sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

18 – O governo do PT usou a Polícia Federal e a ingenuidade da oposição para tentar acobertar a quebra do sigilo bancário do Senhor Francenildo

Escrito por João Moreira Salles e publicado na Revista Piauí e no blog do Ricardo Setti: a história de como todos os poderes da República moeram o caseiro Francenildo.

Em pé, encostado na janela aberta de sua sala para não empestear o ambiente com os cigarros que fuma sem parar, Wlicio pergunta: “Você imagina o que teria acontecido se o Francenildo não tivesse saído do programa de proteção? A notícia da Época saiu na sexta. Seria, no mínimo, um fim de semana inteiro sem explicação. Sexta, sábado, domingo, segunda. 1 a 0, 2 a 0, 3 a 0, 4 a 0 para o Palocci. Quatro dias é muita coisa. Para explicar tudo depois, seria bem mais difícil. Por isso eles cometeram o erro: pressa. Se tivessem esperado até segunda, não haveria crime algum. A Caixa teria informado o Banco Central sobre a movimentação atípica na conta do Francenildo, o BC teria repassado a informação para o Coaf, que por sua vez teria expedido um ofício para a PF pedindo a quebra de sigilo. Foi soberba. Eles não quiseram esperar um fim de semana, e talvez não contassem que ele fosse deixar tão cedo o programa. Na cabeça de quem fez isso, o Francenildo estava incomunicável, sob a tutela da PF.”

Em junho passado, o senador Efraim Morais, que presidira a já extinta CPI dos Bingos, recordou: “O rapaz estava com medo. Eu pedi proteção da polícia. Não havia risco iminente, mas aquilo era uma bomba. Agora, não me lembro de ter requisitado a inclusão dele no programa de proteção.” Mas requisitou. Naquele 16 de março de 2006, um ofício assinado por Morais foi expedido ao diretor-geral da Polícia Federal, pedindo “proteção do referido depoente e seus familiares”, com menção explícita à lei que rege o Programa de Proteção à Testemunha.

A sala do delegado Wilson Damázio é ampla e está repleta de diplomas. Nas paredes, há também placas do FBI e de outras agências americanas de combate ao crime com as quais ele estabeleceu laços ao longo da carreira. Numa foto o delegado sorri ao lado do presidente Lula. *Damázio* é grande, *cordato* e volumoso. Aparenta 50 e poucos anos e tem um rosto redondo, adornado por um bigodinho fino que saiu de moda há décadas.

Ele se sentou na cadeira de espaldar alto e abriu a conversa: “Então você veio falar do caseiro? Antes da gente começar, me diz uma coisa: aquela história do dinheiro que apareceu na conta dele ficou muito mal explicada, não?” Ao ouvir que a própria Polícia Federal inocentara Francenildo, Damázio assentiu: “Ah, então está resolvido. É que não acompanhei as diligências. Vamos lá. O que você quer saber?”

O programa de proteção foi criado para salvaguardar a vida de pessoas em situação-limite. Fazia sentido incluir Francenildo num programa tão extremo? Damázio se reclina no encosto da poltrona e pondera antes de falar: “Isso cabe à CPI responder. Veja, ele estava derrubando o sucessor direto do Lula, alguém podia achar que de fato havia algum risco.” A frase sai sem convicção, e ele percebe. Dobra-se para a frente, apóia os cotovelos pesados na mesa, espalma as mãos na testa e fecha os olhos. Então fala, com palavras escolhidamente burocráticas: “Não quero que você ponha palavras na minha boca. Então deixa eu dizer: ‘Na qualidade de autoridade administrativa responsável pela execução da medida assecuratória da testemunha, não me compete avaliar se seria o caso de incluir a pessoa no programa.’” Abre os braços, espalma as mãos nas extremidades da mesa e olha para seu interlocutor: “Compreendeu?”

