sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

4 – Francenildo, Palocci e os companheiros de Ribeirão Preto

Escrito por João Moreira Salles e publicado na Revista Piauí e no blog do Ricardo Setti: a história de como todos os poderes da República moeram o caseiro Francenildo.

A poucos quilômetros da casa, no Congresso, começava a entrar nos eixos a engrenagem que o moeria. A Comissão Parlamentar de Inquérito que investigava a atividade dos bingos acabava de chegar ao nome de Vladimir Poleto e Rogério Buratti. No dia 26 de janeiro de 2006, Francenildo acompanhou pela televisão o depoimento de Antonio Palocci à CPI. Num ambiente de cordialidade, o ministro respondeu a todas as perguntas. “Vossa Excelência não esteve nenhuma vez na casa que ele [Poleto] alugou no Lago Sul?”, perguntou o senador Garibaldi Alves, do PMDB. “Não, não estive nenhuma vez”, respondeu Palocci.

Poucos dias depois, no início de fevereiro, o advogado Rogério Buratti procurou o Ministério Público de São Paulo para reiterar com novos dados a acusação de que Palocci recebera propina de 50 mil reais por mês de uma empresa de Ribeirão Preto, na época em que era prefeito da cidade. Os dois haviam se desentendido por razões que extrapolavam os negócios e a política. A oposição afiou os dentes e mirou em Palocci, o homem a ser derrubado, o esteio da estabilidade econômica, o herdeiro presumido de Lula.

Na mesma semana, depois de meses sangrando por conta de escândalos vários, o presidente Lula ultrapassara os adversários nas pesquisas sobre a eleição presidencial de outubro. PFL e PSDB precisavam reagir. Dizia-se que a casa do Lago Sul era freqüentada por gente de negócios heterodoxos e hábitos mundanos. Se fosse possível confirmar a presença de Palocci ali, estaria provado que ele mentira à Comissão. Ouviram falar de um motorista que trabalhara para Vladimir Poleto.

No dia 8 de março, um senhor de rosto grave e gasto abriu a 61ª sessão da CPI dos Bingos: “Sou um homem humilde, motorista desempregado. Peço desculpas se não puder me expressar direito. Sou homem de poucos estudos, mas estou à disposição dos senhores para responder a qualquer pergunta.” Era Francisco das Chagas.

Na casa, Francenildo foi alertado pelo patrão, Luiz Antonio Guerra: “Olha, o motorista está lá na CPI. O próximo vai ser você.” O caseiro correu até um rádio. Francisco das Chagas contava aos parlamentares que garotas de programa iam à casa e afirmava ter visto o ministro Palocci lá – “mas não para festas”. Com trinta minutos de sessão, Garibaldi Alves perguntou: “Na casa havia duas empregadas e dizem que um caseiro, companheiro de uma delas. É isso?” Francisco das Chagas confirmou: “Isso mesmo, um caseiro.” E nada mais foi dito sobre Francenildo.

Era uma quinta-feira, 9 de março, o início de tudo.

OBS: Dividi em 21 capítulos a história do caseiro Francenildo cujo sigilo bancário foi quebrado pelo governo do PT e cuja vida foi intimamente escancarada a ponto de nunca mais falar com o pai. Veja a história completa no link: Leitura essencial para esses tempos de mensalão e “Rosegate”: ahistória de como todos os poderes da República moeram o caseiro Francenildo.


1 – Francenildo dos Santos Costa nasceu em 1981 em Teresina, Capital do Piauí. Foi morar em Brasília em 1995. Nasceu o primeiro filho Thiago com a mulher Noelma em 1999
2 – Francenildo dos Santos Costa era caseiro da casa que foi alugada a um grupo de pessoas liderado pelo Ministro da Fazenda Antonio Palocci no início do ano 2003
3 – Francenildo viajou a Teresina no fim do ano 2003. Foi acertar o maior problema de sua vida, mas foi chamado de volta a Brasília para encerrar contrato de trabalho
4 – Francenildo, Palocci e os companheiros de Ribeirão Preto
5 – A entrevista com jornalista do Jornal O Estado de São Paulo foi marcante na vida do Senhor Francenildo e no Brasil
6 – Antonio Palocci tentou evitar a publicação da entrevista do Senhor Francenildo
7 – A mão de Deus promoveu o encontro de Francenildo e do advogado Wlicio Chaveiro Nascimento
8 – A manchete do Jornal O Estado de São Paulo dizia: Caseiro desmente Palocci e revela partilha de dinheiro na mansão
9 – Jornalista Helena Chagas atuou contra Francenildo e a favor do governo do PT
10 – Como foi a abordagem organizada pelo governo do PT para que numa próxima entrevista coletiva Francenildo negasse o teor da entrevista dada ao Estadão
11 – Antes do depoimento na CPI dos Bingos, Francenildo e seu advogado rezaram em voz alta. A verdade dita na CPI salvou Francenildo e o Brasil ganhou
12 – Objetivos e resultados da CPI dos Bingos
13 – Francenildo foi indevidamente incluído no Programa de Proteção à Testemunha
14 – Como e quando ocorreu a quebra do sigilo bancário de Francenildo
15 – Meia noite foi a hora da chegada de Francenildo ao abrigo que a Polícia Federal reservara a ele e a um traficante de drogas
16 – Como foi a atuação do governo do PT acionando a moenda que quebrou o sigilo do Senhor Francenildo dos Santos Costa
17 – Francenildo e seu advogado Wlicio marcaram entrevista coletiva à imprensa, pediram proteção divina (“*Senhor*, nos ajude a saber o que dizer, como dizer e quando dizer) e então denunciaram a quebra do sigilo bancário de Francenildo
18 – O governo do PT usou a Polícia Federal e a ingenuidade da oposição para tentar acobertar a quebra do sigilo bancário do Senhor Francenildo
19 – A Polícia Federal abriu inquérito por lavagem de dinheiro contra Francenildo. O advogado Wlicio disse: Procede, a mãe dele é lavadeira. Ministro Palocci pediu demissão
20 – Relatório da Polícia Federal não esclarece como a Caixa Econômica Federal obteve o CPF do Senhor Francenildo. Deduz-se que o governo do PT o conseguiu por intermédio dos seus tentáculos
21 – Francenildo moveu ação de danos morais contra a Caixa Econômica Federal e contra a Revista Época

Tags: Francenildo dos Santos Costa, Vladimir Poleto, Rogério Buratti, CPI dos bingos, Antonio Palocci, Garibaldi Alves, casa no Lago Sul, Luiz Antonio Guerra, motorista Francisco das Chagas, governo do PT, João Moreira Salles

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