sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

6 – Antonio Palocci tentou evitar a publicação da entrevista do Senhor Francenildo

Escrito por João Moreira Salles e publicado na Revista Piauí e no blog do Ricardo Setti: a história de como todos os poderes da República moeram o caseiro Francenildo.

Palocci soube da entrevista e telefonou duas vezes a Sandro Vaia, diretor de redação do Estado, para pedir cautela e se dizer vítima de manobras de adversários. Vaia adiou por dois dias a publicação da entrevista, para que a repórter pudesse checar detalhes.

“Você quer ir para um hotel?”, perguntou Rosa Costa ao caseiro. “O jornal se dispõe a pagar a hospedagem até que a matéria saia.” Francenildo interpretou a oferta de duas maneiras: preocupação com ele ou, então, conforme disse, “medo de eu dar a mesma entrevista em outra imprensa”. Ele recusou o oferecimento, refugiou-se numa chácara e só voltou à cidade na segunda de manhã. Rosa Costa avisou que a entrevista seria finalmente publicada no dia seguinte.

No dia em que ficou famoso – 14 de março de 2006 – Francenildo acordou às seis da manhã. Ligou a televisão e ouviu: Um caseiro afirmou em entrevista ao Estadão que o ministro Palocci freqüentava a casa. E soube que estava intimado a comparecer à CPI dali a dois dias.

Às sete e meia, chegou à casa do Lago Sul. Cortava a grama quando a secretária do proprietário veio chamá-lo: “Chegou um carro de imprensa.” Era a RedeTV! Em seguida, vieram Record, Globo e SBT. A campainha tocava sem parar. Francenildo viu fotógrafos e cinegrafistas da Globo encostarem escadas na fachada da casa vizinha, onde morava a jornalista de quem ouvira falar. Subiam no telhado para filmá-lo e fotografá-lo.

Escondeu-se dentro da casa. Meia hora depois, Luiz Antonio Guerra lhe disse: “Você não pode ficar aqui, não vão te deixar em paz.” Pela segunda vez em menos de uma semana, alguém o deitou no banco de trás de um carro para que pudesse sair fugido da casa.

Guerra o deixou no Gilberto Salomão para que tomasse um ônibus, mas, quando chegou a condução, ele decidiu não entrar. Perambulou, desnorteado, pelo centro comercial. Era, naquele momento, o homem mais procurado do país. “Eu solto no Gilberto, sem noção nenhuma. A única coisa que me passava pela cabeça era que eu tinha que achar uma roupa boa pra ir na CPI. Eu via todo mundo depondo de terno. Pensei no vexame, em alguém dizer ‘Dá um terno aí pro rapaz…’”

À beira do desespero, ligou para João Gustavo: “Vocês disseram que iam me ajudar. E agora isso.” O corretor estava com clientes. Disse ao caseiro que o esperasse na mesma padaria de quatro dias antes. Francenildo comprou uma quentinha e comeu no estacionamento. João Gustavo chegou às 13h30 e abriu a porta do passageiro: “Estou tentando ligar para um primo meu que é advogado. Ele vai pegar o teu caso e não vai cobrar nada.”

OBS: Dividi em 21 capítulos a história do caseiro Francenildo cujo sigilo bancário foi quebrado pelo governo do PT e cuja vida foi intimamente escancarada a ponto de nunca mais falar com o pai. Veja a história completa no link: Leitura essencial para esses tempos de mensalão e “Rosegate”: ahistória de como todos os poderes da República moeram o caseiro Francenildo.


1 – Francenildo dos Santos Costa nasceu em 1981 em Teresina, Capital do Piauí. Foi morar em Brasília em 1995. Nasceu o primeiro filho Thiago com a mulher Noelma em 1999
2 – Francenildo dos Santos Costa era caseiro da casa que foi alugada a um grupo de pessoas liderado pelo Ministro da Fazenda Antonio Palocci no início do ano 2003
3 – Francenildo viajou a Teresina no fim do ano 2003. Foi acertar o maior problema de sua vida, mas foi chamado de volta a Brasília para encerrar contrato de trabalho
4 – Francenildo, Palocci e os companheiros de Ribeirão Preto
5 – A entrevista com jornalista do Jornal O Estado de São Paulo foi marcante na vida do Senhor Francenildo e no Brasil
6 – Antonio Palocci tentou evitar a publicação da entrevista do Senhor Francenildo
7 – A mão de Deus promoveu o encontro de Francenildo e do advogado Wlicio Chaveiro Nascimento
8 – A manchete do Jornal O Estado de São Paulo dizia: Caseiro desmente Palocci e revela partilha de dinheiro na mansão
9 – Jornalista Helena Chagas atuou contra Francenildo e a favor do governo do PT
10 – Como foi a abordagem organizada pelo governo do PT para que numa próxima entrevista coletiva Francenildo negasse o teor da entrevista dada ao Estadão
11 – Antes do depoimento na CPI dos Bingos, Francenildo e seu advogado rezaram em voz alta. A verdade dita na CPI salvou Francenildo e o Brasil ganhou
12 – Objetivos e resultados da CPI dos Bingos
13 – Francenildo foi indevidamente incluído no Programa de Proteção à Testemunha
14 – Como e quando ocorreu a quebra do sigilo bancário de Francenildo
15 – Meia noite foi a hora da chegada de Francenildo ao abrigo que a Polícia Federal reservara a ele e a um traficante de drogas
16 – Como foi a atuação do governo do PT acionando a moenda que quebrou o sigilo do Senhor Francenildo dos Santos Costa
17 – Francenildo e seu advogado Wlicio marcaram entrevista coletiva à imprensa, pediram proteção divina (“*Senhor*, nos ajude a saber o que dizer, como dizer e quando dizer) e então denunciaram a quebra do sigilo bancário de Francenildo
18 – O governo do PT usou a Polícia Federal e a ingenuidade da oposição para tentar acobertar a quebra do sigilo bancário do Senhor Francenildo
19 – A Polícia Federal abriu inquérito por lavagem de dinheiro contra Francenildo. O advogado Wlicio disse: Procede, a mãe dele é lavadeira. Ministro Palocci pediu demissão
20 – Relatório da Polícia Federal não esclarece como a Caixa Econômica Federal obteve o CPF do Senhor Francenildo. Deduz-se que o governo do PT o conseguiu por intermédio dos seus tentáculos
21 – Francenildo moveu ação de danos morais contra a Caixa Econômica Federal e contra a Revista Época

Tags: agência Gilberto Salomão, Caixa Econômica Federal, Francenildo dos Santos Costa, Luiz Antonio Guerra, Sandro Vaia, Rosa Costa, governo do PT, João Moreira Salles

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