Um funcionário do Congresso que trabalhou em inúmeras CPIs garante que nunca viu ninguém sair de nenhuma sessão sob o peso de uma ameaça de morte. “Afinal, o sujeito já falou o que tinha pra falar.”

Ao tentar sugerir ao país que o homem que comprometera Antonio Palocci corria risco de vida, a oposição, com histrionice e jogo de cena, acabou por jogar Francenildo num programa que, ironicamente, só servia aos interesses do governo.

OBS: Dividi em 21 capítulos a história do caseiro Francenildo cujo sigilo bancário foi quebrado pelo governo do PT e cuja vida foi intimamente escancarada a ponto de nunca mais falar com o pai. Veja a história completa no link: Leitura essencial para esses tempos de mensalão e “Rosegate”: ahistória de como todos os poderes da República moeram o caseiro Francenildo.

1 – Francenildo dos Santos Costa nasceu em 1981 em Teresina, Capital do Piauí. Foi morar em Brasília em 1995. Nasceu o primeiro filho Thiago com a mulher Noelma em 1999
2 – Francenildo dos Santos Costa era caseiro da casa que foi alugada a um grupo de pessoas liderado pelo Ministro da Fazenda Antonio Palocci no início do ano 2003
3 – Francenildo viajou a Teresina no fim do ano 2003. Foi acertar o maior problema de sua vida, mas foi chamado de volta a Brasília para encerrar contrato de trabalho
4 – Francenildo, Palocci e os companheiros de Ribeirão Preto
5 – A entrevista com jornalista do Jornal O Estado de São Paulo foi marcante na vida do Senhor Francenildo e no Brasil
6 – Antonio Palocci tentou evitar a publicação da entrevista do Senhor Francenildo
7 – A mão de Deus promoveu o encontro de Francenildo e do advogado Wlicio Chaveiro Nascimento
8 – A manchete do Jornal O Estado de São Paulo dizia: Caseiro desmente Palocci e revela partilha de dinheiro na mansão
9 – Jornalista Helena Chagas atuou contra Francenildo e a favor do governo do PT
10 – Como foi a abordagem organizada pelo governo do PT para que numa próxima entrevista coletiva Francenildo negasse o teor da entrevista dada ao Estadão
11 – Antes do depoimento na CPI dos Bingos, Francenildo e seu advogado rezaram em voz alta. A verdade dita na CPI salvou Francenildo e o Brasil ganhou
12 – Objetivos e resultados da CPI dos Bingos
13 – Francenildo foi indevidamente incluído no Programa de Proteção à Testemunha
14 – Como e quando ocorreu a quebra do sigilo bancário de Francenildo
15 – Meia noite foi a hora da chegada de Francenildo ao abrigo que a Polícia Federal reservara a ele e a um traficante de drogas
16 – Como foi a atuação do governo do PT acionando a moenda que quebrou o sigilo do Senhor Francenildo dos Santos Costa
17 – Francenildo e seu advogado Wlicio marcaram entrevista coletiva à imprensa, pediram proteção divina (“*Senhor*, nos ajude a saber o que dizer, como dizer e quando dizer) e então denunciaram a quebra do sigilo bancário de Francenildo
18 – O governo do PT usou a Polícia Federal e a ingenuidade da oposição para tentar acobertar a quebra do sigilo bancário do Senhor Francenildo
19 – A Polícia Federal abriu inquérito por lavagem de dinheiro contra Francenildo. O advogado Wlicio disse: Procede, a mãe dele é lavadeira. Ministro Palocci pediu demissão
20 – Relatório da Polícia Federal não esclarece como a Caixa Econômica Federal obteve o CPF do Senhor Francenildo. Deduz-se que o governo do PT o conseguiu por intermédio dos seus tentáculos
21 – Francenildo moveu ação de danos morais contra a Caixa Econômica Federal e contra a Revista Época

Tags: Francenildo, Wlicio, Polícia Federal, Wilson Damázio, CPI dos Bingos, Efraim Morais, Banco Central, Antonio Palocci, governo do PT, João Moreira Salles

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