quarta-feira, 31 de outubro de 2012

O esquerdista não é só um revoltado contra a ordem capitalista ou a "sociedade de classes". Ele não quer ou não aceita a liberdade dada por Deus e se revolta profundamente contra a sua própria natureza humana imperfeita. Ou:

Sobre Hobsbawm
Escrito por Rodrigo Sias* e publicado no sítio www.midiasemmascara.org
O comunismo não é só uma revolta contra a ordem capitalista ou a "sociedade de classes". É sim, a não aceitação do livre arbítrio e uma revolta profunda contra a natureza humana imperfeita.

A doutrina do pecado original possui dois sentidos analíticos muito interessantes. O primeiro mostra o que talvez seja a maior contribuição de Aurélio Agostinho, o Santo Agostinho, um dos mais interessantes pensadores da civilização ocidental: a questão do livre arbítrio e da origem do mal.

Segundo Agostinho, a humanidade, representada por Adão e Eva, foi dotada pelo Criador da capacidade de escolha. O pecado original simbolizaria a ideia de que os homens nascem bons, mas podem optar por não praticar o bem. Os homens podem ser generosos, mas sempre terão que lutar contra seu ímpeto egoísta. Ou seja, a liberdade poderia ser usada tanto para escolhas certas, como para escolhas erradas.

Nesta visão, o mal e as injustiças são originados do (mau) uso do livre arbítrio. E seria da natureza imperfeita do homem ceder às suas paixões. O segundo sentido analítico é o ato de rebelião, comer a "maçã proibida", não só contra o Deus bíblico, mas em uma interpretação mais geral, contra a ordem natural das coisas. Mas o que isso tem a ver com Eric Hobsbawm?

Falecido há algumas semanas, Hobsbawm foi um historiador marxista de prestígio. Li alguns de seus livros badalados tais como "A Era das Revoluções" e "A Invenção das Tradições". Inegavelmente, seus livros eram ricos em dados e fontes e de agradável leitura.

No entanto, sua análise continha um vício de origem comum a toda interpretação marxista: visava "transformar o mundo" ao invés de "interpretá-lo". Toda a sua obra foi uma "crítica ao sistema", escrita com o intuito de fornecer elementos para tornar o mundo "melhor".

Aqueles que objetivam tornar o "mundo melhor", não aceitam que as mazelas não são causadas por um "sistema opressor", por "capitalistas", ou qualquer outro "inimigo da humanidade" de ocasião. Assim, são contrários a Agostinho, para quem as injustiças são o resultado do livre arbítrio e da própria natureza humana imperfeita.

O comunismo advoga a construção de um "mundo sem opressão" e "sem classes" através da elaboração do "Paraíso na Terra" e da criação do "novo homem". O comunismo, portanto, não é só uma revolta contra a ordem capitalista ou a "sociedade de classes".

É sim, a não aceitação do livre arbítrio e uma revolta profunda contra a natureza humana imperfeita. A aplicação empírica deste pensamento resultou em regimes comunistas responsáveis - em estimativas mais contidas - por 100 milhões de mortes.

Trata-se de uma cota de sofrimento maior que todas as guerras e calamidades somadas sofridas até então pela humanidade. Mesmo assim, intelectuais como Hobsbawm não desistem dessa utopia macabra.

Curiosamente, eles são justamente os que mais se beneficiam do bem-estar e do progresso possibilitados pelo "sistema opressor". Hobsbawm insistiu na "utopia" até o fim: seu revisionismo histórico foi sempre em relação aos meios - criticados de forma comedida, como se fossem meros "desvios" - e nunca em relação aos fins últimos do comunismo, ou seja, mudar à força a natureza humana.

Seu último livro "Como mudar o mundo" (coletânea de textos sobre Marx e o marxismo) mostra que Hobsbawm não aprendeu nada com a história. A verdade é que o mundo estaria muito melhor se houvesse menos gente tentando torná-lo "melhor". Ao invés de mudar o mundo, seria melhor que tentassem modificar a si mesmos.

Publicado no jornal Brasil Econômico.

*Rodrigo Sias é economista do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Nenhum comentário: