu desconfiava que discordar do aparente consenso brasileiro pegava mal, que poderiam lhe acusar de ser o que você não é, e defender o que você não defende. Mas não pensava que poderia ser perigoso.

No início do ano passado, escrevi sobre a terceira tentativa do cineasta Dado Galvão para trazer Sánchez ao Brasil, para o lançamento do seu documentário. Na ocasião, a cubana gravara um apelo pedindo ajuda à presidente Dilma Rousseff.

O OrdemLivre.org documenta desde 2009 as fracassadas tentativas de Sanchez de visitar o Brasil para compromissos profissionais. Em setembro daquele ano, Diogo Costa divulgou links para petições online que pediam a liberação de Sanchez para visitar o país no lançamento do seu livro “De Cuba, com Carinho”.

Dois anos antes, estivemos envolvidos nas manifestações realizadas em todo o mundo pela libertação do estudante e blogueiro egípcio Abdul Karim Nabeel Suleiman. Karim foi libertado da prisão em novembro de 2010, depois de enfrentar 1470 dias de prisão por causa do conteúdo de alguns posts que escreveu em seu blog.

Eu não preciso saber quais são os planos de Sánchez ou Karim para o futuro dos seus países. Se eles são favoráveis ao livre mercado ou se não protecionistas. Se eles preferem uma política de fronteiras abertas ou de concessão de vistos para imigrantes estrangeiros. Se eles acreditam na necessidade da existência ou não de um banco central. Eu não preciso saber se Karim ou Sánchez são casados, se têm filhos, se frequentam alguma igreja, ou se alguém paga pelos seus escritos.

Eu não preciso saber o quanto concordamos para defender que as suas opiniões merecem ser livres e devem ser escritas, divulgadas e debatidas, sem que você precise temer a violência.

Os defensores de ditaduras, estes sim, defendem o indefensável.

*Magno Karl, cientista social pela UFRJ, é tradutor e gerente de operações do Ordem Livre.

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