sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

19 – A Polícia Federal abriu inquérito por lavagem de dinheiro contra Francenildo. O advogado Wlicio disse: Procede, a mãe dele é lavadeira. Ministro Palocci pediu demissão

Escrito por João Moreira Salles e publicado na Revista Piauí e no blog do Ricardo Setti: a história de como todos os poderes da República moeram o caseiro Francenildo.

Nos dias seguintes à divulgação dos extratos, aumentou a pressão sobre Palocci e Francenildo. De um lado, havia o crime da quebra de sigilo; de outro, a origem do dinheiro mandado por um pai que não se dizia pai. “Eu ligava, e ninguém me atendia”, recorda-se Wlicio, “ninguém mais confiava em mim.” Só recebeu um telefonema de apoio: o jurista Miguel Reale Júnior, de São Paulo, ligou para empenhar solidariedade e colocar-se à disposição.

Na segunda-feira, 20 de março, o telefone tocou de novo. Dessa vez era um jornalista: “A Polícia Federal acaba de indiciar o Francenildo por lavagem de dinheiro. Você tem alguma coisa a dizer?”

A comunicação feita ao Coaf havia seguido o seu curso – mas numa velocidade espantosa. “O banco aciona o Coaf, o Coaf investiga, e comunica à Polícia Federal, que pede à Justiça a quebra de sigilo”, conta um especialista do mercado financeiro versado na matéria. “Esse processo geralmente leva de sessenta a noventa dias. Dependendo do interesse político, pode ser encurtado para dois meses.” A comunicação da Caixa levou menos de 24 horas para cumprir esse percurso. O Coaf sustenta no inquérito policial que existem exceções a esses prazos; de fato, este é um deles.

Na CPI, membros do governo também exigiram a quebra de sigilo de Francenildo. Tião Viana declarou: “Quero pedir tudo: cartão de crédito, poupança e conta corrente. De janeiro para cá*!*” “Vai arrombar a porta aberta?”, revidou o senador Antonio Carlos Magalhães, de bate-pronto. Wlicio, ao ser informado do pedido de Tião Viana, mandou avisar: “Eles querem abrir o sigilo que já foi quebrado ilegalmente? O Francenildo autoriza.”

Na internet começaram a circular imagens de Francenildo com sacos de dinheiro na mão. Um blog publicou: O caseiro sem caráter, que na infância via todos os coleguinhas pronunciarem o nome do pai, um dia disse: ‘Chega, não quero mais ser bastardo!’ E arranjou um suposto pai para comprar seu silêncio. O Jornal do Brasil on-line expôs o seu histórico de crédito: Nome sujo no SPC. Contas pendentes na C&A (410 reais), na Rival Calçados (114 reais), no Ponto Frio (63 reais), na financeira Losango (108 reais).

Em São Paulo, dois assessores do PT foram à Polícia Federal para dizer que um homem chamado Edson Tavares da Silva garantia ter recebido uma proposta de Francenildo: se ele dissesse que Palocci freqüentava a casa, os dois dividiriam um bom dinheiro. A polícia intimou o homem, que se contradisse durante o interrogatório. A revista Carta Capital mandou um repórter ao Piauí, para investigar a origem do dinheiro do pai de Francenildo.

Os repórteres não o largavam. Descobriram onde morava. Conversaram com vizinhos, mostraram a fachada de sua casa, disseram quanto pagava de aluguel. “Um dia eu fui até o mercadinho e ouvi alguém dizer: ‘Esse cabra está com muito dinheiro na conta, era o caseiro do Palocci.’” Francenildo começou a ter medo de ser assaltado no próprio bairro ou, pior, “que pegassem o meu menino”. A mulher, Noelma, foi à delegacia pedir ajuda e ouviu do delegado que ele não podia fazer nada, mas sugeria que deixassem o lote, pelo menos até que a poeira baixasse: “Porque esse negócio é perigoso.” Acabaram se mudando. Noelma deixou de falar com o marido.

