sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

11 – Antes do depoimento na CPI dos Bingos, Francenildo e seu advogado rezaram em voz alta. A verdade dita na CPI salvou Francenildo e o Brasil ganhou

Escrito por João Moreira Salles e publicado na Revista Piauí e no blog do Ricardo Setti: a história de como todos os poderes da República moeram o caseiro Francenildo.

Na manhã seguinte, quinta-feira, 16 de março, Wlicio chegou à casa de Francenildo às sete e meia da manhã. Deu uma olhada na roupa que ele escolhera para se apresentar à CPI – camisa pólo, jeans e sapato – e recomendou que tirasse o boné porque “não dava credibilidade”. A caminho do escritório, rezaram juntos em voz alta, “porque tudo isso era muito novo para a gente”. Chegaram ao Senado por volta das nove e meia. Um funcionário pediu a Francenildo que lhe entregasse os documentos – CPF e carteira de identidade – para poder qualificá-lo como depoente.

Pouco antes, às 9h09, o técnico da Receita Federal Nilton Cruvinel havia acessado o CPF de Francenildo dos Santos Costa. Obedecia a uma ordem superior que, como uma bola empurrada do alto de uma escadaria, descera a cadeia hierárquica quicando de degrau em degrau até cair no seu colo. Passou a informação a seu chefe, que fez uma consulta mais ampla. Abriu um “Dossiê Integrado/Pessoa Física” do caseiro, com dados sobre CPMF e o banco que recolhia o tributo, a Caixa Econômica Federal. Anotou as informações e as repassou ao coordenador-geral de fiscalização que, na véspera, instruíra um subordinado a investigar Francenildo.

No Congresso, numa sala reservada, o senador Efraim Morais, do PFL, presidente da CPI dos Bingos, perguntava ao caseiro se preferia que a sessão fosse aberta ou fechada. “Aberta”, respondeu Francenildo. Todos os senadores da oposição lhe entregaram cartões pessoais: “Se precisar de alguma coisa, é só ligar…” *Garçons trouxeram uns salgadinhos “mixurucas”, segundo Francenildo.* Eduardo Suplicy foi o único parlamentar governista que falou com ele: “Vem cá, meu filho, você não está mesmo recebendo dinheiro de ninguém pra vir aqui falar mal do ministro Palocci?” Ao contrário de seus colegas de partido, Suplicy fora o único que votara a favor da convocação do rapaz. Seu voto havia desempatado a questão, contra o interesse do governo.

Às 11h30, finalmente, Francenildo e Wlicio entraram na sala da CPI. Na primeira fila, Arthur Virgílio e Antonio Carlos Magalhães. Na segunda, a bancada do governo: Tião Viana, Ideli Salvatti e Wellington Salgado, cujos cabelos lembram o de Maria Bethânia.

Tião Viana pediu a palavra: “Temos hoje a CPI dos Bingos tendo como audiência ouvir o senhor… me foge o nome agora…” – consultou papéis – “… o senhor Francenildo dos Santos Costa.” Avisou que entrara com um mandado de segurança no Supremo Tribunal Federal para impedi-lo de falar, sob a alegação de “brutal desvio de finalidade”, visto que o caseiro nada teria a dizer sobre bingos. A presença de Francenildo ali era uma manobra da oposição para invadir a vida pessoal de um ministro. E, de forma algo confusa, concluiu: “Na hora que eu me sentir conivente com a destruição de qualquer indivíduo segundo o que lhe diz respeito puramente, eu deixo de ter condição de olhar com autonomia e liberdade para qualquer indivíduo.”

A dois metros de Francenildo, Arthur Virgílio, do PSDB, pegou o microfone e pronunciou: “Não posso mais empenhar solidariedade política ao ministro Antonio Palocci. Não era para ele estar aqui sendo julgado pelo senhor Francenildo. Ele rebaixou seu papel!”

Heloísa Helena pediu a palavra. “Primeiro, quero dizer, senhor Francelino, da minha admiração pela sua coragem, meu filho.” E, sempre tratando Francenildo por Francelino, prosseguiu falando de si mesma: “Sei dos preconceitos. Quando uma mulher entra na política, dizem que é prostituta ou lésbica.” Wlicio e Francenildo concordaram com a cabeça.

