quinta-feira, 26 de abril de 2012

As cotas já venceram; branco, pobre, heterossexual e cristão passa a ser o verdadeiro negro do Brasil. Ou: Dilma tem de indicar neste ano duas mulheres pardas para o STF, uma delas lésbica

Conforme o previsto, cotas já venceram; branco, pobre, heterossexual e cristão passa a ser o verdadeiro negro do Brasil
Por Reinaldo Azevedo no blog www.veja.abril.com.br/blog/reinaldo/

Já votaram pela improcedência da ação contra as cotas os ministros Ricardo Lewandowski, Luiz Fux, Rosa Weber e Carmen Lúcia. A opinião pró-cotas de Ayres Britto, Joaquim Barbosa e Celso de Mello é conhecida. Só aí se contam sete votos. O caso está decidido, conforme o previsto. Pior do que o mérito, que joga no lixo o Artigo 5º da Constituição e faz de brancos pobres sócios do regime escravocrata que vigorou no Brasil — obrigando-os a pagar com a própria pele (!) por aquele processo histórico — são os argumentos. Todos eles atribuem ao tribunal — ou a seus membros —, a competência de fazer justiça com a própria toga.

As cotas para negros nas universidades públicas já estão oficializadas. Agora resta às demais minorias, com base naqueles mesmos argumentos que sustentam que se possam suprimir direitos de uns para conceder privilégios a outros “em nome da igualdade e da dignidade humana”, reivindicar o seu quinhão.

Eu me sinto, vamos dizer, intelectualmente recompensado porque antevi isso há muitos anos, não? É minha a frase segundo a qual o branco, pobre, heterossexual e cristão passaria a ser o verdadeiro negro do Brasil. Ninguém é por ele, e todos são contra ele. É um sem-ONG, um sem-razão, um sem-direito. Está proibido até mesmo de reivindicar. Caso se mobilize, os bem-pensantes, inclusive os da imprensa, apontarão o dedo: “Fascista!”

Por que Dilma tem de indicar neste ano duas mulheres pardas para o STF, uma delas lésbica
Marco Aurélio não só admite como constitucional o sistema de cotas, ignorando qualquer ressalva, como pede a sua generalização. Que se faça! Dados os números do Censo do IBGE, que se comece pelo Supremo. São brancos 47,73% dos brasileiros — isso impõe ao tribunal ter apenas 5 ministros brancos, não 10. São negros 7,61%, o que impõe 0,83% de negro na corte. Na impossibilidade de haver um ministro-fração, arredonda-se a conta, e o grupo, então, já está representado por Joaquim Barbosa. Os outros cinco ministros têm de ser mestiços ou “pardos”, como os chama o IBGE (43,13%).

Ah, sim: não devemos nos esquecer da questão de gênero. Essa distribuição racialista haveria de ser feita obedecendo também à proporção de homens e mulheres: seis para elas, que são em maior número; cinco para eles. Não se sabe ao certo o percentual de homossexuais — que não podem ficar fora da conta — no país. Há quem fale em 9%. Isso imporia ao menos um ministro ou ministra representando essa categoria. Caberia ao chefe do Executivo, que faz a indicação, decidir se o (a) ministro (a) gay seria o negro, quando Barbosa se aposentar, ou um dos “pardos” ou “brancos”.

Não me venham com essa história de que ministro do Supremo tem de ser indicado segundo o notório saber jurídico. Princípio é princípio. Se, no vestibular, quem sabe mais pode ser preterido por quem sabe menos em nome da justiça racial, por que não no Supremo Tribunal Federal? Dilma tem duas indicações a fazer neste ano. Segundo tudo o que aprendi na corte entre ontem e hoje, elas hão de ser necessariamente mulheres e pardas — para começar a chegar perto dos números do IBGE. Se uma for gay, a “justiça” quanto a esse quesito já estará feita.

Havendo furo no meu raciocínio, lerei a objeção com prazer. Não adianta me ofender. Eu só estou cobrando coerência do governo federal, que patrocina as cotas, e dos senhores magistrados, que as aprovam.

Celso de Mello está votando. É um fanático das cotas.

Tags: Cotas raciais, Marco Aurélio Mello, racialismo

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