sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

16 – Como foi a atuação do governo do PT acionando a moenda que quebrou o sigilo do Senhor Francenildo dos Santos Costa

Escrito por João Moreira Salles e publicado na Revista Piauí e no blog do Ricardo Setti: a história de como todos os poderes da República moeram o caseiro Francenildo.

No governo, as horas que antecederam o telefonema de Meireles foram frenéticas. Pela manhã, Daniel Goldberg, do Ministério da Justiça, retornou à casa de Palocci. Vinha acompanhado de Cláudio Alencar, chefe de gabinete do ministro Márcio Thomaz Bastos, da Justiça, que estava em Rondônia. Palocci disse aos dois que telefonara para Helena Chagas, do Globo, para saber se era verdade que o jornal estava fazendo uma matéria sobre o dinheiro suspeito do caseiro. Helena Chagas confirmara a informação. Do ponto de vista * legal*, o telefonema de Helena Chagas – citado por Palocci no inquérito policial – era decisivo: significava que o ministro podia falar com seus assessores sobre o dinheiro de Francenildo sem trazer à baila os extratos que Jorge Mattoso lhe entregara na véspera, pois eram eles, justamente, a prova da quebra ilícita do sigilo bancário.

Palocci negou à Polícia Federal ter mostrado os extratos a quem quer que fosse. Negou também ter dado a ordem para a quebra de sigilo. Nenhuma das pessoas investigadas o contradisse, e Mattoso declarou expressamente à PF que foi dele, Mattoso, a iniciativa de consultar os registros bancários do caseiro.

“Nunca dei ordem para a quebra. Pedi, sim, que tentassem explorar a possibilidade da Polícia Federal investigar a origem daquele dinheiro, que àquela altura parecia suspeita”, contou Palocci no final de setembro. Goldberg e Alencar se mostraram céticos. O caminho mais correto seria acionar o Coaf, o que implicava a desvantagem do tempo – o órgão seguia um rito investigatório cuidadoso, lento, e havia pressa. Ainda assim, os dois assessores de Márcio Thomaz Bastos disseram a Palocci que iriam à sede da PF para tentar descobrir alguma alternativa a ser explorada. Deixaram a casa do ministro por volta de uma da tarde.

Na Polícia Federal, Goldberg e Alencar se reuniram com o mais alto funcionário disponível, o diretor-executivo Zulmar Pimentel, um delegado amazonense de 54 anos conhecido pelos nomes exuberantes com que batizava as grandes operações da PF: Anaconda, Cavalo de Tróia, Curupira, Narciso. Pimentel ouviu o caso e não demorou a responder: “Não se instaura um processo sem suporte técnico, em especial se baseado em boatos.” Decerto, havia mais do que boatos. Existiam os extratos – mas estes não podiam ser exibidos.

Na mesma tarde o presidente do Coaf, Antonio Rodrigues, recebeu um telefonema do Ministério da Fazenda. O chefe de gabinete do ministro queria falar com ele pessoalmente. Encontraram-se às 17h30, no prédio da Fazenda. Rodrigues ouviu que “estava na imprensa a informação de que o caseiro havia recebido dinheiro.” Respondeu que nada sabia e esclareceu que “o Coaf não faz investigação aleatória”. A reunião não durou mais de dez minutos.

De volta ao Coaf, teve o cuidado de fazer uma rápida consulta para saber se havia chegado alguma comunicação sobre Francenildo. Nada. Vasculhou a imprensa e só encontrou notícias sobre o depoimento do caseiro à CPI. Diferentemente do que lhe dissera o chefe de gabinete de Palocci, a informação de que “o caseiro recebera dinheiro” ainda não “estava na imprensa”. Estaria dentro de alguns minutos.

Goldberg e Alencar retornaram à casa de Palocci por volta das seis da tarde. O ministro estava com Marcelo Netto, seu assessor de imprensa. Informaram Palocci sobre a posição da PF. Haviam inclusive ligado para Márcio Thomaz Bastos, que diria um mês mais tarde: “Não participei da quebra de sigilo, nem meus assessores. Eu estava em Rondônia. Não fui informado da quebra, mas sim de um pedido de Palocci para que fosse investigada a suspeita de que o caseiro havia recebido dinheiro para prestar depoimento.”

