segunda-feira, 28 de maio de 2012

SOMOS SÍSIFOS. Ou: Trabalhamos, trabalhamos e transportamos pedras até o alto do morro e as vemos sendo rolada morro abaixo pelos governos, principalmente dos socialistas

Somos Sísifos? Postado no blog Cavaleiro do Templo. Por: Redação Midia@Mais

Conta o mito que Sísifo, rei de Corinto, ao desafiar os deuses e enganar a morte por duas vezes (na primeira vez, acorrentou Tânathos; na segunda, conseguiu tapear o próprio Hades), foi condenado ao terrível trabalho de levar uma imensa pedra até o alto de uma montanha.

Isso já não seria agradável se não fosse por um detalhe a mais: ao chegar ao cume, a pedra rolaria novamente até o sopé. Ou seja, era a condenação ao esforço inútil para todo o sempre.

Passados tantos séculos em relação às fontes literárias gregas, associou-se o Mito de Sísifo à questão da alienação do trabalho da teoria marxista. Ou seja, o elevar contínuo da pedra seria como o esforço dos trabalhadores condenados ao eterno ofício de serem explorados. O homem, trabalhando na linha de produção, ao vender sua força produtiva descaracterizaria a importância do trabalho em transformar a si mesmo e ao meio. Ele perderia a noção de começo, meio e fim do objeto que fabrica. Perderia a noção da importância do trabalho. Perderia a consciência de si enquanto homem que trabalha.

Sísifo era um herói trágico justamente por ter consciência de seu castigo. Ele mantinha certo desprezo tanto pelos deuses, quanto pelo seu próprio destino mortal. E isso o levou à pena.

Essa apropriação do mito para explicar a dureza do trabalhador é, portanto, inadequada.

No entanto, Albert Camus, em seu livro O Mito de Sísifo, vai tratar do absurdo da existência e comenta logo nas primeiras páginas que “Cultivamos o hábito de viver antes de adquirir o hábito de pensar”. Por esse aspecto, o mito nos fala hoje como arquétipo de muitas questões que são pouco discutidas.

Analisemos o Brasil hoje. Diferente de Sísifo, o brasileiro não é, em absoluto, um heroi trágico. Há, no máximo, redutos de Sísifos desafiadores, conscientes da condenação ao peso mortal do trabalho de sustentar um Olimpo burocrático e manipulador chamado de Estado. Trabalha-se para os outros roubarem com maestria e explicitamente.

Sim. A pedra ascendente é comparável ao trabalho que todos executamos. Vê-la rolar, descer atrás da rocha para novamente subi-la até o cume, equivale aos tantos impostos que nos amarram à burocracia estatal brasileira. Consequentemente, nos amarram à corrupção desmedida, absurda, vergonhosa e explícita que se tornou sinônimo do poder público.

Por causa disso, o trabalho torna-se um fim em si mesmo, feito apenas para manter o Estado. Um Estado POPULISTA, ineficiente e corrupto. Seja qual for a sua ocupação, você está condenado a alimentar o Estado. Que vil ironia para aqueles (esquerdistas) que se consideram herdeiros do “pensamento sacro” de Marx. E eles que sempre criticaram a Aranha Capital! Essa é a perfeita ironia trágica mesmo! Afinal, sempre se analisou o capitalismo como um sistema em que as liberdades não são liberdades verdadeiras, em que a democracia é uma invenção burguesa e que somos todos aprisionados no fetichismo da mercadoria, na exploratória mais-valia e na ambição sem fim dos capitalistas.

Por causa disso, nos damos conta de que não somos todos Sísifos. Não. A consciência está por demais dormente para que se possa chorar a pedra que rola. Pelo contrário. A militância intelectualizada justifica e promete aos que habitam um reino inferior (o reino de Hades) o próprio jardim do Éden. Usa de argumentos sofísticos para buscar apoio maciço para seus absurdos. E consegue.

Por esse aspecto, nossa situação é ainda mais trágica que a de Sísifo. Somos poucos a perceber que, após a euforia de uma copa, a subida será mais íngreme e a descida mais aterradora. Somos poucos a reconhecer o vexame da educação, a falta de estrutura e o avanço da ignorância. Ao fim de um governo federal como o nosso, a pedra será ainda mais pesada e há de se perguntar quanto tempo mais aguentaremos o esforço.

Não há oposição organizada. Os que tentam discordar são exilados do reconhecimento acadêmico. Que produção científica podemos ter na área de humanidades se há uma ditadura intelectual?

São bem poucos os que têm coragem de escrever que o assistencialismo do Bolsa-Família, a reforma ortográfica, o politicamente correto nem sempre são expressões da democracia ou da bondade do governo. É preciso parar de adjetivar a realidade hoje como sinônimo de uma chegada à terra prometida, como se Lula fosse o próprio condutor do povo sofrido que, até a tomada do poder pelo PT, era escravizado pela direita branca e egoísta. Essa visão simplista e ideológica tem que ser combatida! Mas nem questionada é!

No mito, Sísifo não morre, pois já habita o submundo. Isso faz pensar que estamos todos meio mortos. O esforço será eterno e a recompensa jamais virá. Ela não existe. Enquanto isso, o Olimpo Estatal resplandece em toda a sua riqueza oriunda do suor de tantos Sísifos.

É preciso que, para libertar cada Sísifo que carrega a pedra dos impostos, surja bem mais que uma Consciência. Consciências são mudas, silenciosas e muitas vezes covardes. Seria necessária uma união civil. Uma união daqueles que discordam do governo e reconhecem que a mesma força que carrega a pedra, pode também destruí-la.

O desafio mora aí. Quem tem coragem de assumir os riscos de nadar contra a maré? Quem poderia liderar uma revolta contra os deuses da Academia, da Imprensa, do Estado?

Heráclito de Éfeso dizia que o pensar é comum a todos. Que a pedra que nos esmaga não impeça que essa frase possa ser realidade.

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