sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Sustentabilidade e anticonsumismo são faces de um moderno autoritarismo, com tendência fascistizante. Ou: O que faria Tio Rei entre Dilma e Marina, além de lamentar?

Por Reinaldo Azevedo no blog www.veja.abril.com.br/blog/reinaldo/

Recebi um texto de um leitor chamado Fernando Rolim. Ele diz apreciar a minha honestidade intelectual e escreve um arrazoado sobre a Alana — aquela entidade que quer estuprar a Constituição para proibir a publicidade, no estado de São Paulo, de produtos “pobres em nutrientes e com alto teor de açúcar, gorduras saturadas ou sódio”. Também quer tornar ilegal o Kinder Ovo porque traz dentro um brinquedinho… Tudo isso incentivaria o consumismo nas crianças. Já publiquei três textos a respeito. O Rolim manda um libelo em defesa da Alana para, segundo entendi, testar a minha honestidade intelectual. Abaixo, reproduzo seu texto em vermelho e respondo em azul. E teço algumas considerações.

Vamos lá Reinaldo. Aprecio sua honestidade intelectual e a defesa que faz dela. É preciso sua coerência agora.
Vamos lá, Rolim.
Não tenho procuração da Alana, não conheço seus fomentadores e estive apenas uma única vez em sua sede para tratar de um futuro projeto dela, ligado à Síndrome de Down ( um projeto não eugênico, como a maioria que recebe as maiores verbas). Conheci alguns dos executivos e funcionários que me apresentaram por alto os demais projetos subvencionados; gostei do que vi e do que li no farto material que me forneceram.
Ótimo! Eu não gostei nem do que li nem do que vi. E gostei menos ainda quando percebi que uma ONG faz pressão para que um governador de Estado desrespeite a Constituição. Suponho que exista por lá assessoria jurídica para informar que a competência para legislar sobre publicidade é federal. Os dois projetos de lei aprovados na Assembleia Legislativa de São Paulo são inconstitucionais. Quanto à Alana, dizer o quê? Ninguém chama Frei Betto como conselheiro se tem apreço pela democracia. É uma questão de fato, não de gosto.
Feitas essas observações preliminares que candidamente expõem a inexistência de qualquer vínculo de interesses com a Alana, gostaria que você considerasse:
1. querer bem e patrocinar boas causas é  louvável e direito legítimo de qualquer um; misturar isso com outros atos, atitudes ou condições pessoais desses patronos, por mais incoerente que possa parecer, é desonestidade intelectual;
Como discordar da primeira parte da sua observação, não é, Rolim? Quanto à segunda, aí a desonestidade intelectual, lamento!, é sua. O mínimo que se pode exigir é que as pessoas vivam conforme as regras que querem IMPOR aos outros. Nesse caso, as “condições pessoais” dos patronos fazem toda diferença, sim! Tivemos, claro!, o caso notório de Engels, o milionário, que usava a sua fortuna pessoal para financiar Marx, enquanto este massacrava os furúnculos do traseiro e imaginava o sistema que resultaria no maior morticínio em massa da história da humanidade. Naquele caso, vá lá, era evidente que Engels vislumbrava mesmo o fim do capitalismo. No caso em espécie, parece que o que incomoda é o capitalismo… alheio.
2. se quiser criticar a causa patrocinada, faça-o baseado em fatos e nos seus valores, não no nome ou sobrenome de quem a defende;
Não seja intelectualmente desonesto! Para mim, pouco importa o sobrenome. Importa é o que efetivamente se pratica. Se não se pode vender biscoito de chocolate para crianças, por que elas podem ser estrelas de comerciais de bancos? Responda você! Aí pouco me importa se o sobrenome do sujeito é Rolim, Villela, Azevedo, Montecchio ou Capuleto… Aí, sr. Rolim, há que se fazer como recomendou Julieta: “Despreza o pai, despoja-te do nome…”. O que não é possível é acender uma vela para aquele que se considera o capeta e querer mandar para a fogueira os outros, que estariam sob o comando do diabo, entendeu? Eu não acho nem o capitalismo nem a liberdade de expressão um pecado. A Alana é que parece achar — ao menos aquele praticado pelos outros. Repudio o que pensava Trotsky, por exemplo, mas lhe reconheço uma honestidade necessária. Quando decidiu que era mesmo um socialista, abandonou a casa do pai latifundiário e foi morar num casebre, junto com um jardineiro.  A questão não é de sobrenome, mas de coerência.
3. como uma família pode ser o maior acionista individual? família não é indivíduo e os indivíduos mencionados, se de fato são acionistas, o seu post não o quantificou;
Você entendeu direitinho o que escrevi. Quanto aos detalhes, vá ao Google.
