sexta-feira, 30 de setembro de 2011

A REVOLTA DOS SOCIÓLGOS E DOS FILÓSOFOS. OU: ESCOLA PRA QUÊ?

Por Reinaldo Azevedo no blog www.veja.abril.com.br/blog/reinaldo/

Ah, como é cheia de indignação a razão dos tolos! Escrevi na terça-feira um texto intitulado O Brasil precisa de menos sociólogos e filósofos e de mais engenheiros que se expressem com clareza, comentando uma proposta estúpida do secretário de educação de São Paulo, Herman Voorwald, que quer reduzir a carga horária de português e matemática do ensino médio público de São Paulo. Em seu lugar, a depender do currículo (haveria três), entrariam aulas de sociologia, filosofia, espanhol, artes e física.

Pra quê!!! Foi um deus-nos-acuda! Alguns, creio, filósofos e sociólogos ficaram indignados, achando que quero banir a sociologia e a filosofia do país. Houve até quem indagasse: “E o que diria seu queridinho FHC?” FHC não é meu “queridinho”. É um ex-presidente da República, o mais importante que o país já teve. Achei que tinha ficado claro que ia lá um tanto de ironia, como em toda generalização. E até citei duas obras de Marx — o dos furúnculos no traseiro (isso, então, gerou alguns comentários engraçados, como se eu tivesse ofendido uma divindade!) — que, com absoluta certeza, boa parte dos cretinos que me atacaram não leu. Se soubessem do que falo, teriam percebido o tal viés irônico. Eu nada tenho a fazer com esse grau de estupidez.

Ainda ontem, no Estadão acho, Voorwald, o insaciável, comentava que, a despeito do número de aulas, que ele certamente considera grande, de português e matemática, os alunos têm um mau desempenho nas provas oficiais. O governador Geraldo Alckmin deveria demiti-lo. Há o risco de este senhor fazer uma grande bobagem na educação paulista porque é incapaz de pensar com lógica e porque parece tendente a transformar inação em categoria de pensamento. Ora, segundo o gigante, se o desempenho dos estudantes é ruim com a carga que temos, então por que não reduzi-la? Não é estupendo? Mais: se há sinais de que essas aulas não estão funcionando, qual é seu dever funcional? Atuar para que funcionem. Ele prefere cortar e ministrar outras disciplinas que também não funcionam… Se as medidas que propõe forem implementadas, haverá certamente uma queda no desempenho dos alunos do estado nas provas oficiais — isso é certo como dois mais dois são quatro; ou eram, antes de ele chegar à Secretaria. Percebo, um tanto estarrecido, que o homem não está sozinho nesse pensamento. Muitos dos que me escreveram acham a mesma coisa: “Já que os resultados são ruins, então que se corte a carga…” Deus do céu!

Nove entre dez pessoas que me atacaram — não publiquei as ofensas; vão ofender a vovozinha! — vêm com aquela conversa horripilante de que sociologia, filosofia e artes ensinam o aluno “a ter espírito crítico”. Infelizmente, chama-se “espírito crítico” o proselitismo ideológico vagabundo, ignorante, pilantra, vigarista, picareta, bucéfalo (acrescentem aí quantos adjetivos desse paradigma quiserem) que hoje grassa nas escolas, inclusive, e muito especialmente, nas particulares, “de elite”. Está cheio de comunista (ainda há isso no Brasil; na China, já acabou!) de meia-tigela que não quer saber de fazer pregação no Capão Redondo, sem ar condicionado. Prefere os Jardins, o Morumbi e o Alto de Pinheiros porque é mais tranqüilo pregar as virtudes do socialismo para os filhos da Dona Zelite. O efeito positivo insuspeitado, nessa camada social ao menos, é que os alunos ficam com o saco cheio de conversa mole. Uma boa forma de combater o comunismo (sim, a escola brasileira é um parque dos dinossauros ideológicos) é deixar que os comunistas falem o que pensam…

