sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

13 – Francenildo foi indevidamente incluído no Programa de Proteção à Testemunha

Escrito por João Moreira Salles e publicado na Revista Piauí e no blog do Ricardo Setti: a história de como todos os poderes da República moeram o caseiro Francenildo.

Ao deixar o Senado, Francenildo e Wlicio foram levados à sede da Polícia Federal, aonde chegaram por volta das quatro da tarde. Pegaram o elevador e entraram na sala do delegado Wilson Damázio, diretor da Coordenação-Geral de Defesa Institucional. Logo apareceram outros policiais.

Diante da dupla, o grupo se pôs a discutir pormenores da inclusão de Francenildo no “programa”- o Programa de Proteção ao Depoente Especial. Wlicio não compreendia, e Francenildo menos ainda. “A verdade é que nós estávamos perdidos”, disse Wlicio. “A gente estava à margem de tudo o que estava sendo discutido. Ninguém nos informou como era o programa. Quando chegamos lá, eles já haviam tomado a decisão.”

Um agente perguntou a Francenildo: “É só você que quer proteção, ou também a tua família?” “Minha e de meu filho”, ele respondeu. “Então vamos lá na tua casa pra você pegar umas roupas e perguntar se a tua mulher quer entrar no programa.”

Wlicio avisou que às cinco horas deveriam estar no escritório, pois haveria uma entrevista coletiva, sobre a decisão do Supremo. “Não”, disse-lhe o policial. “Depois que entra no programa, não pode mais falar com ninguém.” A entrevista teria de ser cancelada. “Nildo, você vai em casa, pega uma roupa e a gente se fala mais tarde”, disse.

Em São Sebastião, cidade-satélite onde Francenildo estava morando, Noelma viu os policiais chegarem. Não quis participar do programa e brigou com o marido. Não compreendia por que a casa estava ocupada por agentes que vasculhavam cada cômodo, abriam a geladeira, olhavam dentro do guarda-roupa. O marido não soube explicar.
Apenas juntou uma muda de roupas, beijou o filho e foi levado embora.

De volta à Polícia Federal, quase oito da noite, o delegado Damázio disse ao caseiro que precisava dos documentos dele. Francenildo entregou o CPF e a carteira de identidade. “Tudo”, insistiu Damázio, e recebeu de Francenildo o cartão do banco. Um escrivão pegou os documentos, atravessou duas salas sem fechar as portas atrás de si e, à vista de Francenildo, tirou xerox de tudo. “Celular e chaves também”, disse Damázio. Ele esvaziou os bolsos.

Enquanto esperava que a papelada ficasse pronta, ouviu o toque de um celular na outra sala. Era o seu, reconhecia pelo tom característico. “Meu telefone está tocando.” “Não é o teu”, respondeu um agente. Mas era, sim: *Wlicio estava ligando*.

Ele contaria depois: “Tentei insistentemente, mas ninguém atendia. Lembro até hoje. Pus a mão na cabeça e disse: ‘Puta que o pariu! Nem no Congo eu fiz tanta cagada! Como é que eu estou defendendo uma pessoa contra o governo e deixo ela na mão do governo?’” Jornalistas telefonavam e Wlicio lhes dizia que perdera contato com o cliente.

Informaram a Francenildo que ele tinha direito a um único telefonema. Foi para a mãe que ele ligou, no Piauí. Trouxeram então papéis para que assinasse.

Às dez da noite, o delegado Damázio telefonou a Wlicio: “Doutor, que história é essa de dizer para a imprensa que a PF seqüestrou o seu cliente?” “Doutor, eu não usei o verbo ‘seqüestrar’. A minha reclamação é que, desde as cinco da tarde, estou tentando falar com ele e não consigo.” Damázio respondeu: “Você pode falar com ele quando quiser, mas agora o telefone dele é o da Polícia Federal, o endereço dele é o da Polícia Federal.” Ao assinar os papéis, Francenildo abdicara do direito de ir e vir e passara a ser tutelado pela PF. Eram as normas do programa. “Está tudo bem, Nildo?”, perguntou Wlicio. Ouviu um titubeante “Está, está”.

OBS: Dividi em 21 capítulos a história do caseiro Francenildo cujo sigilo bancário foi quebrado pelo governo do PT e cuja vida foi intimamente escancarada a ponto de nunca mais falar com o pai. Veja a história completa no link: Leitura essencial para esses tempos de mensalão e “Rosegate”: ahistória de como todos os poderes da República moeram o caseiro Francenildo.

1 – Francenildo dos Santos Costa nasceu em 1981 em Teresina, Capital do Piauí. Foi morar em Brasília em 1995. Nasceu o primeiro filho Thiago com a mulher Noelma em 1999
2 – Francenildo dos Santos Costa era caseiro da casa que foi alugada a um grupo de pessoas liderado pelo Ministro da Fazenda Antonio Palocci no início do ano 2003
3 – Francenildo viajou a Teresina no fim do ano 2003. Foi acertar o maior problema de sua vida, mas foi chamado de volta a Brasília para encerrar contrato de trabalho
4 – Francenildo, Palocci e os companheiros de Ribeirão Preto
5 – A entrevista com jornalista do Jornal O Estado de São Paulo foi marcante na vida do Senhor Francenildo e no Brasil
6 – Antonio Palocci tentou evitar a publicação da entrevista do Senhor Francenildo
7 – A mão de Deus promoveu o encontro de Francenildo e do advogado Wlicio Chaveiro Nascimento
8 – A manchete do Jornal O Estado de São Paulo dizia: Caseiro desmente Palocci e revela partilha de dinheiro na mansão
9 – Jornalista Helena Chagas atuou contra Francenildo e a favor do governo do PT
10 – Como foi a abordagem organizada pelo governo do PT para que numa próxima entrevista coletiva Francenildo negasse o teor da entrevista dada ao Estadão
11 – Antes do depoimento na CPI dos Bingos, Francenildo e seu advogado rezaram em voz alta. A verdade dita na CPI salvou Francenildo e o Brasil ganhou
12 – Objetivos e resultados da CPI dos Bingos
13 – Francenildo foi indevidamente incluído no Programa de Proteção à Testemunha
14 – Como e quando ocorreu a quebra do sigilo bancário de Francenildo
15 – Meia noite foi a hora da chegada de Francenildo ao abrigo que a Polícia Federal reservara a ele e a um traficante de drogas
16 – Como foi a atuação do governo do PT acionando a moenda que quebrou o sigilo do Senhor Francenildo dos Santos Costa
17 – Francenildo e seu advogado Wlicio marcaram entrevista coletiva à imprensa, pediram proteção divina (“*Senhor*, nos ajude a saber o que dizer, como dizer e quando dizer) e então denunciaram a quebra do sigilo bancário de Francenildo
18 – O governo do PT usou a Polícia Federal e a ingenuidade da oposição para tentar acobertar a quebra do sigilo bancário do Senhor Francenildo
19 – A Polícia Federal abriu inquérito por lavagem de dinheiro contra Francenildo. O advogado Wlicio disse: Procede, a mãe dele é lavadeira. Ministro Palocci pediu demissão
20 – Relatório da Polícia Federal não esclarece como a Caixa Econômica Federal obteve o CPF do Senhor Francenildo. Deduz-se que o governo do PT o conseguiu por intermédio dos seus tentáculos
21 – Francenildo moveu ação de danos morais contra a Caixa Econômica Federal e contra a Revista Época

Tags: Francenildo, Wlicio, Wilson Damázio, Polícia Federal, a mulher Noelma, inclusão no programa de proteção à testemunha, recolhimento de documentos pessoais, governo do PT, João Moreira Salles

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