quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

UM HOMEM DEVE SER CAPAZ DE DIZER QUE DEU O SEU MELHOR PARA FORMAR UMA CONCEPÇÃO DE VIDA APÓS A MORTE. Ou:

Tomado por dentro
Escrito por JEFFREY NYQUIST e publicado no site www.midiasemmascara.org

No século XIX construímos um motor econômico racional. Construímos uma economia industrial que agora foi digitalizada. Essa economia pode nos dar o que quisermos. Mas a questão fundamental é: o que nós queremos?

Nos estudos mercadológicos e econômicos há um mistério. Ele vem de dentro do coração humano, de um manancial que não podemos alcançar sua fonte. É o mistério da existência; o mistério do "por quê" e "para quê". Reduzir o homem ao homo economicus (um sujeito racional estritamente interessado em atuar em prol de seus próprios interesses e vantagens) é ignorar a amplitude da situação, ou seja, é ignorar que não só de pão vive o homem, pois ele não é meramente só racional, só econômico ou só animal. Embora alguns digam que isso seja uma tolice excêntrica, o homem é um ser moral e espiritual.

Em seu grande livro Memórias, Sonhos, Reflexões, o psiquiatra Carl Jung escreveu: "Um homem deve ser capaz de dizer que deu o seu melhor para formar uma concepção de vida após a morte, ou pelo menos criar alguma imagem dela [...] mesmo se ele tiver de confessar seu fracasso". A razão pela qual nós devemos fazer essa tentativa, disse Jung, é que caso não for assim, nossa rica herança da vida interior estará perdida; aquilo que ele chamou de "a vida secreta da consciência" deixaria de florescer e nos alimentar. De acordo com Jung, "a razão estabelece limites demasiadamente estreitos para nós, de modo que ela nos faz aceitar apenas o conhecido — incluindo suas limitações — e nos faz viver apenas sob uma perspectiva já limitada, como se soubéssemos até onde de fato a vida se estende".

No grande ensaio A época presente, Søren Kierkegaard começa dizendo: "Nossa época é essencialmente dotada de entendimento e reflexão, sem paixão, momentaneamente explodindo em entusiasmo e astutamente se interrompendo". Aqui nós perdemos nossos instintos. De fato, passamos nossos instintos para trás e demos lugar aos cálculos econômicos. No século XIX construímos um motor econômico racional. Construímos uma economia industrial que agora foi digitalizada. Essa economia pode nos dar o que quisermos. Mas a questão fundamental é: o que nós queremos?

A razão pode nos dizer muitas coisas. Mesmo assim, ela não pode nos revelar o cerne do mistério. Nos nossos esforços temos de ser racionais, é claro, e o capitalismo é o melhor sistema econômico para realizar nossos sonhos e desejos. Ainda assim, o capitalismo não é a pedra filosofal capaz de transformar metais base em ouro ou rejuvenescer o corpo humano. O capitalismo é meramente a liberdade de comprar e vender, investir e adquirir. Vital o quanto seja, não devemos confundir os meios com os fins.

Também deve se reconhecer que a razão tem suas próprias limitações. "Quanto mais [...] a razão domina", escreveu Jung, "mais estéril a vida se torna, enquanto que mais prevalecer o inconsciente e maior nossa capacidade de conceber conscientemente mitos, maior nossa integração com a vida". Nos dias atuais paramos de integrar e começamos a desintegrar. Na verdade, a totalidade da existência está maculada de irrealidade — com uma perda de vitalidade que Kierkegaard vividamente descreveu quando ele acusou a modernidade de tentar extirpar a autoridade e a nobreza, que por sua vez eram a base da própria moralidade. O que sobrou, no final das contas, senão um deserto no lugar da alma?

Costumava-se dizer que quando algo era bom, era "bom como ouro" [NT: "good as gold"]. Agora a benevolência em si é tida como ficção e o ouro não é mais considerado dinheiro.

Assim não podemos mais ter a genuína autoridade ou a verdadeira nobreza; não podemos ter a benevolência, tampouco podemos ter ouro ou dinheiro. No lugar dessas coisas agora encontram-se trapaceiros por todos os lados, temos maníacos atirando em crianças do jardim de infância, e temos dinheiro digital. A explicação que Kierkegaard ofereceu, que não é nem um pouco bajulante, é que as pessoas não desejam mais um grande rei, um herói libertador ou uma religião dotada de autoridade. Elas não querem regras severas ou altos padrões, pois no fim elas querem que tudo seja fácil; elas querem uma existência suave que só pode ser garantida se se evitar o grande, o heróico, o verdadeiro e o nobre.

E assim temos o dólar naufragando; temos um "penhasco fiscal; temos o Federal Reserve; temos o Senado dos Estados Unidos; e temos um público completamente apático. Segundo Kierkegaard, a absurdidade da nossa era democrática vai além do cômico: "O público é de fato o verdadeiro Mestre Nivelador no lugar do próprio nivelador. Mas [...] a nivelação é [...] cumprida [...] por algo, e o público é um monstruoso nada."

O que era dinheiro vivo agora é dinheiro irreal. A própria nação se tornou uma nulidade (isto é, o público). "O público é tudo e é nada", escreveu Kierkegaard, "a mais perigosa de todas as forças e a mais insignificante...". Imagine o que isso significa. Imagine a catástrofe que estamos cortejando. Do nada vem o nada.

Carl Jung e Søren Kierkegaard nos avisaram que a sociedade moderna é auto-deteriorante. Isso está certamente se tornando aparente conforme vemos o noticiário. Então seria o caso de nos perguntarmos se a economia tornou-se auto-deteriorante? Seja qual for o mistério da nossa existência, a vida interior produz efeitos no exterior. E olhando para os efeitos exteriores, algo verdadeiramente terrível já nos tomou por dentro.

Publicado no Financial Sense.

Tags: cultura | economia | história | Estados Unidos | conservadorismo | cristianismo, capitalismo, Soren Kierkegaard, Carl Jung, psicologia

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