sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

17 – Francenildo e seu advogado Wlicio marcaram entrevista coletiva à imprensa, pediram proteção divina (“*Senhor*, nos ajude a saber o que dizer, como dizer e quando dizer) e então denunciaram a quebra do sigilo bancário de Francenildo

Escrito por João Moreira Salles e publicado na Revista Piauí e no blog do Ricardo Setti: a história de como todos os poderes da República moeram o caseiro Francenildo.

“Eu senti como se fosse uma facada”, diz Wlicio. “O Andrei começou a ler depósito por depósito, 10 mil num mês, quase 10 mil no outro, 5 mil no seguinte. E eu ali, feito um babaca, sem saber o que dizer. Porra, eu tinha pegado o caso de graça e agora isso? O cara tava levando grana?” Meireles listava, Wlicio ia anotando num bloquinho: CEF, ag. 0674, Lago Sul; 02/01 saldo: R$ 224. 06/01: dep 10.000,00… Extrato: 20h58min21s. O repórter da Época conseguia agora, finalmente, pular à frente de uma história que poucos dias antes lhe caíra no colo e ele deixara escapar porque estava no dentista.

“Andrei, eu não tenho idéia do que é isso. Mas uma coisa eu te garanto: se tiver sacanagem, eu vou ser o primeiro a pôr a boca no trombone.” Wlicio desligou o telefone e enterrou o rosto nas mãos. “Puta que o pariu! Depois de tanta aventura, depois do Congo, onde é que eu fui me meter…” Já imaginava o que todos diriam: ou era idiota, por não saber de nada, ou era *bandido*, por participar da maracutaia. “Liguei para o Nildo já metendo o pé na goela: ‘Que caralho de dinheiro é esse na tua conta, meu irmão? Eu não estou te cobrando nada e você me apronta uma dessas?’”

“Quando o telefone tocou e eu ouvi a voz do Wlicio, foi duro”, lembra Francenildo. “Era voz de briga, os termos eram feios. Pensei: ‘Agora a minha vida acabou. Quem estava do meu lado vai embora.’”

E então explicou.

Cinco meses antes, havia tomado um avião e viajara a Teresina com uma coisa na cabeça: falar com o pai e pedir para ser registrado como filho. “Por quê?”, perguntou Wlicio. “Ué, porque eu tenho um pai!”, respondeu espantado *o caseiro*.

Ao chegar lá, esperou uns dias e, num domingo, foi à garagem de ônibus da empresa Soares. Sabia, por amigos, que o homem com quem queria falar costumava passar os domingos trabalhando. A sala dele estava aberta e Francenildo entrou. Um senhor atarracado levantou a cabeça: “É reclamação?” Francenildo ficou um instante parado antes de dizer: “Não está me reconhecendo, não?” O homem não compreendeu. Houve um silêncio. “Sou o filho da Benta, sou teu filho, o Francenildo.” O pai se levantou. Era um homem já na casa dos 70 anos, de semblante duro e rosto pedregoso. “O que você veio fazer aqui?”, perguntou. O filho respondeu: “Você sabe o que eu vim fazer aqui.”

Eurípedes Soares da Silva começou a gritar. “Ele grita até com o vento”, conta o filho. Saiu porta afora e ficou dando voltas no pátio, até finalmente voltar à sala e perguntar. “Você quer uma ajuda?” “Eu quero um registro”, respondeu Francenildo. Ameaçou-o com uma ação de paternidade e saiu.

Dois dias depois, recebeu o recado de que o pai queria conversar. Encontraram-se na beira de um posto de gasolina. Eurípedes lhe propôs que aceitasse um dinheiro para “dar um jeito na vida” e que voltasse dali a um ano. Era o tempo de que precisava para acertar a vida familiar. Tinha esposa e filhos, o assunto era delicado. Ao longo de dois outros encontros, discutiram cifras – Francenildo chegou a pedir cem mil reais – e chegaram a um acordo: o pai lhe daria 30 mil reais. A cada dia 5 do mês, depositaria 5 mil na conta do filho, até completar o valor. Adiantou 10 mil em dinheiro. No escritório, entregou os maços – “Me pediu pra contar” – e levou Francenildo à Caixa, para fazerem o depósito. Depois foram almoçar juntos.

“Vê só”, concluiu Francenildo, “eu com oito anos tinha ido lá no pai, ele me deu um dinheirinho e me mandou embora. Depois, bem mais tarde, voltei lá, insisti, quis entender ele e que ele me entendesse, aí conversamos, ele me levou para almoçar e chegou a me dar a mão, fiquei sentindo uma coisa boa de que eu tinha pai. Eu estava feliz porque ele disse: ‘No dia que você voltar aqui no Piauí, na casa da tua mãe, você vem aqui na garagem, vem me visitar.’ Isso me deixou meio alegre. A única coisa que ele pediu foi para eu não falar do dinheiro antes dele acertar com a família.”

