sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

A condenação da Band (e Datena) devido a uma ação neo-ateísta e o que os conservadores (especialmente os cristãos) tem a aprender com isso

Escrito por Luciano Ayan no site www.lucianoayan.com

Segundo o UOL, a Justiça condenou a TV Bandeirantes, e seu apresentador José Luis Datena, por “comentários preconceituosos” contra ateus. Como não poderia deixar de ser, a ação foi movida por um membro de uma organização neo-ateísta.

Já posso até imaginar o chororô: “Que sacanagem, esses ateus não tem o que fazer…”. Aliás, uma ladainha injustificável, pois não podemos comparar os neo-ateus com todos os ateus.

Seja lá como for, a vida de alguém que estuda ciência política (ou ao menos se interessa pelo assunto) deve ser um eterno aprendizado, como no futebol. Um time que perde vários jogos em sequência tem muito a aprender com seus adversários. Perguntas como “Por que nossa defesa é uma peneira?”, ou “Por que tomamos tantos gols de cabeça?” ou mesmo “Por que não conseguimos reter a posse de bola no ataque nos últimos jogos?” são triviais no mundo do futebol. Assim como em qualquer esporte. Deixar de fazer o mesmo no jogo político é estupidez.

Em síntese, o que ocorreu, por parte, dos neo-ateus, foi uma vitória, enquanto do lado dos conservadores cristãos existe um acúmulo de derrotas políticas uma atrás da outra. E sair criticando “Esses ateus são uns @$@$@#”, após o resultado negativo da ação, é o mesmo que jogar pelo Novorizontino, e xingar Palmeiras, Santos e Portuguesa, por causa destes três times terem aplicado goleadas no time do interior nas últimas rodadas. Simplesmente não faz o menor sentido.

Em cima deste mindset, vamos avaliar a notícia do UOL, que diz:
  • A decisão é da Justiça Federal de São Paulo que considerou preconceituosos os comentários que o apresentador José Luiz Datena fez em relação aos ateus, em um programa exibido em 2010.
O que se entende é que o ato de chamar uma classe (no caso, os ateus, mas poderiam ser teístas), de culpados por males sociais é, então, um ato de preconceito, e portanto passível de ação judicial. Este é o precedente aberto pelo resultado da ação judicial contra Datena, e, em cima do aproveitamento deste precedente, é que devemos julgar as lideranças que se sentem atacadas pelo neo-ateísmo. É como julgamos os técnicos dos times de futebol: “Ok, você perdeu três partidas, e vamos ficar de olho no resultado da próxima partida”.

Sigamos:
  • Datena teria relacionado a execução de um jovem à “ausência de Deus”. “Um sujeito que é ateu não tem limites, e é por isso que a gente vê esses crimes aí”, afirmou o apresentador.
Roger that. Pelo que se entende no novo precedente aberto, a crítica a alguém ou alguma classe por “ausência de X” (onde X pode ser crença em Deus, ou descrença em Deus) é, portanto, um ato de preconceito. E a crítica a alguém ou alguma classe por culpas de crimes associados indiretamente a classe criticada também é um ato de preconceito. Ora, parece que não é muito difícil encontrar críticas no mesmo tom que as feitas por Datena no discurso dos neo-ateus, só que lançadas contra os religiosos. Lembremos do precedente aberto.

Outro ponto relevante:
  • Após a exibição do programa, o MPF-SP entrou com uma ação civil pública contra a TV Bandeirantes. Para o procurador que atuou no processo, Jefferson Aparecido Dias, “a emissora prestou um desserviço para a comunicação social, uma vez que se portou de forma a encorajar a atuação de grupos radicais de perseguição a minorias, podendo, inclusive, aumentar a intolerância e a violência contra os ateus”.
Aha, de novo o Jefferson Aparecido Dias. Por que não estou surpreso? Parece que o caminho das pedras está em encontrar um procurador que esteja alinhado à sua linha ideológica e ao mesmo tempo disposto a lançar a maior quantidade possível de ações contra o inimigo. Suponha que este procurador lance 70 ações contra teístas, a partir de neo-ateus (e tivemos o exemplo de Jefferson apoiando os humanistas na guerra de posição sobre as cédulas), e ganhe umas 3 ou 4, já é uma vantagem para seu lado.

Mas, de acordo com as palavras de Jefferson, se um meio de comunicação lança um ato de preconceito contra uma classe (teísta, ateísta), então presta um “desserviço”, e portanto é responsável pela “atuação de grupos radicais” na perseguição da classe criticada. Se não é preciso comprovar que a declaração “aumenta a violência contra” a classe criticada, parece que não é mais preciso anexar evidências do aumento de violência contra a classe a ser protegida na ação. Tudo fica mais fácil.

Faltaria Jefferson apresentar um argumento endossando a idéia de que “ateu não pode ser criticado por ser minoria”. Mas é claro que se alguém lançar esse tipo de pergunta para ele, a tendência é que o procurador pró-humanismo fuja da resposta.

Outro precedente aberto:
  • Além disso, o MPF-SP alegou que Datena atribuiu os males do mundo aos “descrentes”, ao dizer que “é por isso que o mundo está essa porcaria. Guerra, peste, fome e tudo mais, entendeu? São os caras do mau. Se bem que tem ateu que não é do mau, mas, é …, o sujeito que não respeita os limites de Deus, é porque, não sei, não respeita limite nenhum.”
Compreendido. O apontamento de um grupo como “causador de males” é, então, digno de lançamento de processo judicial. Ao bom leitor meia palavra basta: Jefferson acabou de dar uma justificativa moral para que quase todo post da ATEA resulte em uma ação judicial neste sentido. Quase toda declaração pública endossando opiniões neo-ateístas pode resultar em uma ação judicial exatamente igual.

A questão que fica é: com tantos precedentes abertos (só nessa notícia, apontei uns 3 ou 4) automaticamente legitima-se moralmente um lançamento absurdo de ações judiciais contra os neo-ateus.

Na guerra política, quem não chora, não mama. E quem chorou, mamou. Simples assim.

A melhor coisa de estudarmos a dinâmica social da guerra política, é ver como as coisas são simples. O mundo não é mais feito de “malvados” e “bonzinhos”, mas de espertos e ingênuos. E esta é a realidade nua e crua: quem consegue ganhar pontos em ação judicial contra a classe contra a qual está em guerra, é por que tende a fazer por merecer.

Os diversos precedentes foram abertos, e o que se pode fazer com isto? Cabe agora aos conservadores cristãos decidirem se os precedentes aberto serão utilizados para eles exigirem respeito como seres humanos ou não.

2 comentários:

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