sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

20 – Relatório da Polícia Federal não esclarece como a Caixa Econômica Federal obteve o CPF do Senhor Francenildo. Deduz-se que o governo do PT o conseguiu por intermédio dos seus tentáculos

Escrito por João Moreira Salles e publicado na Revista Piauí e no blog do Ricardo Setti: a história de como todos os poderes da República moeram o caseiro Francenildo.

Francenildo foi convidado a dar entrevista no Fantástico e nos programas de Jô Soares, Ratinho, José Luiz Datena e Roberto Cabrini. Não foi a nenhum. Wlicio só aceitou um convite, feito por Miguel Reale Júnior, o advogado que lhe telefonara quando todos pensavam que Francenildo fosse venal. Tratava-se de um ato de desagravo na seção paulista da Ordem dos Advogados do Brasil. O evento teve até convite e nome de batismo: “Você está indignado?” Encimada por uma epígrafe de Soljenítsin, a convocatória avisava: “Com a presença do caseiro Francenildo Costa.”

De manhã bem cedo, meio contra a vontade, Francenildo embarcou com Wlicio. Em Congonhas, foram recepcionados por uma alcatéia de advogados. De olho nos fotógrafos, um procurador, “um cabra que falava assim meio cuspindo”, não desgrudava do braço de Francenildo. Seguia-o até mesmo no banheiro. Enquanto fazia xixi, o homem ligava do celular para uma jornalista: “Olha, estamos saindo do aeroporto.”

Foram até a OAB numa comitiva de três carros. De tão apertado, um dos advogados praticamente sentou no colo do caseiro. Entraram num auditório repleto e subiram no palco, onde ocuparam uma mesa composta pela alta cúpula do direito bandeirante – do presidente da OAB-SP, Luiz Flávio Borges D’Urso, a seu antecessor, Rubens Approbato Machado, entre vários outros dignitários. Havia também deputados de oposição, entre os quais Zulaiê Cobra, do PSDB.

Começaram os discursos, que, num crescendo irresistível, evoluíram do langoroso “Esse modesto homem que não sabe o que é cidadania nos deu uma aula de cidadania” ao estrepitoso “Fora, Lula! Fora, Lula!”, puxado por Zulaiê Cobra. Ergueu-se uma faixa que pedia o impeachment do presidente. A platéia ficou de pé e explodiu em urros: “Fora, Lula! Fora, Lula! Fora, Lula!”

Os advogados haviam agendado uma fieira de entrevistas em São Paulo, mas Wlicio e Francenildo se recusaram. O retorno a Brasília estava marcado para as sete da noite, e eles o adiantaram em duas horas. Foi a primeira e única vez que Francenildo esteve em São Paulo. “O aeroporto de lá é bonito”, diz.

Menos de trinta dias depois de instaurado o inquérito policial, o delegado Rodrigo Carneiro entregou à 10ª Vara da Justiça Federal um relatório em que listava os crimes de prevaricação, denunciação caluniosa, quebra de sigilo funcional e quebra de sigilo bancário. Acusados de pelo menos um desses crimes, foram indiciados Antonio Palocci Filho, Jorge Eduardo Levi Mattoso e Marcelo Amorim Netto.

O inquérito eximia Francenildo de qualquer crime. O delegado diria: “Fiquei inteiramente convencido da inocência dele.”

“Olha, tem uma coisa que ainda não ficou clara nessa história: quem quebrou o sigilo do caseiro?” A pergunta foi feita no último andar de um hotel em Brasília, em junho passado, por Antero Paes de Barros. Barba por fazer, olhos cansados, o ex-senador parece à deriva, um homem longe do poder. Ao ouvir uma das conclusões do inquérito policial – que o sigilo foi quebrado na Caixa -, Paes de Barros meneou a cabeça: “Nada. O sigilo do caseiro foi quebrado no Senado. Foi ali que começou. Não posso dizer que foi o Tião Viana que quebrou, porque provavelmente não foi. Mas pode escrever: quem levou a bomba para o Palocci foi ele. Foi Tião Viana quem estimulou o governo a quebrar o sigilo.”

O assessor parlamentar que trabalhou na CPI auxiliando a oposição faz uma afirmação semelhante: “A gente falava para os assessores do PT – eles também têm os deles, claro: ‘Esse chefe de vocês, hein? Quebrou o sigilo do caseiro…’ E eles riam. Todo mundo sabia que Tião Viana era o mentor da quebra. Tenho uma convicção forte disso, mas é claro que não dá para provar.” (Tião Viana não quis ser entrevistado.)