Wlicio ouviu a explicação. No pé da mesma página em que anotara as informações de Andrei Meireles, escreveu: Expresso Soares. Teresina. Eurípedes Soares. (86) 3249-21… “Você tem os extratos?”, perguntou. Sim, tinha.

E então Wlicio teve o estalo, a iluminação: “Você tirou o extrato ontem na PF?”, perguntou. “Não”, respondeu o caseiro “Você autorizou alguém a tirar o extrato pra você?” Ao ouvir outra negativa, o coração disparou: “Separa todos os depósitos que eu vou te buscar. Acho que acabamos de ser salvos pelo gongo.”

Pela primeira vez, a moenda começava a moer em outra direção.

Wlicio telefonou a Andrei Meireles, contou o que acabara de ouvir e deu o telefone de Eurípedes. “Você podia confirmar tudo e não publicar a história”, pediu. “É coisa pessoal, ninguém vai levar em conta, só vão falar que ele tem dinheiro e vai ficar ruim pra ele.” Antes de desligar, passou uma informação relevante: “Eu disse que não foi o Nildo que tirou o extrato.”

Francenildo, aflito, correu para comprar um cartão e ligar para o pai em Teresina. Tentou três vezes. Na quarta, conseguiu. “Alô?” Era a voz surpreendentemente suave do pai. “Eurípedes” – nunca teve liberdade de chamá-lo de pai -, “descobriram o dinheiro na minha conta e vão procurar você”, disse. Sem saber direito quem eram eles, e no que o filho estava envolvido, Eurípedes respondeu: “Deixa eles ligarem.” Foi a última vez que Francenildo conversou com o pai.

Andrei Meireles falou com Eurípedes Soares, que confirmou os depósitos, mas negou a paternidade. Às 18h45, sem qualquer aviso prévio, a revista Época inaugurava às pressas o seu primeiro blog. Meireles assinava o primeiro post:

Extratos revelam depósitos para caseiro – O caseiro Francenildo dos Santos Costa, que ganhou fama ao aparecer na CPI dos Bingos esta semana acusando o ministro Antonio Palocci de freqüentar a “casa do lobby”, montada por lobistas de Ribeirão Preto, pode ser um trabalhador humilde, como foi descrito diversas vezes, mas está longe de passar por dificuldades financeiras…

A notícia não fazia menção à origem dos extratos.

Vinte e cinco minutos depois de a notícia entrar na internet, Jorge Mattoso entregou uma cópia xerox dos extratos de Francenildo à Superintendência de Controle Interno da Caixa, para que fosse remetida ao Coaf. “Saiu numa revista, é preciso comunicar aos órgãos competentes”, disse ao funcionário que recebeu as cópias. Palocci destruiria os originais num triturador depois de ter certeza de que a comunicação chegara ao Coaf.

Era o início da operação para dar amparo legal à quebra de sigilo.

O telefone de Wlicio “parecia que estava com febre”. Toda a imprensa queria saber de onde surgira tanto dinheiro. Eram imensas as desconfianças sobre a “teoria do filho bastardo”, como alguns jornalistas começaram a se referir à relação entre Eurípedes Soares e Francenildo. O advogado achou melhor convocar uma coletiva para aquela mesma noite, às 21 horas, no hotel em que morava. Saiu para buscar seu cliente em São Sebastião.

Francenildo estava abalado, sabia que tinha rompido o trato com o pai. Para piorar, a caminho do hotel, soube um pouco mais da gravidade da situação: “Era tudo o que eles queriam”, ouviu do advogado.

“Foi nessa hora que o Nildo entregou os pontos”, contou Wlicio. “Ele começou a chorar, um choro convulsivo. Disse que não ia se perdoar se a avó morresse. Ela entrava em estado de choque toda vez que ele aparecia na televisão. Dei a mão para ele e pela segunda vez nós começamos a rezar dentro do carro. Fechei o vidro pra não atrapalhar. Dessa vez, era uma reza aos berros, a gente rezava e chorava, chorava e rezava.” De mãos erguidas, triscando o teto, pediam aos soluços: “*Senhor*, nos ajude a saber o que dizer, como dizer e quando dizer.”

Chegaram ao hotel uma hora antes da coletiva e subiram para o terraço. Francenildo olhava em volta e só encontrava olhares de desconfiança. “Ninguém acredita em mim, minha avó está passando mal, e até o Lula falou ontem que eu era um simples caseiro”, pensou. (Não há registro de que Lula tenha dito essa frase.) “Foi quando eu senti que não tinha valor. Tive vontade de largar tudo. Pensei em duas coisas: fazer eu mesmo, com uma faca ou uma corda, ou me atirar embaixo de um carro. Aí pensei no Thiago. Eu cresci sem pai e não ia fazer a mesma coisa com ele. O menino me salvou.”