4. em qualquer empresa, não se confunde a pessoa física com a pessoa jurídica; propriedade e controle (controle esse que define a gestão e o poder de mando) não se misturam. Seu post também não informa se esses supostos acionistas têm algum conselheiro ou administrador eleito ou mesmo se participam do bloco de controle ou ainda se têm assinado algum acordo de acionistas que viesse torna-los responsáveis pela publicidade e pelo marketing do Banco;
Procure e verá que têm. De toda sorte, para os propósitos do meu texto, continuaria irrelevante, uma vez que a Alana, que defende as criancinhas, poderia submeter também as publicidades a que me referi a um exame, não? Ou será que o “consumo consciente” só se aplica à indústria de alimentos e brinquedos?
5. as empresas de Cubatão, responsáveis décadas atrás pelo ar mais poluído do mundo, patrocinaram o maior exemplo de recuperação ambiental já visto, sem abrir mão da produção… Desonestidade intelectual?
A desonestidade intelectual está no seu exemplo, que absolutamente não se aplica ao caso. Eu sou favorável a que todas as empresas procurem poluir o mínimo possível. O que uma coisa tem a ver com outra?
6. você consegue enxergar o liberalismo que defende sem os Bancos exercendo o exato papel atual?
Epa! Você me parecia, até aqui, um leitor um pouco mais atento. Você acha mesmo que eu critiquei os bancos ou que considerei desonestas as propagandas do Itaú? Problema de interpretação de texto, rapaz! Eu acho aquelas peças excelentes! Não vejo nada de errado com elas. Como não vejo, com uma exceção aqui e outra ali, nada de errado com a publicidade da indústria de alimentos.
Agora vamos ao mérito da causa, ou causas, patrocinadas pela Alana, mesmo com o meu raso (porém informado) conhecimento sobre algumas delas e suas práticas:
Como diria Marquês de Sade, não se faça de inocente (ele usava outra expressão…), Rolim. O vocabulário do seu texto denuncia — ou melhor, anuncia — as suas preocupações.
1. o consumismo é, por definição, o desvirtuamento do consumo; significa comprar ou utilizar mais recursos do que se pode ou se precisa e, portanto, é condenado pela sustentabilidade, pois mais cedo ou mais tarde comprometerá o futuro (a conta bancária devedora, a falta de recursos na velhice, do ponto de vista pessoal ou a falta de água, petróleo ou qualquer outro recurso natural para as gerações futuras);
Sei… E, por isso, surgiram os bons samaritanos da sustentabilidade. Como eles confiam pouco na educação, decidiram que o melhor caminho é mesmo proibir, cassar dos indivíduos o livre-arbítrio, decidir em seu lugar. Existe um mal muito mais grave do que o consumismo: o autoritarismo. Não há perigo, Rolim, de a gente se entender nesse caso. Alguns profetas da sustentabilidade, hoje em dia, são o que de mais próximo temos do fascismo.
2. combater o consumismo, portanto, é bom em si; se for o consumismo infantil, melhor ainda, pois evita o vício prematuro e de gente (crianças) com o poder de escolha limitado; esperar dos pais que lhes coloquem uma burka ou os exclua de suas tribos é pouco razoável, porque impossível;
O que faz esse “portanto” no seu texto? Você acha que provou alguma coisa? Como??? “Combater o consumismo é bom em si?” Isso quer dizer que não importam os meios? É por isso que a Alana cobra que o governador Geraldo Alckmin rasgue a Constituição? Para nos salvar do consumismo?
Entendi. Você é do exército da “sustentabilidade”. E, definitivamente, essa causa é mais autoritária do que parece. Seu texto o evidencia. Como vocês não confiam na capacidade que têm os pais de educar os seus filhos; como fica difícil excluir as crianças de sua “tribo”, então devemos apelar ao Estado que use a sua mão forte para salvar os infantes! Afinal, o “consumismo” é um mal em si… Entregaremos aos militantes dessa causa o nosso destino e o nosso futuro. Eles conhecem as coisas “boas em si”.
3. qualquer menino quer a chuteira igual do amigo que é igual a do Neymar e não interessa se original ou genérica, se comprada no shopping center mais caro ou no camelô da periferia;
E daí? O que há de errado nisso? É pecado querer a chuteira do Neymar? No seu mundo ideal, Rolim, o estado — ou um Conselho de Sábios da Alana — vai definir as necessidades das crianças? Vamos constituir o Comitê de Salvação Pública para impor o “consumo consciente”? Quem será o Robespierre? Quem será o Marat? Quem vai entrar com as cabeças?
