sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

5 – A entrevista com jornalista do Jornal O Estado de São Paulo foi marcante na vida do Senhor Francenildo e no Brasil

Escrito por João Moreira Salles e publicado na Revista Piauí e no blog do Ricardo Setti: a história de como todos os poderes da República moeram o caseiro Francenildo.

Na manhã seguinte ao depoimento de Francisco das Chagas, Francenildo abriu o Correio Braziliense e leu:

A partir do depoimento do motorista, a CPI decidiu procurar uma das empregadas da casa do Lago Sul, chamada Neuma [sic], e seu marido, ainda não identificado, que trabalhava de caseiro no local. Há informações de que ele teria levado malas de dinheiro a Ribeirão Preto, viajando de carro, junto com Poleto.

Francisco das Chagas não falara em malas de dinheiro na CPI, mas, de alguma forma, a falsa notícia chegara ao jornal. Malas, dinheiro e poder – Francenildo ficou com medo: “Quem estava sendo acusado podia vir me pegar.” A campainha tocaria às dez da manhã. Ele deu uma espiada – eram três homens de terno. Ele os atendeu pelo interfone: “Qual é seu nome”, perguntaram. “Raimundo”, ele mentiu. “Você conhece o caseiro que trabalhou na época do Poleto?” “Não.” Pediram que viesse ao portão. Eram policiais federais a serviço do Congresso e queriam ver sua identidade. Disse que era diarista, não andava com documentos. Os homens foram embora.

Francenildo começou a correr na memória as pessoas que conhecia. Precisava de ajuda, e o patrão, Guerra, estava viajando. Parou no nome de João Gustavo Coutinho, o corretor que trouxera Poleto à casa. Devia ter influência e sempre o tratara bem. Desde que o escândalo estourara, João Gustavo lhe dizia, rindo: “Dá pra ganhar um dinheirinho bom com essa história. Uns 30 mil reais, quem sabe? Pra você comprar uma casinha.” (João Gustavo nega ter mencionado dinheiro.)

Francenildo ligou: “Gustavo, preciso de ajuda para encarar os homens.” O corretor pediu uma hora. Quando ligou de volta, disse: “Já falei com uma pessoa de confiança. Amanhã, às dez e meia, passo aí pra te pegar e a gente vai se encontrar com ele no Gilberto Salomão.” Francenildo conhecia o lugar. Era o centro comercial onde ficava a agência da Caixa em que tinha conta.

No fim de tarde, o telefone tocou no gabinete do senador Antero Paes de Barros, do PSDB. Do outro lado da linha, alguém informava que o caseiro fora encontrado e queria falar.

Às oito da manhã do dia seguinte, uma sexta-feira, João Gustavo disse a Francenildo que se abaixasse no banco de trás do carro. O caseiro saiu escondido pelo portão dos fundos, para escapar de policiais que porventura estivessem à espreita. Estacionaram em frente à padaria Lago Sul, no Gilberto Salomão. Cinco minutos depois, um homem barbado, calvo, de uns 60 anos, “fumador de cigarro”, como lembraria o caseiro, caminhou na direção deles.

Era Enéas de Alencastro Neto, assessor de Teotônio Vilela Filho, senador tucano de Alagoas. “Você é o caseiro de quem o motorista falou?” “Sou.” Desconfiado, pediu que Francenildo descrevesse o que vira na casa. Convenceu-se e lhe disse: “Rapaz, sabe quem você é? Você é o homem mais importante do mundo. Vai virar celebridade. Vai derrubar o homem mais poderoso depois do Lula.” Como Francenildo estivesse de bermudas, Alencastro disse que o levaria até a casa para vestir uma calça, pois iriam ao Congresso Nacional. Abriu a porta de um jipinho Mitsubishi, pôs o caseiro para dentro e partiu, deixando João Gustavo para trás.

Chegaram ao Senado por volta de nove e meia. Francenildo foi conduzido por corredores, escadas e salões até uma sala de espera, onde esperou sozinho durante uns vintes minutos.

Foi levado enfim à sala do tucano Antero Paes de Barros, de quem jamais ouvira falar. O senador estava sentado: “E aí, você é o caseiro da mansão lá? Você vai ficar muito famoso. Quer dar a entrevista?” Francenildo disse que estava com medo e precisava de ajuda, mas preferia não falar com a imprensa. “Não dá pra falar sem ser com eles?”, perguntou. Paes de Barros fez que não: “Não te protege. Vou arranjar um jornalista de confiança.” O senador garante que Francenildo quis falar: “Foi decisão dele.”

Paes de Barros e os assessores começaram a discutir. Qual jornalista chamar? “Esse não é confiável, aquele outro também não.” Os nomes eram levantados e imediatamente derrubados. Sentado num sofá, Francenildo ouvia sem nada compreender. Imaginava que, ao dizerem “confiável” ou “não confiável”, referiam-se à proteção dele próprio. “Andrei Meireles!”, exclamou por fim o senador, lembrando-se do jornalista da revista Época em Brasília.

“Andrei, vem aqui que eu tenho uma coisa boa pra você”, disse Paes de Barros, por telefone. Meireles estava no dentista, de boca aberta. Pediu que o senador adiantasse o assunto. “Você sabe que não é assim que funciona”, ouviu em resposta, “mas vem que é uma bomba.” O jornalista insistiu. “Não!”, irritou-se Paes de Barros. Desejou um bom fim de semana a Meireles e desligou.