Às nove horas da noite, com toda a imprensa diante deles, Wlicio começou a falar: “Não vamos responder a nada antes de explicar a origem do dinheiro.” Deu os esclarecimentos, mostrando recibo por recibo. Francenildo se mantinha calado, olhos inchados. “Está o.k.? Está claro?”, quis saber Wlicio. “Então, antes de abrir, eu tenho uma pergunta para vocês: gostaria de saber quem retirou o extrato do meu cliente, já que às 20h58min21s ele se encontrava em poder da Polícia Federal, no Programa de Proteção à Testemunha.”

Cabeças começaram a se mexer. Bloquinhos foram freneticamente folheados, à cata de uma página nova. Falava-se alto, ninguém mais se entendia. Do meio da confusão, alguém gritou: “Você está acusando a Polícia Federal de ter violado o sigilo bancário do seu cliente?” “Não”, respondeu Wlicio. “Estou apenas dizendo que ele não retirou esse extrato. E que, portanto, o sigilo dele foi violado.”

A entrevista terminou perto das 22 horas. Acompanhados por um segurança do hotel, os dois foram em direção ao elevador. Rosa Costa, a jornalista do Estadão, e outros dois repórteres que haviam sido * corretos* ao longo daqueles dias entraram com eles. Quando a porta se fechava, Andrei Meireles tentou entrar. Wlicio se virou para o segurança e disse: “Esse não.”

OBS: Dividi em 21 capítulos a história do caseiro Francenildo cujo sigilo bancário foi quebrado pelo governo do PT e cuja vida foi intimamente escancarada a ponto de nunca mais falar com o pai. Veja a história completa no link: Leitura essencial para esses tempos de mensalão e “Rosegate”: ahistória de como todos os poderes da República moeram o caseiro Francenildo.

1 – Francenildo dos Santos Costa nasceu em 1981 em Teresina, Capital do Piauí. Foi morar em Brasília em 1995. Nasceu o primeiro filho Thiago com a mulher Noelma em 1999
2 – Francenildo dos Santos Costa era caseiro da casa que foi alugada a um grupo de pessoas liderado pelo Ministro da Fazenda Antonio Palocci no início do ano 2003
3 – Francenildo viajou a Teresina no fim do ano 2003. Foi acertar o maior problema de sua vida, mas foi chamado de volta a Brasília para encerrar contrato de trabalho
4 – Francenildo, Palocci e os companheiros de Ribeirão Preto
5 – A entrevista com jornalista do Jornal O Estado de São Paulo foi marcante na vida do Senhor Francenildo e no Brasil
6 – Antonio Palocci tentou evitar a publicação da entrevista do Senhor Francenildo
7 – A mão de Deus promoveu o encontro de Francenildo e do advogado Wlicio Chaveiro Nascimento
8 – A manchete do Jornal O Estado de São Paulo dizia: Caseiro desmente Palocci e revela partilha de dinheiro na mansão
9 – Jornalista Helena Chagas atuou contra Francenildo e a favor do governo do PT
10 – Como foi a abordagem organizada pelo governo do PT para que numa próxima entrevista coletiva Francenildo negasse o teor da entrevista dada ao Estadão
11 – Antes do depoimento na CPI dos Bingos, Francenildo e seu advogado rezaram em voz alta. A verdade dita na CPI salvou Francenildo e o Brasil ganhou
12 – Objetivos e resultados da CPI dos Bingos
13 – Francenildo foi indevidamente incluído no Programa de Proteção à Testemunha
14 – Como e quando ocorreu a quebra do sigilo bancário de Francenildo
15 – Meia noite foi a hora da chegada de Francenildo ao abrigo que a Polícia Federal reservara a ele e a um traficante de drogas
16 – Como foi a atuação do governo do PT acionando a moenda que quebrou o sigilo do Senhor Francenildo dos Santos Costa
17 – Francenildo e seu advogado Wlicio marcaram entrevista coletiva à imprensa, pediram proteção divina (“*Senhor*, nos ajude a saber o que dizer, como dizer e quando dizer) e então denunciaram a quebra do sigilo bancário de Francenildo
18 – O governo do PT usou a Polícia Federal e a ingenuidade da oposição para tentar acobertar a quebra do sigilo bancário do Senhor Francenildo
19 – A Polícia Federal abriu inquérito por lavagem de dinheiro contra Francenildo. O advogado Wlicio disse: Procede, a mãe dele é lavadeira. Ministro Palocci pediu demissão
20 – Relatório da Polícia Federal não esclarece como a Caixa Econômica Federal obteve o CPF do Senhor Francenildo. Deduz-se que o governo do PT o conseguiu por intermédio dos seus tentáculos
21 – Francenildo moveu ação de danos morais contra a Caixa Econômica Federal e contra a Revista Época

Tags: Francenildo, Wlicio, Governo do PT, Andrei Meireles, Rosa Costa, Polícia Federal, Programa de Proteção à Testemunha, Lula, Caixa Econômica Federal, Eurípedes Soares, Dona Benta, paternidade, Expresso Soares, Jorge Mattoso, Antonio Palocci, governo do PT, João Moreira Salles

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