4. combater a obesidade infantil e a alimentação saudável é garantir qualidade de vida, a longevidade e a reducão do custo da assistência médica futura;
Relevo a sua confusão. Creio que você quis escrever “combater a obesidade infantil” e “defender a alimentação saudável”. Digamos que eu concorde com a premissa. Não se pode fazer isso respeitando a Constituição e a democracia? Acho que sim! Todos os regimes de força se impuseram, rapaz, alegando bons propósitos. Quem disse que vocês  — desculpe-me: os que você defende — detêm o monopólio das soluções?
Vejam o caso de Marina Silva, a beata da sustentabilidade… Os amigos da natureza tanto pressionaram que, para preservar alguns quilômetros quadrados de mata — irrelevantes quando se considera o conjunto —, as hidrelétricas passaram a funcionar a fio d’água, sem reservatório. Para compensar essa concessão estúpida feita aos ecochatos, o Brasil precisa ligar a toda potência dezenas de usinas termelétricas, que são poluidoras, a um custo quase dez vezes maior. Tudo porque existem as causas “boas em si”…
Devagar aí, rapaz! A turma da “sustentabilidade” não é salvadora da humanidade, não! E ninguém lhes delegou poder para pôr fim à democracia.
5. combater a fome mundial através da redução do desperdício das sociedades afluentes e da consciência sobre isso é desnivelar as diferenças sem tirar dos que já têm;
Isso é um fundamento moral bacaninha, que não tem a menor importância na escala econômica. Desculpe-me: é puro delírio. A cada vez que leio que a comida que se joga fora nos restaurantes daria para alimentar não sei quantos, sinto uma enorme preguiça. E até entendo como nasce essa conversa mole. A turma da sustentabilidade quer acabar com a fome, mas também é contra o agronegócio, né?, que produz comida barata. Quando se aponta a contradição, surge a resposta mágica: “Vamos acabar com o desperdício! Os países ricos têm de consumir menos!”. Claro, claro… E têm de gerar menos empregos, consumir menos matéria-prima e… matar de fome os países pobres — uma consequência óbvia desses nobres princípios morais. De resto, nem sei o que isso tudo tem a ver com o caso original: violar a Constituição! Era esse o tema do meu texto original.
6. você consegue enxergar o liberalismo que defende sem progresso social, melhoria da qualidade de vida e a agência dos indivíduos empenhando recursos pessoais para o bem comum?
Não, Rolim, porque você e os seus não são as únicas pessoas boas no mundo. Também sou bom. E louvo que os indivíduos gastem seu dinheiro para o bem comum. Mas não precisamos tirar dos indivíduos o direito de escolha porque, afinal, estamos empenhados em protegê-los.
Espero que a sua intransigente honestidade intelectual volte a ser sua principal ferramenta de polemista.
Rolim, eu já vivi o bastante para não cair nesse tipo de truque. Pelo visto, você aprecia a minha “honestidade intelectual” quando concorda comigo e acha que sou desonesto quando discorda. Ou por outra: não é a “minha” honestidade intelectual que você aprecia, mas aquela que considera ser a sua. Você se tem, pois, como “a” referência da honestidade intelectual.
Seu texto é um bom exemplo do que tenho percebido nesses novos “amigos da humanidade”, os tais defensores da “sustentabilidade”. A exemplo dos “socialistas” do passado, eles julgam ter uma causa altruísta, uma verdadeira chave para o bem-estar permanente da humanidade.
Ocorre que o homem, vocês sabem, é dado ao egoísmo e coisa e tal. Uma crítica de Stálin, referindo-se ao bigodudo, afirmou: “Eles sabiam que não se faziam omeletes sem quebrar ovos”. Assim é a Alana. Assim são esses novos utopistas. Se é para defender a natureza, se é para combater o consumismo, se é para o bem geral da humanidade, que mal há em ser um pouquinho autoritário?
Essa gente tem uma espécie de compulsão para o que considera “pureza” que, lamento, lembra algumas práticas fascistas. Ora, querem se organizar para pregar o boicote aos biscoitos, aos sorvetes, aos refrigerantes e aos brindes? Que o façam! Por que precisam impor ao conjunto das pessoas as suas mesmas preocupações, considerações e preconceitos? Ah, porque existem as causas que são “boas em si”, a exemplo das usinas a fio d’água, que resultam na poluição das termelétricas.
Eu odeio e repudio todas as misérias humanas, viu, Rolim!? Mas aprecio a humanidade com as suas imperfeições. A história nos prova que os reformadores de homens são muito mais perigosos do que alguns homens tortos.
Encerro com uma outra provocação: se, um dia, o destino cometesse a maldade de me deixar entre Dilma Rousseff e Marina Silva, a minha primeira disposição seria anular o voto. Se, no entanto, houvesse o risco real de Marina vencer, eu taparia o nariz das minhas convicções e votaria em Dilma. Sabem por quê? Porque ao menos eu estaria combatendo um autoritarismo que é deste mundo… Prefiro enfrentar a estupidez ao irracionalismo militante.

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