“Então pensei na Rosinha, que cobria a CPI do Banestado”, diria dois anos depois o agora ex-senador, no terraço de um hotel em Brasília. Referia-se à repórter Rosa Costa, do Estado de S. Paulo. Ele foi direto ao assunto: “Ô Rosinha querida, como é que você está? Tem uma matéria para você soltar.”

Levaram Francenildo de volta à sala de espera. Em silêncio, ele esperou com Enéas de Alencastro durante quase uma hora até que Rosa Costa chegasse. Ela perguntou: “Você quer fazer a matéria?” Em busca de um último conselho, ele olhou para Alencastro e recebeu um sinal afirmativo. Virou-se para a jornalista e assentiu com a cabeça.

Rosa Costa precisava de provas de que estava mesmo com o caseiro da notória casa do Lago Sul. Foram juntos até a casa para que ele buscasse a carteira de trabalho. Com a confirmação, seguiram para a sucursal do Estado, onde foi feita a entrevista.

Já eram três e meia da tarde quando ela lhe fez a primeira pergunta: “Quantas vezes o ministro Antonio Palocci foi à casa?” Cinqüenta minutos depois, saíram. Pararam no Giraffas, uma cadeia de fast-food, onde Francenildo pediu o lanche mais barato. “Eu estava com uma fome danada. E você sabe como é pobre: depois que passa a hora de comer, não come mais nada.” Um fotógrafo do jornal tirou duas fotos do entrevistado, uma diante da casa do Lago Sul, a outra em frente de uma placa que avisava: “Perigo – Altamente inflamável”.

OBS: Dividi em 21 capítulos a história do caseiro Francenildo cujo sigilo bancário foi quebrado pelo governo do PT e cuja vida foi intimamente escancarada a ponto de nunca mais falar com o pai. Veja a história completa no link: Leitura essencial para esses tempos de mensalão e “Rosegate”: ahistória de como todos os poderes da República moeram o caseiro Francenildo.


1 – Francenildo dos Santos Costa nasceu em 1981 em Teresina, Capital do Piauí. Foi morar em Brasília em 1995. Nasceu o primeiro filho Thiago com a mulher Noelma em 1999
2 – Francenildo dos Santos Costa era caseiro da casa que foi alugada a um grupo de pessoas liderado pelo Ministro da Fazenda Antonio Palocci no início do ano 2003
3 – Francenildo viajou a Teresina no fim do ano 2003. Foi acertar o maior problema de sua vida, mas foi chamado de volta a Brasília para encerrar contrato de trabalho
4 – Francenildo, Palocci e os companheiros de Ribeirão Preto
5 – A entrevista com jornalista do Jornal O Estado de São Paulo foi marcante na vida do Senhor Francenildo e no Brasil
6 – Antonio Palocci tentou evitar a publicação da entrevista do Senhor Francenildo
7 – A mão de Deus promoveu o encontro de Francenildo e do advogado Wlicio Chaveiro Nascimento
8 – A manchete do Jornal O Estado de São Paulo dizia: Caseiro desmente Palocci e revela partilha de dinheiro na mansão
9 – Jornalista Helena Chagas atuou contra Francenildo e a favor do governo do PT
10 – Como foi a abordagem organizada pelo governo do PT para que numa próxima entrevista coletiva Francenildo negasse o teor da entrevista dada ao Estadão
11 – Antes do depoimento na CPI dos Bingos, Francenildo e seu advogado rezaram em voz alta. A verdade dita na CPI salvou Francenildo e o Brasil ganhou
12 – Objetivos e resultados da CPI dos Bingos
13 – Francenildo foi indevidamente incluído no Programa de Proteção à Testemunha
14 – Como e quando ocorreu a quebra do sigilo bancário de Francenildo
15 – Meia noite foi a hora da chegada de Francenildo ao abrigo que a Polícia Federal reservara a ele e a um traficante de drogas
16 – Como foi a atuação do governo do PT acionando a moenda que quebrou o sigilo do Senhor Francenildo dos Santos Costa
17 – Francenildo e seu advogado Wlicio marcaram entrevista coletiva à imprensa, pediram proteção divina (“*Senhor*, nos ajude a saber o que dizer, como dizer e quando dizer) e então denunciaram a quebra do sigilo bancário de Francenildo
18 – O governo do PT usou a Polícia Federal e a ingenuidade da oposição para tentar acobertar a quebra do sigilo bancário do Senhor Francenildo
19 – A Polícia Federal abriu inquérito por lavagem de dinheiro contra Francenildo. O advogado Wlicio disse: Procede, a mãe dele é lavadeira. Ministro Palocci pediu demissão
20 – Relatório da Polícia Federal não esclarece como a Caixa Econômica Federal obteve o CPF do Senhor Francenildo. Deduz-se que o governo do PT o conseguiu por intermédio dos seus tentáculos
21 – Francenildo moveu ação de danos morais contra a Caixa Econômica Federal e contra a Revista Época

Tags: Rosa Costa, governo do PT, João Moreira Salles, Jornal O Estado de São Paulo, Enéas de Alencastro Neto, Antero Paes de Barros, Teotônio Vilela Filho, Antonio Palocci, Andrei Meireles, CPI do Banestado, motorista Francisco das Chagas, João Gustavo de Abreu Coutinho, Polícia Federal

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