Seis dias depois de ter seu sigilo exposto na imprensa, Francenildo foi intimado a depor na Polícia Federal. Conheceu então o delegado responsável pela investigação dos dois fatos: quebra de sigilo e indícios de dinheiro suspeito na conta. Chamava-se Rodrigo Carneiro, era jovem, ponderado e técnico. Fazia pouco tempo que estava na PF e esse era o seu primeiro grande caso.

“Quero saber em que condição o meu cliente vai ser ouvido aqui hoje”, perguntou-lhe Wlicio: “Na de vítima ou de acusado?” O delegado respondeu: “Nem de vítima, nem de acusado, mas de investigado.” “O que é a mesma coisa que indiciado. Só muda a palavra”, replicou Wlicio. “Qual o crime?” O delegado se ajeitou na cadeira e, meio sem graça, respondeu: “Lavagem de dinheiro.” O advogado desabafou: “Procede. A mãe dele é lavadeira.”

Carneiro foi preciso no cumprimento do dever. Havia a denúncia do Coaf e a investigação era um imperativo funcional. Ao longo do processo, pediria à Justiça autorização para quebrar o sigilo bancário de Francenildo – mais uma vez, agora legalmente.

Ainda que Carneiro não demonstrasse nada, Wlicio intuiu que o delegado achava a denúncia absurda. No Código Penal, lavagem de dinheiro pressupõe crimes antecedentes de “tráfico de drogas, contrabando de armas, extorsão mediante seqüestro, crime contra o sistema financeiro ou a administração pública e terrorismo.” E o delegado tinha diante de si um caseiro desempregado, com 25 mil reais na conta.

Ao fim do depoimento, Carneiro sugeriu que os dois saíssem pelos fundos, para evitar o constrangimento da imprensa. Wlicio balançou a cabeça: “Não. Nós vamos sair pela porta da frente. Se estamos sendo indiciados por lavagem de dinheiro, é preciso dizer alguma coisa.” Diante da multidão de repórteres, Francenildo disse: “Eu peço àqueles que quebraram o meu sigilo bancário que quebrem também o meu sigilo eleitoral. Aí vão ver que um simples caseiro votou no operário, que agora está lá em cima.”

Ao tentar furar o bloqueio de câmeras e microfones, Francenildo perdeu um sapato. Descalço de um pé, entrou no carro a tempo de ainda ouvir uma última pergunta: “Você não acha que vender tua paternidade é um ato imoral?”

No Congresso, a senadora Ideli Salvatti acusou Francenildo de visitar gabinetes da oposição. Insinuava que “esse rapaz” provavelmente estivera ali muitas vezes – e não apenas uma -, decerto para pedir dinheiro; exigia, portanto, que lhe fossem entregues as fitas das câmeras de segurança do Senado. Uma reunião na Corregedoria foi convocada para apurar a denúncia. Mais uma vez, Wlicio e Francenildo se viam diante dos senadores. O corregedor, senador Romeu Tuma, não atendeu ao pedido de Salvatti, mas contou: “Fui lá na sala de controle e revi as fitas. A acusação era infundada. O rapaz só tinha vindo uma vez ao Senado, no dia em que o levaram no gabinete do Antero.”

Foram dois dias de acareação. Além de Francenildo, convocaram o corretor João Gustavo Coutinho e Enéas de Alencastro, o assessor parlamentar que trouxera o caseiro para o Senado. Houve manifestações de solidariedade -”Acho que temos que ter a coragem de votar por unanimidade uma comenda a vossa senhoria, que é, sim, o verdadeiro cidadão brasileiro”, propôs Antero Paes de Barros – e promessas: “Nós devemos verificar a possibilidade de conseguir a casa própria e um emprego definitivo para ele”, sugeriu Pedro Simon.

No dia 27 de março, onze dias depois da quebra do sigilo bancário de Francenildo e duas semanas depois da entrevista ao Estadão, Antonio Palocci pediu demissão do cargo de ministro.