O relatório final do delegado Rodrigo Carneiro é claro quanto aos acontecimentos daquelas semanas de março. Mas ele não resolve um mistério: como Jorge Mattoso obteve o CPF de Francenildo e como soube que ele tinha conta na Caixa? O inquérito esclarece que, às 9h09 do dia 16 de março – *duas horas antes de Francenildo entregar seu CPF ao funcionário da CPI, e doze horas antes da quebra do seu sigilo bancário* -, os dados fiscais e tributários de Francenildo *dos Santos Costa* foram acessados pela Receita Federal. Esses dados não informavam se ele tinha dinheiro, mas revelavam algo mais importante, sem o que não se chegaria à sua conta: quanto pagava de CPMF e qual banco recolhia o tributo. O delegado Carneiro colheu depoimentos de todos os funcionários envolvidos no acesso, inclusive o do secretário da Receita, Jorge Rachid. Não conseguiu provar que houve motivação política nesse acesso.

“Se eu escrever que existe uma forte probabilidade de o CPF ter chegado a Mattoso através da quebra de sigilo fiscal na Receita, isso lhe soaria estranho?” A pergunta é feita a um agente federal que acompanhou de perto a investigação criminal. Ele sorri e, depois de uma pausa, responde calmamente: “Não.”

Por sua vez, o advogado de defesa de Antonio Palocci, José Roberto Batochio, disse “achar muito estranho” o fato de o sigilo ter sido quebrado meia hora depois de Francenildo haver entregue o cartão da Caixa ao delegado Damázio, da Polícia Federal.

OBS: Dividi em 21 capítulos a história do caseiro Francenildo cujo sigilo bancário foi quebrado pelo governo do PT e cuja vida foi intimamente escancarada a ponto de nunca mais falar com o pai. Veja a história completa no link: Leitura essencial para esses tempos de mensalão e “Rosegate”: a história de como todos os poderes da República moeram o caseiro Francenildo.

1 – Francenildo dos Santos Costa nasceu em 1981 em Teresina, Capital do Piauí. Foi morar em Brasília em 1995. Nasceu o primeiro filho Thiago com a mulher Noelma em 1999
2 – Francenildo dos Santos Costa era caseiro da casa que foi alugada a um grupo de pessoas liderado pelo Ministro da Fazenda Antonio Palocci no início do ano 2003
3 – Francenildo viajou a Teresina no fim do ano 2003. Foi acertar o maior problema de sua vida, mas foi chamado de volta a Brasília para encerrar contrato de trabalho
4 – Francenildo, Palocci e os companheiros de Ribeirão Preto
5 – A entrevista com jornalista do Jornal O Estado de São Paulo foi marcante na vida do Senhor Francenildo e no Brasil
6 – Antonio Palocci tentou evitar a publicação da entrevista do Senhor Francenildo
7 – A mão de Deus promoveu o encontro de Francenildo e do advogado Wlicio Chaveiro Nascimento
8 – A manchete do Jornal O Estado de São Paulo dizia: Caseiro desmente Palocci e revela partilha de dinheiro na mansão
9 – Jornalista Helena Chagas atuou contra Francenildo e a favor do governo do PT
10 – Como foi a abordagem organizada pelo governo do PT para que numa próxima entrevista coletiva Francenildo negasse o teor da entrevista dada ao Estadão
11 – Antes do depoimento na CPI dos Bingos, Francenildo e seu advogado rezaram em voz alta. A verdade dita na CPI salvou Francenildo e o Brasil ganhou
12 – Objetivos e resultados da CPI dos Bingos
13 – Francenildo foi indevidamente incluído no Programa de Proteção à Testemunha
14 – Como e quando ocorreu a quebra do sigilo bancário de Francenildo
15 – Meia noite foi a hora da chegada de Francenildo ao abrigo que a Polícia Federal reservara a ele e a um traficante de drogas
16 – Como foi a atuação do governo do PT acionando a moenda que quebrou o sigilo do Senhor Francenildo dos Santos Costa
17 – Francenildo e seu advogado Wlicio marcaram entrevista coletiva à imprensa, pediram proteção divina (“*Senhor*, nos ajude a saber o que dizer, como dizer e quando dizer) e então denunciaram a quebra do sigilo bancário de Francenildo
18 – O governo do PT usou a Polícia Federal e a ingenuidade da oposição para tentar acobertar a quebra do sigilo bancário do Senhor Francenildo
19 – A Polícia Federal abriu inquérito por lavagem de dinheiro contra Francenildo. O advogado Wlicio disse: Procede, a mãe dele é lavadeira. Ministro Palocci pediu demissão
20 – Relatório da Polícia Federal não esclarece como a Caixa Econômica Federal obteve o CPF do Senhor Francenildo. Deduz-se que o governo do PT o conseguiu por intermédio dos seus tentáculos
21 – Francenildo moveu ação de danos morais contra a Caixa Econômica Federal e contra a Revista Época

Tags: Francenildo, Fantástico, Jô Soares, Ratinho, José Luiz Datena, Roberto Cabrini, Wlicio, Miguel Reale Júnior, José Roberto Batochio, Antonio Palocci Filho, Jorge Eduardo Levi Mattoso, Marcelo Amorim Netto, Jorge Rachid, Receita Federal, Antero Paes de Barros, OAB-SP, Luiz Flávio Borges D’Urso, Rubens Approbato Machado, Zulaiê Cobra, Tião Viana, Rodrigo Carneiro, governo do PT, João Moreira Salles

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