quarta-feira, 11 de julho de 2012

DEPOIS DA GASTANÇA VEM A TEMPESTADE. Ou: O governo incentiva o consumo sem incentivar a produção, mas depois não assume a culpa pela inadimplência e pelo desemprego

A tempestade depois da bonança
Escrito por MAGNO KARL* e publicado no site www.ordemlivre.org
A muito saudada expansão do crédito começa a dar sinais de esgotamento. O índice de inadimplência das empresas em 2012 é o maior desde 2000.

Depois da euforia de crédito barato, a inadimplência começa a chegar também às pessoas físicas. Quase um quarto da renda mensal das famílias é dedicado ao pagamento das dívidas.

E o nível de endividamento é maior exatamente nas regiões mais pobres do país, onde a euforia do crédito fácil foi mais celebrada pelo governo. De 2008 pra cá, o endividamento cresceu 153% no Nordeste e 131% na região Norte.

A reportagem é do Estado de São Paulo:

Em 12 anos do levantamento, consumidores do Nordeste e Norte apresentam, sistematicamente, atrasos maiores que o restante do País. Mas nos últimos 12 meses, os nordestinos estão liderando esse ranking. Em abril, a região tinha inadimplência média de 6,1% nos empréstimos e financiamentos e era seguida de perto do Norte, com 5,9%.

A lista continua com o Sudeste, onde o calote está em 5,1%, e com o Centro-oeste, com 4,6%. Na lanterna, os sulistas têm a menor taxa do País: 4,1%. Ou seja, levam o título de melhores pagadores do Brasil.

(…)

Felipe Leroy, professor de economia do Ibmec Minas, também chama atenção para a pouca familiaridade dos clientes com serviços financeiros, como o financiamento para compra de automóveis. “Sobretudo em regiões menos desenvolvidas, o nível de educação financeira dos clientes é baixo. Consumidores não estão preparados para organizar o orçamento e usar instrumentos como um cartão ou o limite do cheque especial”, afirma Leroy.

“Ver que o governo continua incentivando o crédito para consumo é preocupante, especialmente agora que a economia está mais devagar”, diz.


No Brasil do pleno emprego, onde recessões são marolas, a única dúvida é quem levará a culpa quando a bolha estourar. Os bancos maldosos que emprestaram ou os consumidores iludiram que se esbaldaram frente à facilidade de obter dinheiro barato. Os políticos que incentivaram a festa e dela se beneficiaram, assistirão a tudo de camarote, apontando o dedo e indicando culpados àqueles que buscarem as suas opiniões.

“Com um pouco mais de regulamentação”, dirão, “isso não voltará a acontecer”.

Magno Karl*, cientista social pela UFRJ, é tradutor e gerente de operações do Ordem Livre.

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