Mas é claro que também fazem um mal imenso aos alunos. Tomam o seu tempo. Essa gente tem o topete, a ousadia e o mau-caratismo de querer substituir a família na construção dos valores dos indivíduos. Cumpre, sim, ao corpo docente ser procurador do regimento da instituição a que pertence e das leis do país — estamos, afinal, numa democracia. É pura mistificação esse negócio de que seu papel é “ensinar o aluno a pensar” — como se esse “pensamento” a ser ensinado fosse neutro e não estivesse eivado por valores ideológicos. Seria, sim, de todo desejável que a escola, HOUVESSE TEMPO PARA ISSO, ministrasse um bom curso de história da filosofia e contrastasse o entendimento das várias correntes da sociologia. Mas não é isso o que se vê porque boa parte dos cretinos, repetindo os alemães que o próprio Marx esculhambava em “A Ideologia Alemã”, estão menos ocupados em formar os estudantes do que em transmitir os seus valores.

Há, sim, uma perda enorme de tempo e energia. Querem um exemplo escandaloso? O currículo de geografia é o samba-do-submarxista-ignorante-e-doido. Há nele, e os livros da disciplina o demonstram, um pouco de tudo: sociologia, filosofia, economia, política, ecologia… Há até geografia!!! Aquele professor de antigamente, do qual se faz caricatura, que dava chamada oral para saber se o estudante havia decorado os afluentes da margem direita do Amazonas, era intelectualmente mais honesto. O currículo se perdeu. Tudo é possível! E o mesmo acontece, com raras exceções, nas aulas de filosofia e sociologia.

Sim, eu fiz uma generalização um tanto irônica para chamar a atenção para o gosto que a escola brasileira tem pela conversa mole, pelo discurso, pela retórica vazia, pela saliva. Isso está patente nos livros didáticos. Há autores que analisam a sociedade em Roma Antiga segundo os critérios com que Marx, o furunculoso, analisava o capitalismo inglês do século 19. Eu poderia dizer que o “fazem na maior cara-de-pau”. Mas é coisa pior do que isso: é burrice mesmo, falta de formação, falta de inteligência.

É escandaloso que esse pensamento da escória esquerdista tenha de ser combatido em 2011? É, sim! Isso dá conta do nosso atraso — daqui a pouco vou escrever um texto sobre a Faculdade de Direito da USP, a lendária São Francisco, só para deixar claro que a demagogia e a estupidez atingem o alto escalão do ensino universitário também. Muito se reclama da falta de verba da educação, das condições precárias do ensino, dos baixos salários… Sim, tudo sempre pode ser melhorado. Mas o dinheiro não é tão pouco que justifique tanta ruindade. O que há mesmo é falta de gestão.

Querem mais filosofia, artes e sociologia no ensino médio? Muito bem! Então, primeiro, será preciso aumentar o tempo de permanência do estudante na escola — como fazem, aliás, alguns estabelecimentos privados que ministram essas disciplinas sem prejuízo do português e da matemática, que são, na verdade, duas linguagens, duas ferramentas que organizam as demais áreas do saber. Se, hoje, são ministradas de forma precária, não será reduzindo a carga que se vai chegar a algum lugar. O estado oferece essa alternativa? Ainda que oferecesse, os estudantes — muitos deles trabalhadores — têm como ficar mais tempo na escola?

Não, senhores! Uma coisa não pode ser feita em prejuízo da outra! Mais: é preciso definir o repertório dessas aulas de filosofia e sociologia. O que vai ser ensinado? Quais são os textos de referência? A cascata de que “o aluno precisa aprender a pensar” é só um misto de arrogância com vigarice ideológica — no geral, dá-se de barato que o sujeito só pensa quando comunga de valores da esquerda. Vai ver é por isso que só existe socialismo propriamente dito em Cuba (já é possível vender carro velho por lá…), no Laos e na Coréia do Norte. A China e o Vietnã já redescobriram a economia de mercado.