Vinte e sete minutos depois de iniciada a sessão, ouviu-se pela primeira vez a voz de Francenildo, em resposta a uma pergunta da senadora: “Eu só quero saber o seguinte: você confirma tudo o que disse?”

“Confirmo.”

Quatro minutos depois: “O senhor recebeu algum dinheiro para dar esse depoimento?”

“Não.”

Agripino Maia, do PFL, *olhou nos olhos do caseiro e sussurrou*: “Francenildo, meu conterrâneo, você é um brasileiro típico. Você é a quem o presidente Lula se refere. Você comparece vestido modestamente, com uma camisa discreta, uma calcinha surrada, um sapato modesto, mas o seu olhar é firme e sua palavra, decidida” – até o momento, duas palavras: confirmo e não. E numa exortação súbita, que chegou a assustar a platéia: “Diga tudo, Francenildo! Diga tudo! Não esconda nada!”

É a vez do senador Pedro Simon, que se dirigiu a Francenildo sem condescendência ou descaso: “O destino é isso. De repente, você é colocado numa posição na qual você pode ser uma pessoa da maior importância para o Brasil. Mas você tem que dizer a verdade.”

Afastando uma mecha de cabelo, o senador Wellington Salgado se indignou: “Esse cidadão que eu nunca vi, ele nem sabe o jogo em que ele está entrando. Isso aqui parece mitologia grega, onde os deuses brincam com os mortais. O senador Simon disse que, se o cidadão falar, o ministro cai. O que esse… como é?…” – remexeu papéis – “… esse Francenildo disser, eu vou escutar, mas quero também escutar o ministro.”

Flávio Arns, senador do PT, começou *bem, chamando* Francenildo de Francenildo, mas durou pouco: “Lino, destruir a reputação de pessoas com declarações infundadas é uma questão muito séria. É preciso fazer uma reflexão muito profunda sobre a ética da comunicação.” Wlicio e Francenildo concordaram com a cabeça.

Duas horas e quinze minutos depois de abertos os trabalhos, o relator da CPI enfim deu início à oitiva. O depoente se apresentou: “Bom, eu sou um caseiro, o homem lá é um ministro, então é a minha palavra contra a dele.” Mostrando o celular, prosseguiu: “Se eu tivesse esse celular na época, tinha tirado fotografia. O meu arrependimento só foi esse. É tudo o que eu tinha a declarar. Eu sou Francenildo dos Santos Costa.”

Às 14h30, a senadora Ideli Salvatti interrompeu a sessão para avisar: acabava de receber a liminar do STF, que acatara o mandado de Tião Viana. Perplexo, Pedro Simon perguntou: “Quem impetrou o mandado foi o PT?” Ao ouvir a resposta, cochichou: “Quem diria, quem diria…” Francenildo ficou três horas sentado diante dos senadores. Falou apenas 41 minutos.

Efraim Morais leu ao microfone a liminar em que o ministro Cezar Peluso, do Supremo, aceitara a tese de desvio de finalidade: a entrevista ao Estadão demonstrava ser o caseiro uma “pessoa simples que se propõe a fazer afirmações constrangedoras sobre a vida íntima de pessoas ligadas ao governo”. De resto, Francenildo não poderia compreender a natureza do dinheiro que circulava dentro da casa: “É o que se presume à condição cultural e ao próprio trabalho que a testemunha desempenharia no local apontado.” O presidente da CPI exclamou: “Vou solicitar à Polícia Federal que dê garantia de vida ao senhor Francenildo!”, e três homens se postaram atrás do caseiro.

Arthur Virgílio apoiou Efraim Morais: “É essencial que o senhor exija garantia de vida ao senhor Francenildo Costa, que eu imagino potencialmente ameaçado porque seu depoimento causou celeuma. Pedirei a demissão de Antonio Palocci, que não tem mais condições de ser ministro porque temeu as palavras de um jovem que mal podia balbuciar suas frases.”

Ideli Salvatti agora berrava. A oposição espetava dedos fotogênicos no ar e Tião Viana, sereno, garantia: “Não feri o manto constitucional.”

Enquanto um cordão de policiais retirava Francenildo da sala, ouviu-se a última manifestação do dia. Era o senador governista Magno Malta, aproveitando as câmeras ainda ligadas: “Quero deixar claro que não fui contra a vinda do senhor… do senhor…” E esticando a cabeça para ler a plaquinha diante da cadeira agora vazia: “… do senhor Francenildo dos Santos Costa.”