OBS: Dividi em 21 capítulos a história do caseiro Francenildo cujo sigilo bancário foi quebrado pelo governo do PT e cuja vida foi intimamente escancarada a ponto de nunca mais falar com o pai. Veja a história completa no link: Leitura essencial para esses tempos de mensalão e “Rosegate”: ahistória de como todos os poderes da República moeram o caseiro Francenildo.

1 – Francenildo dos Santos Costa nasceu em 1981 em Teresina, Capital do Piauí. Foi morar em Brasília em 1995. Nasceu o primeiro filho Thiago com a mulher Noelma em 1999
2 – Francenildo dos Santos Costa era caseiro da casa que foi alugada a um grupo de pessoas liderado pelo Ministro da Fazenda Antonio Palocci no início do ano 2003
3 – Francenildo viajou a Teresina no fim do ano 2003. Foi acertar o maior problema de sua vida, mas foi chamado de volta a Brasília para encerrar contrato de trabalho
4 – Francenildo, Palocci e os companheiros de Ribeirão Preto
5 – A entrevista com jornalista do Jornal O Estado de São Paulo foi marcante na vida do Senhor Francenildo e no Brasil
6 – Antonio Palocci tentou evitar a publicação da entrevista do Senhor Francenildo
7 – A mão de Deus promoveu o encontro de Francenildo e do advogado Wlicio Chaveiro Nascimento
8 – A manchete do Jornal O Estado de São Paulo dizia: Caseiro desmente Palocci e revela partilha de dinheiro na mansão
9 – Jornalista Helena Chagas atuou contra Francenildo e a favor do governo do PT
10 – Como foi a abordagem organizada pelo governo do PT para que numa próxima entrevista coletiva Francenildo negasse o teor da entrevista dada ao Estadão
11 – Antes do depoimento na CPI dos Bingos, Francenildo e seu advogado rezaram em voz alta. A verdade dita na CPI salvou Francenildo e o Brasil ganhou
12 – Objetivos e resultados da CPI dos Bingos
13 – Francenildo foi indevidamente incluído no Programa de Proteção à Testemunha
14 – Como e quando ocorreu a quebra do sigilo bancário de Francenildo
15 – Meia noite foi a hora da chegada de Francenildo ao abrigo que a Polícia Federal reservara a ele e a um traficante de drogas
16 – Como foi a atuação do governo do PT acionando a moenda que quebrou o sigilo do Senhor Francenildo dos Santos Costa
17 – Francenildo e seu advogado Wlicio marcaram entrevista coletiva à imprensa, pediram proteção divina (“*Senhor*, nos ajude a saber o que dizer, como dizer e quando dizer) e então denunciaram a quebra do sigilo bancário de Francenildo
18 – O governo do PT usou a Polícia Federal e a ingenuidade da oposição para tentar acobertar a quebra do sigilo bancário do Senhor Francenildo
19 – A Polícia Federal abriu inquérito por lavagem de dinheiro contra Francenildo. O advogado Wlicio disse: Procede, a mãe dele é lavadeira. Ministro Palocci pediu demissão
20 – Relatório da Polícia Federal não esclarece como a Caixa Econômica Federal obteve o CPF do Senhor Francenildo. Deduz-se que o governo do PT o conseguiu por intermédio dos seus tentáculos
21 – Francenildo moveu ação de danos morais contra a Caixa Econômica Federal e contra a Revista Época

Tags: Francenildo, Wlicio, Demissão de Palocci, lavagem de dinheiro, Antero Paes de Barros, Pedro Simon, Enéas de Alencastro, João Gustavo Coutinho, Ideli Salvatti, Romeu Tuma, Edson Tavares da Silva, a mulher Noelma, Antonio Carlos Magalhães, Tião Viana, Miguel Reale Junior, Corregedoria do Senado, Rodrigo Carneiro, governo do PT, João Moreira Salles

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