Quando afirmei que precisamos de menos sociólogos e filósofos e de mais engenheiros, alertava para a necessidade de a escola ser mais objetiva, mais técnica e menos retórica. Era, assim, uma espécie de metonímia. Mas poderia ser linguagem puramente referencial. Com a economia crescendo a 4%, 5% ao ano, faltam mesmo engenheiros no mercado. Filósofos e sociólogos do tipo que temos produzido são bons para depressão econômica. Em tese, fica mais fácil vender o peixe do socialismo — um peixe do século 19.
*
E um PS para o professor Herman Voorwald: as escolas particulares de elite — já existe esse serviço também para os pobres — certamente não acatariam a sua sugestão cretina. Isso só serviria para aumentar o fosso, que já é gigantesco, entre o ensino público e o privado.

Por Reinaldo Azevedo


Das duas uma: ou há auxiliares de Alckmin na educação tentando ferrar o seu governo ou se fez a escolha consciente pelo desastre
www.veja.abril.com.br/blog/reinaldo/

Alô, governador Geraldo Alckmin! Há auxiliares seus tentando ferrar o governo. Não permita! Eles estão organizados para que, nos próximos exames de proficiência do ensino médio, o estado caia em vez de subir. Gente assim, governador, tem de ser demitida. Ainda que a medida estúpida, cretina e obscurantista não tenha sido tomada, a simples intenção de tomá-la indica um caminho errado. Isso quer dizer que o senhor pode evitar uma besteira agora, mas talvez não consiga evitar outras, que tenham menos visibilidade. A menos, claro, que as escolhas sejam suas.

Vamos lá. A Secretaria de Educação do estado, comandada por Herman Voorwald, tem pronto um projeto que, atenção!, reduz a carga horária de português e matemática do ensino médio. No lugar, entrariam aulas de espanhol, sociologia e física. A secretaria quer também que os estudantes do terceiro ano escolham um de três currículos: “linguagem”, ”matemática e ciências da natureza” ou “ciências humanas”. É tanta estupidez somada que a gente mal sabe por onde começar. Há nisso, vou demonstrar, um flerte com o pior sindicalismo, e não é a primeira vez que o sr. Voorwald dá piscadelas para os obscurantistas de esquerda. Parece estar empenhado em fazer as pazes com a ala heavy metal da Apeoesp e afins, ainda que sejam os estudantes de São Paulo a pagar a conta. É um mau caminho. Se tucanos puderem imitar petistas nas qualidades, havendo alguma, bem; se não puderem, que não o façam nos defeitos. Vamos ver por onde começar.

Redação, espanhol e sociologia
A prova de redação vale 50% do Enem, um peso excessivo — direi em outro texto por quê. De todo modo, é o que temos. Também costuma ter peso enorme nos vestibulares das universidades públicas e das boas universidades privadas. Para as instituições que vendem diplomas em suaves prestações, com aporte do ProUni, tanto faz; mesmo os analfabetos são admitidos. Diminuir a carga horária de português corresponde a tornar os alunos potencialmente menos aptos para a prova principal.
Atenção! O desempenho dos alunos brasileiros na língua pátria já é desastroso hoje. Mas Voorwald, o sabichão, acha que eles podem saber ainda menos em benefício do espanhol que nunca aprenderão — não na escola regular ao menos (vale também para as privadas), como evidencia o quase inútil ensino de inglês: quem quer aprender mesmo tem de fazer um curso particular.

Também seria aumentada a carga de “sociologia”. A Secretaria de Educação de São Paulo ou está infiltrada pela esquerdopatia obscurantista ou está tentando fazer embaixadinha para os esquerdopatas. As aulas de sociologia, e sei o que estou dizendo, transformaram-se em mero pretexto para o proselitismo mixuruca das esquerdas. Isso quando há professores. Não há sociólogos formados o bastante para atender à demanda das escolas hoje. A introdução dessa disciplina no segundo grau atende à má consciência daqueles que acreditam que a escola tem de “conscientizar” o aluno em vez de ensinar… português, matemática e ciências.