A sessão terminava como havia começado, com um senador que não se dera ao trabalho de guardar o nome da testemunha interrogada. Francenildo se lembraria do que sentiu naqueles momentos: ninguém sabia quem ele era, e ninguém se importava.

OBS: Dividi em 21 capítulos a história do caseiro Francenildo cujo sigilo bancário foi quebrado pelo governo do PT e cuja vida foi intimamente escancarada a ponto de nunca mais falar com o pai. Veja a história completa no link: Leitura essencial para esses tempos de mensalão e “Rosegate”: ahistória de como todos os poderes da República moeram o caseiro Francenildo.

1 – Francenildo dos Santos Costa nasceu em 1981 em Teresina, Capital do Piauí. Foi morar em Brasília em 1995. Nasceu o primeiro filho Thiago com a mulher Noelma em 1999
2 – Francenildo dos Santos Costa era caseiro da casa que foi alugada a um grupo de pessoas liderado pelo Ministro da Fazenda Antonio Palocci no início do ano 2003
3 – Francenildo viajou a Teresina no fim do ano 2003. Foi acertar o maior problema de sua vida, mas foi chamado de volta a Brasília para encerrar contrato de trabalho
4 – Francenildo, Palocci e os companheiros de Ribeirão Preto
5 – A entrevista com jornalista do Jornal O Estado de São Paulo foi marcante na vida do Senhor Francenildo e no Brasil
6 – Antonio Palocci tentou evitar a publicação da entrevista do Senhor Francenildo
7 – A mão de Deus promoveu o encontro de Francenildo e do advogado Wlicio Chaveiro Nascimento
8 – A manchete do Jornal O Estado de São Paulo dizia: Caseiro desmente Palocci e revela partilha de dinheiro na mansão
9 – Jornalista Helena Chagas atuou contra Francenildo e a favor do governo do PT
10 – Como foi a abordagem organizada pelo governo do PT para que numa próxima entrevista coletiva Francenildo negasse o teor da entrevista dada ao Estadão
11 – Antes do depoimento na CPI dos Bingos, Francenildo e seu advogado rezaram em voz alta. A verdade dita na CPI salvou Francenildo e o Brasil ganhou
12 – Objetivos e resultados da CPI dos Bingos
13 – Francenildo foi indevidamente incluído no Programa de Proteção à Testemunha
14 – Como e quando ocorreu a quebra do sigilo bancário de Francenildo
15 – Meia noite foi a hora da chegada de Francenildo ao abrigo que a Polícia Federal reservara a ele e a um traficante de drogas
16 – Como foi a atuação do governo do PT acionando a moenda que quebrou o sigilo do Senhor Francenildo dos Santos Costa
17 – Francenildo e seu advogado Wlicio marcaram entrevista coletiva à imprensa, pediram proteção divina (“*Senhor*, nos ajude a saber o que dizer, como dizer e quando dizer) e então denunciaram a quebra do sigilo bancário de Francenildo
18 – O governo do PT usou a Polícia Federal e a ingenuidade da oposição para tentar acobertar a quebra do sigilo bancário do Senhor Francenildo
19 – A Polícia Federal abriu inquérito por lavagem de dinheiro contra Francenildo. O advogado Wlicio disse: Procede, a mãe dele é lavadeira. Ministro Palocci pediu demissão
20 – Relatório da Polícia Federal não esclarece como a Caixa Econômica Federal obteve o CPF do Senhor Francenildo. Deduz-se que o governo do PT o conseguiu por intermédio dos seus tentáculos
21 – Francenildo moveu ação de danos morais contra a Caixa Econômica Federal e contra a Revista Época

Tags: Francenildo, Wlicio, CPI dos Bingos, Arthur Virgílio, Antonio Carlos Magalhães; Tião Viana, Ideli Salvatti, Wellington Salgado, Magno Malta, Efraim Morais, Cezar Peluso, Polícia Federal, Pedro Simon, Flavio Arns, Eduardo Suplicy, Heloísa Helena, Agripino Maia, Nilton Cruvinel, Caixa Econômica Federal, fé em Deus, governo do PT, João Moreira Salles

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