A polícia e o Coaf haviam fechado as portas. Restava a imprensa. A Polícia Federal quebrou o sigilo telefônico de Marcelo Netto. Minutos antes de Wlicio receber o telefonema de Andrei Meireles, ele ligou para órgãos de imprensa e, em especial, várias vezes para a Época.

OBS: Dividi em 21 capítulos a história do caseiro Francenildo cujo sigilo bancário foi quebrado pelo governo do PT e cuja vida foi intimamente escancarada a ponto de nunca mais falar com o pai. Veja a história completa no link: Leitura essencial para esses tempos de mensalão e “Rosegate”: ahistória de como todos os poderes da República moeram o caseiro Francenildo.

1 – Francenildo dos Santos Costa nasceu em 1981 em Teresina, Capital do Piauí. Foi morar em Brasília em 1995. Nasceu o primeiro filho Thiago com a mulher Noelma em 1999
2 – Francenildo dos Santos Costa era caseiro da casa que foi alugada a um grupo de pessoas liderado pelo Ministro da Fazenda Antonio Palocci no início do ano 2003
3 – Francenildo viajou a Teresina no fim do ano 2003. Foi acertar o maior problema de sua vida, mas foi chamado de volta a Brasília para encerrar contrato de trabalho
4 – Francenildo, Palocci e os companheiros de Ribeirão Preto
5 – A entrevista com jornalista do Jornal O Estado de São Paulo foi marcante na vida do Senhor Francenildo e no Brasil
6 – Antonio Palocci tentou evitar a publicação da entrevista do Senhor Francenildo
7 – A mão de Deus promoveu o encontro de Francenildo e do advogado Wlicio Chaveiro Nascimento
8 – A manchete do Jornal O Estado de São Paulo dizia: Caseiro desmente Palocci e revela partilha de dinheiro na mansão
9 – Jornalista Helena Chagas atuou contra Francenildo e a favor do governo do PT
10 – Como foi a abordagem organizada pelo governo do PT para que numa próxima entrevista coletiva Francenildo negasse o teor da entrevista dada ao Estadão
11 – Antes do depoimento na CPI dos Bingos, Francenildo e seu advogado rezaram em voz alta. A verdade dita na CPI salvou Francenildo e o Brasil ganhou
12 – Objetivos e resultados da CPI dos Bingos
13 – Francenildo foi indevidamente incluído no Programa de Proteção à Testemunha
14 – Como e quando ocorreu a quebra do sigilo bancário de Francenildo
15 – Meia noite foi a hora da chegada de Francenildo ao abrigo que a Polícia Federal reservara a ele e a um traficante de drogas
16 – Como foi a atuação do governo do PT acionando a moenda que quebrou o sigilo do Senhor Francenildo dos Santos Costa
17 – Francenildo e seu advogado Wlicio marcaram entrevista coletiva à imprensa, pediram proteção divina (“*Senhor*, nos ajude a saber o que dizer, como dizer e quando dizer) e então denunciaram a quebra do sigilo bancário de Francenildo
18 – O governo do PT usou a Polícia Federal e a ingenuidade da oposição para tentar acobertar a quebra do sigilo bancário do Senhor Francenildo
19 – A Polícia Federal abriu inquérito por lavagem de dinheiro contra Francenildo. O advogado Wlicio disse: Procede, a mãe dele é lavadeira. Ministro Palocci pediu demissão
20 – Relatório da Polícia Federal não esclarece como a Caixa Econômica Federal obteve o CPF do Senhor Francenildo. Deduz-se que o governo do PT o conseguiu por intermédio dos seus tentáculos
21 – Francenildo moveu ação de danos morais contra a Caixa Econômica Federal e contra a Revista Época

Tags: Daniel Goldberg, Cláudio Alencar, Antonio Palocci, Jorge Mattoso, Francenildo, Wlicio, Márcio Thomaz Bastos, Marcelo Netto, Antonio Rodrigues, Zulmar Pimentel, Helena Chagas, Andrei Meireles, governo do PT, João Moreira Salles

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