Matemática e física
Digam-me cá: que sentido faz diminuir a carga horária de matemática e ampliar a de física, disciplinas que estão imbricadas? A primeira é ferramenta para a segunda. Voorwald escolheu a trilha errada — e, confesso, eu já andava desconfiado de que isso tivesse acontecido. Já havia notado a sua pouca disposição para dar curso ao programa de promoção por mérito, de eficiência comprovada, introduzido pelo governo de São Paulo. EU TENHO UMA PERGUNTA AO SECRETÁRIO: A QUEM O SENHOR ESTÁ DISPOSTO A SERVIR: AOS ALUNOS, CUJOS PAIS SUSTENTAM A MÁQUINA DO ESTADO, OU À CORPORAÇÃO SINDICAL, QUE MAL ESPERA AS PRÓXIMAS ELEIÇÕES PARA FAZER CAMPANHA EM FAVOR DO PT, JÁ QUE É MERO BRAÇO DO PARTIDO? QUEM SÃO SEUS INTERLOCUTORES PRIVILEGIADOS: OS JOÕES E AS MARIAS OU A BEBEL DO SINDICATO?

O que disse Alckmin
Quero lembrar aqui uma fala do governador Geraldo Alckmin. Na inauguração de uma ETEC em Barueri, no dia 10 de maio:
” (…) O foco do Governo é educação. Então é aluno mais tempo na escola. Nós vamos ampliar as escolas de tempo integral. É investir no professor, na valorização do professor (…) Nós vamos fazer um grande esforço em todas as áreas, em especial em Português e Matemática.”

Estaria o secretário sabotando uma disposição declarada do seu chefe?
Faço, aliás, uma nota à margem: sugiro ao governador que converse com profissionais especializados em educação — e livres das influências nefastas do corporativismo — para avaliar o tal ensino em tempo integral. Mal ele não faz quando funciona direito, mas há uma grande mistificação a respeito do assunto. Oito horas numa escola desorganizada, sem critérios para avaliar eficiência, valem muito menos do que quatro num escola que tenha método, rigor e disciplina. Mais: já hoje há carência de mão-de-obra qualificada. É preciso ver se a prioridade é investir na generalização do ensino integral ou adotar medidas que garantam a eficiência das escolas que temos. Mas volto ao ponto.

Ouvido a respeito, o professor Ocimar Alavarse, da Faculdade de Educação da USP, não vê problema na redução da carga de português e matemática porque ela seria “alta” mesmo. O que é uma “carga alta”? Estariam os estudantes paulistas com sintomas, sei lá, de hipercorreção gramatical e de excesso de cálculo?

As escolhas
A redução da carga também está ligada a escolhas que alunos fariam no terceiro ano do ensino médio, que seria dividido em três áreas: “linguagem”, “matemática e ciências da natureza” e “ciências humanas”. É a divisão proposta pelo Enem, que tem muito de arbitrária. Para que essa tripartição fizesse algum sentido, na hipótese de que pudesse ser virtuosa — eu não acho! —, precisaríamos ter um ensino muito mais organizado do que o temos hoje. Mal se consegue aplicar, com mecanismos para avaliar a eficácia, um só currículo. O aluno que optasse por “matemática e ciências da natureza” teria reduzida a carga de língua portuguesa das atuais 560 aulas para 400 — 28,5% a menos. Insisto: um exímio estudante de matemática que fizesse uma redação desastrosa quebraria a cara no Enem e na maioria dos vestibulares importantes.

Vamos ver se o governador Ackmin compactua com essa besteirada. A crer nas suas próprias palavras, não! E que fique esperto: é evidente que existe uma “pedagorréia” para justificar o injustificável. Trata-se de uma proposta criminosa no que diz respeito à educação. E, é inescapável dizer, se há gente que flerta com isso na Secretaria da Educação, estamos diante da evidência de que se escolheu o caminho errado.

Não só: algo nessa importância não pode ser vazado para a imprensa como se fosse mera decisão burocrática. Trata-se de uma política de governo que duvido que tenha sido adotada. Se foi, então o encontro com os desastres — o educacional e o eleitoral — é fatal.

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